Grêmio perto do rebaixamento é símbolo de maior equilíbrio no futebol brasileiro

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O fim de dois mecanismos que protegiam as receitas dos times mais tradicionais do país — a negociação unilateral dos direitos de transmissão e a manutenção da receita de Série A mesmo em caso de rebaixamento — pode fazer com que o futebol brasileiro experimente, pelo segundo ano seguido, o fenômeno da “Super Série B”. Este ano, a competição teve Vasco, Cruzeiro e Botafogo. Em 2022, corre o risco de ter o tricampeão da Libertadores Grêmio no lugar dos alvinegros, ao lado de cruz-maltinos e cruzeirenses.

Não é mera coincidência a segunda divisão com times de massa e histórico de títulos de expressão se repetir depois de 2019. As mudanças na distribuição do dinheiro da TV aceleraram o fortalecimento dos times médios da Série A e reduziram as vantagens de quem disputava a divisão de acesso oriundo da elite. Mas a queda do Grêmio, caso se confirme na última rodada, terá algo de simbólico, um ineditismo no futebol brasileiro.

Diferentemente dos últimos clubes mais tradicionais rebaixados no futebol brasileiro — Internacional, em 2016, Cruzeiro, em 2019, e Vasco e Botafogo, em 2020 — a tragédia gremista, se acontecer, não será consequência de problemas financeiros estruturais, que afetam a quantidade de dinheiro disponível para investir no futebol e a manutenção dos salários em dia.

O possível rebaixamento de um dos times mais bem organizados financeiramente no país, que em 2020 conseguiu fechar o ano da pandemia com a melhor relação entre receita e dívida do futebol brasileiro — nada menos que um saldo positivo de R$ 157 milhões — falará sobre o peso de gerir bem o dinheiro disponível.

— Essa possível queda é um símbolo de como clubes enormes, com muito dinheiro disponível, estão caindo para a Série B. Todos, mais ou menos ao mesmo tempo, por pura má administração do departamento de futebol — afirma Rodrigo Capelo, colunista de O GLOBO.

Concorrência mais forte

O que diferirá, em termos de consequência, o ano ruim do Grêmio na gestão de seus recursos para o futebol, em relação a outros trabalhos mal feitos, é o nível de concorrência na parte do meio da tabela da Série A. Desde 2019 o futebol brasileiro testemunha mais claramente a ascensão de times médios, que conseguiram emplacar uma sequência de temporadas na elite.

Com a divisão das receitas de TV estruturada nos moldes da Premier League, com 40% do montante repartido igualmente e outras duas fatias de 30% distribuídas de acordo com performance e número de jogos transmitidos, a diferença entre os que ganham mais e menos diminuiu. Times antes fadados a receber menos por terem torcidas menores e menos história na Série A passaram a ter o desempenho melhor recompensado.

A tabela do Brasileiro deste ano deixa os efeitos da mudança de 2019 evidente. Entre os 11 primeiros colocados, quatro times representantes dessa nova classe: Fortaleza, já na Libertadores, , América-MG, Ceará e Atlético-GO, todos com chances de irem à competição de 2022, ainda que na fase preliminar.

De todos os times da Série A do ano passado, apenas cinco conseguiram fechar a temporada passada com uma relação positiva entre arrecadação e endividamento, o que sinaliza uma capacidade maior no ano seguinte de direcionar seus recursos para o futebol e não para a quitação de passivos: além do Grêmio, Ceará, Fortaleza, Atlético-GO e Goiás. O Esmeraldino caiu para a B, mas já conseguiu retornar à elite em 2022.

Na parte de baixo da tabela, São Paulo e Santos se juntam ao Grêmio como grandes que passaram a competição flertando com o rebaixamento. Ambos, desde 2019, viram a relação entre receita e dívida piorar, temporada após temporada. O tricolor paulista, que em 2016 registrava saldo positivo de R$ 84 milhões, em 2020 viu esse número virar R$ 258 milhões negativos. Já o Peixe fechou a temporada passada em R$ 397 milhões negativos. Isso, somado ao emprego ruim do dinheiro, explica a temporada para se esquecer da dupla.

— Além da incompetência de São paulo, Grêmio e outros times, a concorrência a eles está melhor. Cada clube que sobe e se estrutura para ficar na Série A tira espaço de alguém que não está preparado para ela — ressalta Capelo.

Série B estrelada

Ainda implicitamente, o futebol brasileiro se adapta a essa realidade de times mais tradicionais marcando presença na Série B. Quando dirigentes dos principais clubes do país se reuniram para discutir a criação de uma liga, em meados desse ano, as conversas giravam em torno de uma nova organização responsável pelos Brasileiros da primeira e da segunda divisão a partir de 2025. Vasco, Botafogo e Cruzeiro, na Série B este ano, participam ativamente das discussões e assinaram em novembro a carta de intenções do grupo de clubes com Kodajas Sports Kapital, empresa que se mostra interessada em comprar os direitos dessa nova liga, ainda embrionária.

Para Paulo Pelaipe, diretor de futebol do Botafogo (SP), clube empresa de Ribeirão Preto, e com passagens por Grêmio, Flamengo e Vasco, a segunda divisão com mais camisas de peso pode ser considerada uma tendência por aqui.

— É só você ver a tabela do Brasileiro. Tirando Atlético-MG, Flamengo e Palmeiras, os times estão todos muito nivelados — afirmou.

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