Governo Lula não pode cortejar quem flertou com o fascismo, diz Renan sobre aproximação com Lira

O senador Renan Calheiros (MDB-AL), um dos principais aliados de Lula no Congresso, criticou petistas que têm estudado a possibilidade de apoiar Arthur Lira (PP-AL) na reeleição à presidência da Câmara dos Deputados. Ele diz que o MDB se reunirá com parlamentares do União Brasil para debater uma frente para disputar as presidências do Senado e da Câmara.

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— Vamos ter uma conversa de setores do MDB com setores do União Brasil. Esse modelo de frente é fácil de implementar. Já tem essa base toda do PT, União Brasil, MDB. Nós tínhamos que ter uma contrapartida (do governo eleito) todo mundo na Câmara, e não partir nesse primeiro momento para cortejar o Centrão, essa gente que flertou com o fascismo — disse ao GLOBO.

A ideia de abrir espaço no Orçamento de 2023 para o Auxílio Brasil de R$ 600 e outras medidas com uma PEC da Transição, anunciada pelo PT, contrariou os interesses de emedebistas. Eles enxergam a proposta como um fortalecimento para Lira, já que seria votada ainda no governo Bolsonaro. O senador Renan Calheiros chamou a PEC de "barbeiragem" na semana passada.

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Nesta quarta-feira, Arthur Lira se reunirá com o presidente eleito Lula (PT). Questionado sobre se espera ter o apoio de Lula na candidatura à presidência da Câmara, em que hoje é o candidato mais forte, Lira desconversou:

— É melhor perguntar para ele (Lula) — disse ao GLOBO.

Luciano Bivar, presidente do União Brasil, já declarou que não será da oposição e se mostrou disposto a conversar com Lula. O partido é uma das prioridades do PT na formação de uma base aliada no Congresso, como o PSD. Uma união prévia entre União Brasil e MDB daria força a esses partidos na negociação por espaços nos ministérios e na escolha por um candidato à presidência da Câmara.

Nas bancadas do União Brasil, não há definição sobre integrar a base. Os parlamentares devem se reunir em 15 de novembro. Questionado sobre a fala de Renan, o líder do União na Câmara, Elmar Nascimento (BA), diz que está viajando e não participou das conversas. E que não há pressa para decidir se participarão do governo.

— Sem pressa, nem stress — comentou.

O presidente do MDB, Baleia Rossi (SP), tem uma série de nós a desatar com o governo eleito para que seu partido integre efetivamente a base aliada. Os caciques do partido esperam ter proeminência nas negociações e serem atendidos com ministérios, além de influenciarem nas presidências da Câmara dos Deputados e Senado.

A cúpula do MDB, segundo fontes ouvidas pelo GLOBO, aguarda sinalizações concretas de Lula. Uma delas é saber se o governo eleito irá apoiar a reeleição de Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, no ano que vem. O partido é rompido com Lira e gostaria de lançar um candidato próprio na disputa e derrotar Lira. São cotados Eunicio Oliveira (CE), deputado eleito, e Isnaldo Bulhões (AL), atual líder na Câmara, como possíveis candidatos.

Além disso, também é esperado que, em troca do apoio no Congresso, o MDB ganhe espaços na Esplanada dos Ministérios. A senadora Simone Tebet (MS), apoiadora de Lula na campanha, foi incluída como integrante da equipe de transição como "cota pessoal" de Lula, segundo emedebistas. Ela não é uma opção da "velha guarda" do MDB para um ministério, já que é definida como alguém com pouco "trânsito", ou seja, sem histórico de habilidade em negociar cargos e verbas no Parlamento.

Isso significa que, mesmo se Tebet for nomeada ministra, o MDB pleitearia um outro espaço para conseguir atender deputados e senadores. Ao longo desta terça-feira, Baleia Rossi consultou líderes sobre quem poderia integrar a equipe de transição. Não necessariamente será o mesmo nome que ocupará um ministério depois, mas a indicação já servirá para mostrar que participação o partido quer ter no governo.

Ao contrário de outros partidos de centro, como União Brasil, PP, PL e Republicanos, o apoio do MDB ao futuro governo Lula já é dado como certo. A negociação, agora, é em que condições será a participação, e o que o PT está disposto a dar em troca.

O líder do MDB na Câmara, Isnaldo Bulhões (AL), diz que não há entraves para que o MDB faça parte da base, mas que o presidente Lula ainda não falou com clareza sobre a "participação de cada partido" no governo. O nome para integrar a equipe de transição será definido ainda nesta terça-feira, segundo ele.

— Estamos em um momento embrionário de formação da base do governo, e cabe ao presidente eleito definir como será montada a base dele — disse sobre a negociação.