Governo promete ao centrão 'apadrinhamento' de verba do coronavírus

Natália Portinari
Hospital de campanha em Manaus, no Amazônas, estado já com as UTIs em colopso por causa do coronavírus

BRASÍLIA — O governo federal pediu a deputados aliados, de partidos do centrão, indicações de quais municípios deverão receber parte da verba emergencial do combate ao coronavírus do Ministério da Saúde. Deputados de diversas legendas ouvidos pelo GLOBO, que não quiseram se identificar, relatam ter indicado cidades para receber cerca de R$ 10 milhões. A informação foi confirmada por fontes próximas ao Palácio do Planalto.Cada partido teve a oferta de um valor fixo pelo governo e decidiu como distribuir os valores entre seus deputados. Entre os parlamentares ouvidos pelo GLOBO, a média de indicação individual foi de R$ 10 milhões, mas líderes tiveram direito a valores mais altos.

Bolsonaro: critica governadores contrários a decreto de salões e academias e fala em 'autoritarismo'Segundo um vice-líder do governo na Câmara, o valor total, determinado pelo ministro da Secretaria de Governo Luiz Eduardo Ramos, varia entre partidos. Siglas que já foram atendidas de outras formas, com cargos, por exemplo, receberam um "desconto".

Para calcular a verba, também foi levado em conta o número de deputados fiéis em cada legenda. Só terá direito à indicação quem se comprometer a votar com o governo.A negociação envolveu siglas como PP, PL, PSD, Podemos, Republicanos e Patriota. A verba ainda não foi paga, mas alguns já enviaram indicações ao Palácio há mais de duas semanas. A promessa do governo é de recompensar a lealdade da base fazendo transferências diretas ao caixa das cidades dos aliados.A negociação da verba não foi atrelada a nenhuma votação específica, mas serve para barrar o andamento de um possível processo de impeachment, segundo deputados. É preciso ter ao menos 172 votos para impedir o afastamento de um presidente no Congresso.A verba que será utilizada para os pagamentos é do orçamento de custeio extra do Ministério da Saúde para o combate ao coronavírus no Brasil. Ao contrário do que ocorre com emendas parlamentares, a verba não seria associada ao nome dos deputados nos portais de transparência. Trata-se de um apadrinhamento informal.É a mesma forma de negociação utilizada pelo governo Bolsonaro no ano passado para a aprovação da reforma da Previdência. Mesmo deputados novatos, que não tinham direito a emendas, apadrinharam informalmente uma soma total de R$ 1,2 bilhão, segundo um levantamento do GLOBO em fevereiro deste ano.A reportagem procurou a Secretaria de Governo, mas o órgão não se pronunciou sobre a negociação até a publicação desta reportagem.