Governo francês pede punição de militares que ameaçaram 'intervenção' em carta aberta

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A ministra das Forças Armadas da França, Florence Parly, disse que vai punir membros do Exército que assinaram uma carta aberta ameaçando uma intervenção no país caso o presidente Emmanuel Macron não aja para "erradicar os perigos" que estariam levando a sociedade a uma "guerra civil".

O texto, assinado por 20 generais da reserva e endossado por cerca de 1.200 militares, foi publicado na semana passada na revista de direita Valeurs Actuelles (valores atuais) no dia do 60º aniversário do chamado golpe dos generais em abril de 1961.

Na época, um grupo de militares, liderados por quatro generais, tentou dar um golpe de Estado contra o então presidente Charles de Gaulle por ele ter decidido abrir mão da colonização da Argélia.

A carta diz que a França está em perigo e que a ausência de ação contra o islamismo e as "hordas suburbanas" -uma referência aos residentes, em sua maioria de imigrantes, das periferias das cidades francesas- levará o país a uma guerra civil.

Os oficiais então acenam com uma intervenção caso Macron não aja para "erradicar os perigos" que estariam levando o país ao declínio.

Não se sabe exatamente as filiações políticas de todos os signatários, mas, segundo o jornal Libération, vários deles têm elos com a RN (Reunião Nacional), sigla liderada por Marine Le Pen, herdeira da antiga Frente Nacional, fundada por seu pai, Jean-Marie Le Pen, no fim da Guerra da Argélia.

O governo e os partidos de esquerda condenaram veementemente a carta, e Florence Parly disse que os militares na ativa desrespeitaram uma lei que proíbe que eles se posicionem politicamente.

"Dois princípios imutáveis orientam a ação dos militares em relação à política: neutralidade e lealdade", escreveu a ministra em suas redes sociais, embora tenha dito que a "imensa maioria" das tropas francesas não endossam a posição do texto.

O analista político Jean-Yves Camus também minimizou o significado da carta e disse à agência de notícias AFP que os signatários "não eram pesos pesados" no Exército.

A candidata de ultradireita Marine Le Pen, por sua vez, demonstrou seu apoio à carta e convidou os militares a "se juntarem" a ela. Em um artigo de opinião no jornal Libération, Parly criticou o posicionamento da candidata, afirmando que "politizar as Forças Armadas é um insulto" e que isso só enfraquece o país.

Em resposta, Le Pen disse à France Info nesta segunda que não se arrepende das declarações e que o país está afligido por "áreas sem lei, crime" e pela "rejeição do patriotismo" pelos líderes de governo, mas concordou que "esses problemas só podem ser resolvidos pela política".

A divulgação da carta acontece num momento em que a França debate temas considerados polêmicos, como segurança, terrorismo e islamofobia, assunto que ganhou mais força após um homem ter matado uma policial a facadas Rambouillet, a cerca de 60 km de Paris, na última sexta (23). O suspeito é de origem tunisiana e foi morto a tiros pela polícia.

A França ainda se prepara para as eleições presidenciais em 2022, e uma pesquisa realizada pelo Ifop para o Journal du Dimanche no domingo (25) aponta que a segurança e a luta contra o terrorismo estão entre as prioridades dos eleitores após uma nova onda de ataques, com a decapitação de um professor e a morte de três pessoas em um ataque a faca na basílica de Nice, no sul do país, em outubro.