Governos aliados dos EUA pagaram valores milionários a hotel de Trump, mostram registros

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - O hotel do ex-presidente dos EUA Donald Trump em Washington recebeu mais de US$ 750.000 (R$ 3,9 milhões) de autoridades estrangeiras enquanto o republicano comandava o país. Os valores estão nos documentos que a ex-empresa de contabilidade de Trump entregou ao Congresso americano.

Os registros, divulgados nesta segunda (14), apontam que os governos da Malásia, Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Turquia e China gastaram, entre 2017 e 2018, mais dinheiro no hotel do que o divulgado anteriormente.

O primeiro-ministro malaio, por exemplo, contratou um personal trainer de US$ 1.500 durante sua estadia no hotel em 2017. Já o Ministério da Defesa saudita alugou várias suítes, custando US$ 10.500 cada, e autoridades do Qatar gastaram mais de US$ 300.000 nas semanas que antecederam uma reunião com Trump em 2018.

Os documentos estão sendo analisados por um comitê investigativo da Câmara dos Deputados que apura a arrecadação milionária do hotel de Trump enquanto ele era presidente. O órgão estimou anteriormente que a empresa havia recebido mais de US$ 3,75 milhões de governos estrangeiros entre 2017 e 2020 e levantou hipóteses de que o republicado pode ter infringido uma lei que impede autoridades de receberem valores e presentes de governos estrangeiros.

"Esse é um quadro extremamente preocupante", disse a deputada democrata Carolyn Maloney, presidente do comitê. Ela acrescentou que os documentos "questionam fortemente até que ponto Trump foi guiado por seu interesse financeiro enquanto esteva no cargo, em vez de prezar pelos interesses do povo americano".

Já Eric Trump, filho do ex-presidente e responsável por administrar o conglomerado da família enquanto seu pai esteve na Casa Branca, disse nesta segunda que todos os lucros que o hotel adquiriu com as estadias foram entregues ao governo.

"Como empresa, fizemos um tremendo esforço para evitar até mesmo a aparência de um conflito de interesses", disse em um comunicado. Segundo ele, o hotel fez isso "não devido a qualquer exigência legal, mas por causa do respeito que temos pelo gabinete da Presidência".

Os documentos divulgados nesta segunda mostram que, em setembro de 2017, quando Trump se encontrou com o então primeiro-ministro da Malásia, Najib Razak, a delegação malaia gastou ao menos US$ 259.000 no hotel do republicano. Curiosamente, na ocasião, o então presidente americano agradeceu seu homólogo por "todo o investimento que você fez nos Estados Unidos". Razak, aliás, já era investigado pelo Departamento de Justiça por corrupção.

Na época, a Casa Branca negou que Razak estava hospedado no hotel sob ordem do governo Trump.

Também naquele ano, autoridades da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Qatar gastaram centenas de milhares de dólares no hotel de Trump. À época, Washington pressionava Riad e Abu Dhabi a retomarem os laços diplomáticos com Doha.

Segundo os documentos, funcionários do governo da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes gastaram ao menos US$ 164.000 no hotel de Trump entre o final de 2017 e meados de 2018. Autoridades do Qatar e empregados de empresas aliadas ao governo do país, por sua vez, gastaram pelo menos US$ 307.000.

Os registros divulgados pelos investigadores da Câmara também mostram um total de US$ 65.139 gastos pelo Conselho Turco Americano, organização sem fins lucrativos ligada ao governo da Turquia.

O conselho, aliás, patrocinou duas conferências realizadas no hotel de Trump entre 2017 e 2019, na mesma época em que o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, pressionou Trump a encerrar uma investigação contra uma estatal do país. A embaixada da Turquia nos EUA também aparece nos registros de cobrança do hotel, mas são incertos os detalhes dos serviços contratados.

No mês passado, o comitê também divulgou que o Serviço Secreto americano pagou mais de US$ 1,4 milhão a propriedades hoteleiras de Trump no período em que o republicano ocupou a Presidência. Segundo os registros, a Organização Trump cobrou do órgão até US$ 1.185 por noite, valor bem acima do que era estipulado pelo governo.