Governo pagou 29% a mais por máscaras KN95, consideradas inadequadas para hospitais

·4 minuto de leitura
WASHINGTON, DC - APRIL 06: A baseball fan wears a KN95 protective face covering due to the coronavirus as a baseball diamond is reflected in their sunglasses as the Washington Nationals play against the Atlanta Braves at Nationals Park on April 6, 2021 in Washington, DC. The Washington Nationals delayed their season opener due to a Covid-19 outbreak that sidelined 11 players. They are only allowing 5,000 fans due to the Covid-19 pandemic. (Photo by Patrick Smith/Getty Images)
Pessoa usa uma máscara KN95. Foto: Patrick Smith/Getty Images
  • Diferença é em relação a compra de grupo privado com mesma empresa na mesma época

  • Máscaras foram distribuídas para profissionais na linha de frente do combate à pandemia

  • Anvisa já alertou sobre ineficácia deste tipo de máscara em ambiente hospitalar

Em compra de máscaras do tipo KN95, o Ministério da Saúde gastou 29% a mais que uma empresa privada que realizou uma negociação similar na mesma época, com o mesmo fornecedor e importador.

As 40 milhões de máscaras, que foram distribuídas para profissionais da linha de frente de combate à pandemia, foram compradas em abril de 2020, pelo valor de US$ 66 milhões. Caso a pasta tivesse adquirido pelo valor mais baixo, o custo teria sido de US$ 51,2 milhões, uma economia de US$ 14,8 milhões.

A máscara do tipo KN95, no entanto, já foi taxada como inadequada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para ser usada em ambientes hospitalares e por pessoas em contato direto com o vírus. O aviso foi emitido em março deste ano.

O lote faz parte do maior contrato de insumos hospitalares firmado pelo governo federal para combater o Covid-19, que inclui também máscaras mais simples. As informações são do portal UOL.

O negócio foi firmado com a 356 Distribuidora, Importadora e Exportadora, que representa a empresa de Hong Kong Global Base Development HK Limited no Brasil. De acordo com o contrato, o Brasil pagou US$ 1,65 por máscara.

Leia também:

No mesmo mês, a 356 Distribuidora importou 200 mil máscaras KN95 para uma companhia privada, pelo valor de US$ 1,28 a unidade, segundo apurou o portal UOL.

Em nota, os advogados Eduardo Diamantino e Fábio Tofic, que representam o dono da importadora, Freddy Rabbat, afirmaram que o valor ofertado para o Ministério da Saúde "está abaixo da média de mercado na época da aquisição, momento em que havia um crescimento sem precedentes da demanda mundial pelo produto e o Brasil corria o risco de não conseguir insumos para enfrentar a pandemia de covid-19".

Eles, no entanto, não comentaram a diferença entre os valores pagos pelo governo brasileiro e o grupo privado.

Freddy Rabbat é o presidente da Associação Brasileira de Empresas de Luxo, além de representar a marca de relógios suíça Tag Hauer no país. Somado a essas atividades, Rabbat atua como conselheiro fiscal da Eucatex, companhia da família do ex-deputado federal Paulo Maluf (PP), desde 2019.

Mercado privado

A importação de máscaras mais baratas para o grupo privado teve apoio da empresa de trading Ascensus Group, sediada em Joinville (SC). Ao UOL, a empresa confirmou a negociação e disse que não poderia revelar o nome do comprador final por conta de uma “cláusula de confidencialidade”.

Nesta operação, a empresa chinesa Shenzhen Swift Imp. & Exp. Co. Ltda é listada como a fornecedora dos itens. A companhia é a única dona da Global Base Development, que forneceu as máscaras ao Ministério da Saúde. Além disso, ambas possuem o mesmo administrador legal, Zhang Yong.

Já na proposta apresentada ao governo federal, Rabbat indicou BI Tian Yuan como responsável pela Global Base e representante da sua companhia.

BI Tian Yuan é um jovem de 19 anos, que nos Estados Unidos adotou o nome de Jack Yuan. Ele estuda na Universidade de Stanford e é colega do filho de Rabbat, Freddy Rabbat Neto, de 20 anos.

O filho do dono da 356 Distribuidora teve, segundo aponta o processo administrativo acessado pelo UOL, participação na negociação. Ele está em cópia de e-mails trocados entre seu pai e representantes do Ministério da Saúde que tratavam sobre a forma de pagamento das máscaras.

Compra já foi questionada

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) já havia questionado parte das máscaras adquiridas pelo Ministério da Saúde. Isso porque algumas das embalagens vinham com o termo “non-medical”, o que significa que elas seriam impróprias para o uso hospitalar e em centros de saúde.

A fabricante, no entanto, argumentou que as máscaras são apenas impróprias para uso em centros cirúrgicos.

O Ministério da Saúde já havia admitido, no início da negociação de insumos, que o fato de se tratar de uma compra emergencial, poderia não possibilitar o fechamento do preço mais vantajoso para o Brasil.

De acordo com o contrato, coube ao governo federal organizar e arcar com os custos de frete, que ficou em US$ 17,9 milhões.

No total, as 40 milhões de máscaras KN95 e o lote de máscaras mais simples deveriam ter custado aos cofres públicos R$ 695,2 milhões. De acordo com o Portal da Transparência, por conta de alterações cambiais, a aquisição saiu R$ 38,8 milhões mais cara.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos