'Governo trata segurança alimentar como negócio', diz sucessor de Betinho

*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 01.04.2020 - Geladeira quase vazia em moradia precária no Jardim Papai Noel, na região de Parelheiros, zona sul de São Paulo. (Foto: Lalo de Almeida/Folhapress)
*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 01.04.2020 - Geladeira quase vazia em moradia precária no Jardim Papai Noel, na região de Parelheiros, zona sul de São Paulo. (Foto: Lalo de Almeida/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O avanço da fome no país, que atinge agora 33 milhões de brasileiros, é apontado como tragédia social por Rodrigo ‘Kiko’ Afonso, um dos herdeiros de Betinho (1935-1997).

À frente da ONG Ação da Cidadania, fundada pelo sociólogo que se tornou referência no combate à fome no Brasil, Kiko Afonso credita a escalada do problema no país a um governo que trata a segurança alimentar como negócio.

Crítica sustentada com base no novo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede Penssan, com apoio da ONG, e anunciado nesta quarta-feira (8).

Prestes a lançar uma agenda de propostas para os próximos governantes, o empreendedor social diz que empresas e sociedade também não estão olhando para o problema, que voltou a patamares da década de 1990. "Mesmo com dados alarmantes, não há sensação de indignação completa."

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o sociólogo conta por que "Betinho deve estar se revirando com essa notícia."

PERGUNTA -O que contribuiu para chegarmos a 33 milhões de pessoas em situação de fome, segundo inquérito da Rede Penssan?

RODRIGO AFONSO -Não foi só a Covid ou a guerra da Ucrânia. Ambos só aceleraram o processo que vinha desde 2016, quando políticas públicas de assistência social e programas de segurança alimentar foram dizimados.

Foram instrumentos que fizeram o Brasil sair do Mapa da Fome da ONU. O conselho de segurança alimentar, que unia sociedade civil e governo, foi extinto por Bolsonaro. E, agora, temos um governo que trata segurança alimentar como negócio.

P.-De que maneira o governo faz isso?

RA -A produção de alimentos foi virando foco de exportação, com redução drástica de alimentos que compõem a cesta básica. Arroz e feijão têm área plantada 70% menor que há dez anos.

Outros alimentos deixaram de ser produzidos porque não há incentivo. A única linha de crédito que existia, o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), foi congelado.

Enquanto isso, o agronegócio exportador recebe bilhões em subsídios de empréstimos e isenções de impostos. Entre 2019 e 2020, segundo dados do Banco Central, a soja recebeu R$ 62 bilhões em créditos, milho ficou com R$ 26 bilhões, café com R$ 15 bilhões e cana-de-açúcar com R$ 13 bilhões.

Por que subsidiamos tanto o agro, temos PL do veneno, enquanto o pequeno produtor, que coloca alimento na mesa, não tem apoio?

P.-A fome tem endereço, cor ou idade?

RA -A pesquisa mostra claramente o quanto a fome tem CEP, cor e gênero. Mulheres negras que moram no Nordeste e Norte são as mais afetadas pela fome, com 65% das famílias chefiadas por elas vivendo em algum grau de insegurança alimentar. É absurdo. Mostra nossa tragédia social.

P.-O inquérito aponta que o país regrediu a um patamar equivalente ao da década de 1990.

RA -É uma frustração depois de toda a luta que tivemos em décadas. O cenário é pior do que quando Betinho e a sociedade se indignaram contra a fome, quando a Ação da Cidadania foi lançada. Ele deve estar se revirando com essa notícia.

A fome é uma decisão política. Temos instrumentos e dinheiro para erradicá-la, sabemos como fazer, mas isso mexe com interesses de poucos.

P.-A Ação da Cidadania atua há 30 anos no combate à fome. Algum dado dessa pesquisa foi inédito para vocês?

RA -Nunca imaginamos esse retrocesso. Em uma das reuniões do inquérito, quando os números foram apresentados, a certa altura estávamos todos chorando. Apesar dos esforços, quando não há vontade política, a solução não chega.

P.-O que vocês têm feito para mitigar esse problema?

RA -A pesquisa é uma maneira de sensibilizar a sociedade. Fazemos campanhas de arrecadação, atuamos nas tragédias de Pernambuco, no Sul da Bahia, em Petrópolis, na pandemia.

Em junho, faremos um grande evento para propor soluções para que os próximos governantes atuem de forma definitiva na erradicação do problema.

Faremos um chamado à sociedade. A eleição impede novas ações, então serão seis meses de trevas. Teremos que dar as mãos para salvar 33 milhões de brasileiros que estão com fome agora.

P.-Em um ano eleitoral, como os planos de governo estão abordando a insegurança alimentar?

RA -Alguns governos trazem este tema para seu discurso. Lula tem falado, Ciro Gomes também. Seja lá qual for o governo, é preciso ter coragem para mexer, pois sem ela a população vai continuar com fome.

No dia 8 de junho, vamos à Câmara dos Deputados lançar a nova Agenda Betinho.

P.-Como Betinho levantou essa bandeira tão fortemente de maneira que a causa foi abraçada pela sociedade?

RA -Quando Betinho levou essa questão para o então presidente Itamar Franco, em 1992, ele decretou estado de emergência e reuniu todos os ministros para pensar ações de combate à fome.

A mídia tinha engajamento mais profundo. Hoje, vários temas são censurados, especialmente quando abordam o agronegócio, que é financiador.

Betinho era uma figura pública amada e respeitada que foi alavancada pela mídia. Também tínhamos uma sociedade menos dividida. Fome é fome, não cabia debate ideológico sobre isso.

P.-Como empresas podem apoiar essa mobilização?

RA -O ESG [sigla para práticas ambientais, sociais e de governança] é instrumento limitador do combate à fome.

Das 116 empresas que entregaram relatórios de impacto social na Bolsa de Valores para fazer parte dos índices de sustentabilidade, só 16 têm o ODS 2 [meta de acabar com a fome] como prioritário. Dessas 16, a maioria são empresas alimentícias.

Isso indica que o ESG tem sido foco de investidores que querem se proteger de riscos de impactos socioambientais sobre seus negócios.

A fome não é risco para empresas. Algumas encaixam rubricas de forma criativa, mas estamos limitados e dependemos do dinheiro do marketing, área que vive de ciclos de campanha.

Só que a fome é todo dia. Precisamos do dinheiro do ESG, não só do marketing.

Ainda que sejam temas fundamentais, não adianta falar de diversidade se a pessoa está com fome. Você aborda esses temas na favela e as pessoas devolvem que estão com fome.

P.-Quem tem fome está com ainda mais pressa, como dizia Betinho?

RA -Muito mais. Pressa já tínhamos há seis anos, agora, mesmo com dados alarmantes, não há sensação de indignação completa.

Tivemos passeata contra vinte centavos de passagem de ônibus, como não temos uma mobilização dos brasileiros contra a fome?

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