‘Governos erraram ao acabar com exigência de máscaras’, diz CEO de gigante global de testes e diagnóstico

A Covid será um divisor de águas no investimento em diagnóstico, espera Thierry Bernard, CEO de uma das maiores empresas desse segmento no mundo, a alemã Qiagen. À coluna, o executivo francês contou como entende que governos acordaram para a importância de testes e monitoramento de contágio, mas falharam ao relaxar medidas como a obrigatoriedade do uso de máscaras. Para ele, a pandemia está longe do fim.

Metade das receitas da Qiagen vem de insumos para laboratórios, como enzimas e equipamentos, e a outra vem de testes prontos. Recém-incluída no principal índice da Bolsa de Frankfurt, a companhia vale US$ 10 bilhões e faturou US$ 2,2 bilhões no ano passado.

Como a pandemia transformou seu negócio?

Ela provou que investir em diagnóstico é importante na cadeia de saúde. Historicamente, embora influenciem 70% das decisões médicas, investe-se apenas 5% dos gastos em diagnósticos. É uma situação desequilibrada. Isso vai mudar. Os governos entenderam que o diagnóstico faz parte da preparação. Fazia-se estoque de vacina, mas não de teste.

Há sinais concretos de mudança?

Um sintoma de que os governos estão dispostos a investir mais nisso é o monitoramento de vírus no esgoto. Há muito tempo, os governos fazem monitoramento de pólio por esse método. E o coronavírus é um exemplo que ilustra muito bem a eficiência dessa técnica, pois é um vírus de RNA, que deixa mais partículas na água. No Brasil, a Sabesp e várias universidades utilizam uma solução nossa, embora não haja um programa nacional. E acabamos de lançar um teste digital de PCR para esse tipo de monitoramento que será usado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC). Estamos desenvolvendo uma solução dessas para a varíola dos macacos.

Um legado da Covid será uma revolução dos autotestes?

Agora, todo mundo sabe o que é um PCR e um teste antígeno, isso é bom. Nos últimos 15 anos, houve duas grandes tendências: a consolidação do mercado de laboratórios e, ao mesmo tempo, a descentralização dos testes, seja em casa, no médico, na farmácia etc. Testes de gravidez e diabetes existem há muito tempo e funcionam. Mas, em geral, tenho restrição a autotestes para doenças infecciosas.

Por quê?

Imagine que você faça um teste de Covid em casa e dê positivo, mas você não pode deixar de trabalhar de maneira nenhuma. Provavelmente você não ficará em casa. Por isso defendo testes sob supervisão médica.

Mas os autotestes se popularizaram…

Mas muito pelo fato de ser oferecido gratuitamente em muitos países. Essa gratuidade está acabando, e agora vamos ver como esse mercado se comporta.

A Qiagen não está aproveitando a tendência?

Na pandemia, acompanhamos a tendência de tornar os testes mais fáceis. Estamos criando mais testes comerciais que permitem que o paciente faça a coleta em casa e leve a amostra a um laboratório, por exemplo, e receba o resultado pelo celular.

A pandemia está perto do fim?

A gente aumentou o controle da mortalidade, mas não estamos controlando a contaminação. Minha preocupação é que há novas variantes a toda hora. Com a variante BA.5, os casos estão dando saltos. As novas variantes estão invadindo as defesas da vacina. Muitos governos cometeram o erro de retirarem a obrigatoriedade das máscaras. Entendo que as pessoas estão cansadas, mas se não houver o mínimo de regras, teremos isso o tempo todo.

Políticas mais restritivas como as da China tampouco parecem funcionar…

Minha visão é que a política de Covid zero na China vai fracassar. No dia em que você abre, o vírus se espalha. A política correta, provavelmente, é, em todo lugar onde houver aglomeração, manter a obrigatoriedade de máscara. Acabei de pegar um avião e eu era o único de máscara. Isso não é correto.

A varíola dos macacos será uma pandemia?

O que se sabe é que o número de casos cresce três vezes por semanas. O que nos conforta é que a vacina contra a varíola é eficiente contra a varíola dos macacos. Então temos que agir rápido. O que me preocupa é que muitos governos não estão querendo oferecer essas vacinas. Eles deveriam estar vacinando agora crianças e idosos. Do nosso lado, começamos a acelerar a fabricação de componentes para o CDC e a trabalhar em testes comerciais e de monitoramento.

Qual é a importância do Brasil para a Qiagen?

O peso dos países emergentes no nosso faturamento é de 15% e deve crescer para 20% nos próximos anos. O Brasil só fica atrás de China e Coreia. E não estar aí é impensável pra gente. O Brasil tem laboratórios enormes, como Dasa e Fleury, e instituições como Bio-Manguinhos e Fiocruz. Por isso que nosso plano é continuar a investir no Brasil. Dada sua importância, ter uma fábrica aí no futuro não é um tabu pra gente.

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