Governo do Panamá negocia nova redução da gasolina com sindicatos, mas protestos continuam

O Panamá acordou nesta segunda-feira com múltiplos protestos e bloqueios de estradas, apesar do compromisso alcançado no dia anterior entre o governo e as organizações sindicais de suspender as manifestações, depois que as autoridades concordaram em baixar novamente os preços dos combustíveis.

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Os principais bloqueios ocorreram na Cidade do Panamá, onde trabalhadores do sindicato da construção civil (Suntracs), o maior do país, fecharam os diferentes acessos à capital e suas principais vias, causando congestionamentos.

— Não temos conhecimento de nenhum acordo assinado em Veraguas — disse o secretário-geral da Suntracs, Saúl Méndez, no domingo, em referência ao local onde o compromisso foi assinado.

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Previsto para vigorar a partir desta segunda-feira, o acordo foi negociado entre o governo e a Aliança Nacional pelos Direitos do Povo Organizado (Anadepo), prevendo o encerramento dos bloqueios em troca de uma nova redução no preço dos combustíveis.

O governo e os dirigentes da Aliança Nacional pelos Direitos do Povo Organizado (Anadepo) "logram um acordo sobre o preço do combustível em 3,25 dólares por galão e a suspensão das paralisações a nível nacional", disse a Presidência, em nota, no domingo. "Estes acordos são fruto do consenso e da vontade das partes em manter a paz social", acrescentou.

— Muitos panamenhos sofreram com essas paralisações — disse o vice-presidente panamenho, José Gabriel Carrizo, após a assinatura do acordo. — Este é um grande esforço do governo.

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O compromisso foi assinado em Santiago de Veraguas, cidade localizada 250 km a Noroeste da Cidade do Panamá, epicentro das negoaciações. O Suntracs, juntamente com outros sindicatos, porém, se opôs ao acordo, alegando que não incluiu todas as organizações que convocaram as organizações.

A proposta de 3,25 dólares por galão (3,78 litros), foi melhor do que os 3,30 oferecidos separadamente, em outra mesa de negociação à parte, à comunidade indígena da Comarca Ngäbe-Buglé, na província de Chiriquí, no extremo oeste do país .

A maior parte dos alimentos frescos do país é produzida em Chiriquí, por isso o bloqueio nessa área complicou o abastecimento de todo o Panamá. O acordo também prevê a continuidade da negociação de reduções na cesta básica e medicamentos.

O secretário-geral da Suntracs, Saúl Méndez, afirmou nesta segunda-feira que seu sindicato esteve em contato com a Igreja Católica para promover um novo diálogo com "uma mesa única e com todos os atores que estão lutando na rua para encontrar uma solução para os problemas que o país vive."

Na cidade de Pacora, a leste da capital panamenha, os protestos causaram desabastecimento em alguns supermercados. Alguns novos bloqueios também foram relatados na rodovia Pan-Americana, que liga o Panamá à Costa Rica, onde os bloqueios foram suspensos no domingo. É a principal via de comércio e transporte de mercadorias em todo o país.

Algumas ruas da capital foram bloqueadas com barricadas erguidas com pneus em chamas, obrigando a polícia a desviar os veículos que passavam. Em outros pontos havia pessoas se deslocando à pé para o aeroporto, localizado a cerca de 20 km a nordeste da Cidade do Panamá.

O governo havia inicialmente oferecido um corte de US$ 5,20 para US$ 3,95 o galão, mas foi rejeitado. Os protestos geraram escassez de gasolina e alimentos, além de prejuízos milionários, segundo associações empresariais.

Além da redução no preço do combustível, o compromisso também contempla continuar negociando reduções na cesta básica e em medicamentos. As manifestações ocorreram em um cenário de inflação crescente, aumento do preço do combustível, que chegou a 47%, e taxa de desemprego em torno de 10%.

Crise histórica

O Panamá, com 4,2 milhões de habitantes, vive uma das maiores crises sociais desde a queda da ditadura militar do general Manuel Antonio Noriega, em 1989, após a invasão norte-americana.

Há mais de duas semanas o país é palco de manifestações e bloqueios de estradas para exigir que o governo de Laurentino Cortizo reduza os preços e tome medidas contra a corrupção e o desperdício de recursos públicos.

Apesar de sua economia dolarizada, altos números de crescimento econômico e renda de mais de US$ 2 bilhões por ano através do Canal do Panamá, o país tem uma das maiores taxas de desigualdade do mundo, com saúde pública e educação precárias.

Na Cidade do Panamá, cem pessoas se manifestaram no domingo à beira-mar vestidas de preto.

— A cesta básica custa mais do que o salário médio, estamos com um grande problema social. As pessoas estão fartas e saíram às ruas para se manifestar para que as coisas mudem — disse à AFP a advogada panamenha Jaqueline Hurtado.

— Nos 68 anos de vida [que tenho], cansei de ver governos que prometem, ganham, roubam, caem, o próximo segue e aqui nos falta tudo, remédio, educação, comida, há uma desigualdade que não tem nome — acrescentou a aposentada Iliana Arango.

As autoridades panamenhas informaram que, devido ao fechamento das ruas, também foi afetado o movimento de migrantes que, depois de chegar ao Panamá pela selva de Darién, buscavam a fronteira com a Costa Rica, a caminho dos Estados Unidos.

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