Grêmio Pague Menos: clube cearense originado em farmácia conquista acesso em primeiro ano como profisional

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Em 2022, algumas das principais equipes do Brasil aceleram seus planejamentos para se tornar clubes-empresa e permitir a entrada de investidores externos no controle e na administração do futebol — ontem o ex-atacante Ronaldo anunciou que comprou o Cruzeiro —, um modelo que deve abrir espaço para uma maior presença de empresas no esporte. Enquanto isso, no Ceará, um projeto de moldes um pouco diferentes uniu o futebol e uma da principais redes de drogarias do Brasil, fundada no estado: em seu primeiro ano como clube profissional, o Grêmio Recreativo Pague Menos conquistou o acesso à segunda divisão do Campeonato Cearense no fim de novembro.

A parceria, que à primeira vista parece inusitada, já tem mais de dez anos. O clube, que carrega o nome e o logo da rede em seu escudo, foi fundado em 2011 por Josué Ubiranilson Alves, um dos principais sócios da empresa, e tem origem em campeonatos internos entre os funcionários. Atual vice-presidente do clube, Sávyo Paula Santos, farmacêutico do grupo há 22 anos, organizava os campeonatos em campos alugados.

Mas a situação mudou após a aquisição, em 2008, de um centro de distribuição pela empresa no bairro de Jacarecanga, no subúrbio de Fortaleza. Um projeto de área de lazer virou uma quadra para os funcionários e se transformaria, pouco a pouco, na estrutura de um clube.

— Hoje, temos um centro de treinamento com um campo oficial de grama sintética, uma das maiores quadras cobertas do estado e estamos fazendo uma reforma administrativa — diz Sávyo.

No fim de novembro, a equipe bateu duas vezes o Quixadá (2 a 1 em ambas as partidas de semifinal) pela terceirona e garantiu o acesso à Série B do Campeonato Cearense. Foi à decisão contra o Guarani de Juazeiro, empatou em 0 a 0, mas acabou caindo nos pênaltis, no último dia 2. Na fase de grupos, a campanha foi de três vitórias e um empate, incluindo uma goleada por 9 a 0 sobre o Itarema.

Parceria com América e Pacatuba

A experiência do Pague Menos como profissional começou em junho deste ano, mas o envolvimento é antigo. Em 2013, a instituição firmou parceria com o América, um clube tradicional de Fortaleza que viveu seu auge na década de 60. Cedeu o centro de treinamentos e material humano — um time quase todo formado por atletas contratados para atuar como funcionários do centro de distribuição e treinar em meio período — numa campanha histórica de título da Série C do Cearense.

— Na época, a gente já tinha um trabalho social muito forte, que passava dos portões da empresa. Estávamos muito envolvidos com a comunidade, recebíamos garotos para treinar e outras atividades. Por conta dos jogos que fazemos nos subúrbios, já estávamos muito conhecidos.

A Pague Menos patrocinou o projeto na época, com um aporte de R$ 15 mil, que subiria para R$ 200 mil no ano seguinte, quando o América terminou na quinta colocação da Série B estadual. Após o fim da parceria, o clube engatou outras similares com clubes como o Aliança e o Pacatuba. No segundo, também conquistaram o título e o acesso na Série B.

O “terceiro” acesso, conquistado agora, não veio com título, mas serviu como a primeira coroação de um projeto que tenta ser auto-sustentável e mira a disputa da Taça Fares Lopes, competição que dá vaga na Copa do Brasil. A rede de drogarias paga as despesas do centro de treinamento, mas já não investe diretamente no futebol. Segundo Sávyo, o fundador da Pague Menos, Deusmar Queirós, vem atuando como uma espécie de mecenas, com recursos próprios. O dirigente calcula que os investimentos em obras e projetos devem fechar em R$ 4 milhões até o fim do ano.

Outro objetivo é seguir revelando atletas e reinvestir os ganhos no crescimento do clube. O atacante Caio Vidal, do Internacional, foi a primeira grande revelação do Pague Menos. O atleta chegou ao clube em 2017, para atuar no time sub-17 de futsal. Logo foi para o campo e chamou a atenção. Caio foi projetado do clube cearense para o Porto (PE), onde disputou a Copa São Paulo e despertou o interesse do Internacional.

— A gente sabia que o Caio era diferente dos outros — diz Sávyo.

Hoje, o Pague Menos calcula ter direito a cerca de 0,3 a 0,5% de futuras transferências do atleta, via mecanismo de solidariedade da Fifa.

Além da competitividade no futebol, o clube desempenha um papel social de entrada no esporte para vários dos cerca de 200 atletas que treinam diariamente nas categorias de base. O bairro de Jacarecanga é parte da grande região do Pirambu, uma área de vulnerabilidade social na capital cearense. A comunidade local, por sua vez, abraça o clube, em especial nas competições de futsal que são disputadas em sua sede.

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