Governo Lula frustra evangélicos progressistas, e pastores pró-Bolsonaro ensaiam trégua

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 16.01.2023 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 16.01.2023 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Petistas sabem que Lula ganhou esta eleição por um triz, e que o sufoco eleitoral pode em parte ser creditado à repulsa que o PT evoca em tantas igrejas evangélicas, após anos de campanha bolsonarista pesada nelas.

Daqui pra frente tudo vai ser diferente, ouvia-se nos bastidores da esquerda. Afinal, esse bloco cristão ainda deve crescer um bocado nos próximos anos. O tipo de coisa que pode fazer toda a diferença em um Brasil polarizado a ponto de consagrar um vencedor por margem tão mirrada como a que separou Lula de Jair Bolsonaro (PL).

Mas o que se viu, uma vez garantida a volta de Lula à Presidência, aborreceu tanto a cúpula evangélica à direita quanto a minoria progressista que fez o "L" de Lula com uma mão enquanto segurava a Bíblia com a outra.

O governo Lula ainda não deu sinais de que pretende priorizar o segmento que por anos negligenciou, o que ajudou a empurrá-lo para o colo do bolsonarismo.

Exemplo simbólico: lideranças que integraram grupos de transição do novo governo propuseram não retirar o termo "família" que Bolsonaro agregou no Ministério dos Direitos Humanos ao confiá-lo à pastora Damares Alves.

"Quando falamos em família não estamos falando em carga moral, seja que modelo de família for", faz a ressalva a batista Nilza Valeria Zacarias, coordenadora da Frente Evangélica pelo Estado de Direito. O movimento ganhou assento no Conselho de Participação Social montado pela equipe lulista.

Ela argumenta que deletar "família" da Esplanada poderia passar um recado ruim para um grupo já reticente ao petista. Nos grupos de trabalho das áreas da mulher e dos direitos humanos, ficou claro para evangélicos presentes que a proposta era indigesta.

A palavra acabou ensanduichada no Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, o que não agradou. Ninguém se refere à pasta pelo nome completo.

"Mais cedo ou mais tarde, pode respingar no segmento evangélico que este é um governo que não se importa com a família, o que não é verdade", lamenta Zacarias. "A gente está na guerra de narrativas."

E está perdendo batalhas, avaliam crentes que apoiam Lula. A ideia de criar uma Secretaria de Assuntos Religiosos, ventilada antes da posse, por enquanto saiu do radar. Má sinalização. "Até avançamos na transição. O governo assumiu, e tudo retrocedeu", ela diz.

Do lado bolsonarista, a birra já estava estabelecida, e o início do Lula 3 não ajudou. Irritaram o uso do pronome neutro ("todes") em eventos oficiais e a limpeza do Palácio do Planalto com sal grosso. O gesto é associado a religiões afrobrasileiras, alvo de intolerância religiosa por uma fatia desse grupo cristão. A posse de Anielle Franco (Igualdade Racial) e Sonia Guajajara (Povos Indígenas), com atabaques e uma saudação a Xangô, o orixá da Justiça, também não passou despercebida.

Mas acenos foram feitos dos dois lados. A Assembleia de Deus Madureira, um dos principais ministérios desta que é a maior igreja evangélica do Brasil, é tida no meio como respaldo garantido a Lula. Nem todos, contudo, abriram os braços para o novo presidente.

O presidente da bancada evangélica, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), conta que foi procurado logo após o segundo turno pela senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), aliada de Lula. Para Sóstenes, a real intenção dela era descobrir se Silas Malafaia, seu pastor e uma bazuca anti-PT, topava uma trégua. O deputado diz que rechaçou qualquer proximidade.

Depois de tanto tempo pintando o PT como Partido das Trevas, e Lula como o diabo em pessoa e barba, pastores se viram diante de um dilema. Nunca antes um presidente foi tão consanguíneo com a liderança evangélica quanto Bolsonaro. Mas ele perdeu a eleição. "Bola pra frente", como pregou o bispo Edir Macedo não fazia nem 72 horas do triunfo lulista?

A marcha à ré não seria inédita. O próprio Macedo primeiro demonizou Lula e depois o apoiou, ao sabor do vento político. Parlamentares do batalhão de choque bolsonarista, como o senador eleito Magno Malta (PL-ES) e o deputado Marco Feliciano (PL-SP), outro dia mesmo eram só sorrisos para a petista Dilma Rousseff.

A última década, contudo, consolidou lutas identitárias, inflamou ânimos conservadores e catapultou Bolsonaro, um congressista do baixo clero até então isolado no extremismo, à Presidência. Praticamente todos os pastores de parruda influência nacional embarcaram no bolsonarismo.

Mas nem todos desejam estacionar nele. A questão era entender o caminho menos traumático para se descolar do ex-presidente sem parecer oportunista, após uma relação tão simbiótica entre as partes.

As cenas de vandalismo explícito em Brasília podem, agora, oferecer uma saída honrosa para pastores que não querem ficar atrelados a pautas radicais. Não que antes elas fossem mais palatáveis à democracia, mas dentro de muitas igrejas há a percepção de que não há espaço, por ora, para a estridência bolsonarista outrora abraçada com tanto entusiasmo.

Os apóstolos Estevam Hernandes (Renascer em Cristo) e César Augusto (Fonte da Vida) fizeram campanha para Bolsonaro e, após a vitória de Lula, amansaram as críticas. Augusto, inclusive, enviou representante para a posse do vice-presidente Geraldo Alckmin como ministro da Indústria.

Os dois criticaram o quebra-quebra na capital -desaprovado, aliás, por 94% dos evangélicos, segundo pesquisa Datafolha.

Vieram da Igreja Universal sopapos em série na esquerda, como a recusa em aceitar que um cristão pudesse se reconhecer nesse campo. O bispo Eduardo Bravo, um porta-voz da igreja, repudiou o extremismo do dia 8. Bola pra frente.

Não que a resistência a Lula tenha sumido do mapa. A maioria ainda se ressente de Lula ter vencido, ainda que entenda que continuar a bater de frente com ele não é vantajoso para ninguém.

E há pastores firmes e fortes na oposição, que até relativizaram a destruição em Brasília. Vide Silas Malafaia, Josué Valandro Jr. (líder da igreja de Michelle Bolsonaro) e alguns líderes da Igreja Presbiteriana do Brasil --o reverendo Ludgero Bonilha chegou a reproduzir numa rede social um post sobre o "povo brasileiro de bem" e seu direito de não mais reconhecer a legitimidade do Estado.