Daniel Silveira: Graça constitucional pode ser questionada por STF

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Daniel Silveira. Foto: EVARISTO SA/AFP via Getty Images
Daniel Silveira. Foto: EVARISTO SA/AFP via Getty Images

O presidente Jair Bolsonaro (PL) concedeu nesta quinta-feira (21) a graça constitucional ao deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), anulando a pena decretada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) na quarta-feira (20) por declarações contra os ministros da Corte. No entanto, o ato pode ser questionado pelo STF, segundo especialistas. As informações são do G1.

Alguns especialistas apontam como "inconstitucional" ou "ilegal" o ato do presidente.

Além disso, juristas, advogados, professores e especialistas em direito afirmaram que é passível de questionamento e deverá ser analisado pelo Supremo Tribunal Federal o decreto anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro nesta quinta-feira (21) para favorecer o deputado aliado Daniel Silveira (PTB-RJ).

Em live nesta quinta-feira, o presidente comentou o decreto e afirmou que o mesmo será cumprido, porque é “constitucional”. Segundo Bolsonaro, a medida pode ser um “marco para todos nós”.

Por estímulo a atos antidemocráticos e ataques a ministros do tribunal e a instituições, o STF condenou Silveira a oito anos e nove meses de prisão em regime fechado, além de perda do mandato e dos direitos políticos e multa de cerca de R$ 200 mil.

Em transmissão por rede social, Bolsonaro anunciou a concessão de perdão ao deputado.

No entanto, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) informou em nota que o presidente Beto Simonetti solicitou à Comissão Nacional de Estudos Constitucionais da entidade uma análise urgente do caso para orientar eventual ação judicial.

"Assim que estiver concluído, o parecer da Comissão será submetido, imediatamente, para deliberação do plenário da OAB, órgão máximo de deliberação da instituição, em sessão extraordinária", afirmou Simonetti.

De acordo com ele, "o descumprimento de decisões judiciais é extremamente preocupante para a estabilidade do Estado de Direito. O diálogo institucional e o respeito ao princípio da separação entre os Poderes devem orientar o enfrentamento de desafios como o que se apresenta".

Já para Breno Melaragno, professor de Direito Penal da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), o decreto "aparentemente" cumpre a exigência constitucional.

"Não vou dizer que é inédito, mas é algo muito raro no Brasil. Ele equivale ao instituto da clemência, que existem em alguns outros países, sendo atribuição ao chefe de estado, e esse questionamento pode haver perante o Supremo Tribunal Federal principalmente em relação ao eventual desvio de função”, declarou.

Para ele, o Supremo deverá analisar o decreto provocado, mas, afirmou, nada impede uma decisão por iniciativa própria.

"Nada impede uma decisão que a gente chama de ofício, mas eu penso que, diante de um caso desses, um decreto de graça, de perdão individual, eu acho, a princípio um pouco difícil o Supremo agir de ofício. Acho que ele vai acabar sendo provocado para decidir se pronunciar em relação a isso", afirmou.

O especialista, Vidal Serrano Nunes Júnior, professor de direito constitucional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), disse que a chamada "graça individual" costuma ser concedida para fins humanitários, em uma situação específica que justifique.

"Não havendo fundamentação adequada, ele pode, sim, ser questionado. Então, eu acho que esse indulto individual, na medida em que se pretende a inovação de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, ele pode, sim, ser entendido como um ato administrativo executado com desvio de finalidade e, com isso, eventualmente, se expor eventualmente no próprio Supremo Tribunal Federal", afirmou.

Conrado Gontijo, advogado criminalista e doutor em direito penal pela Universidade de São Paulo (USP), a medida tomada por Bolsonaro é "flagrantemente inconstitucional".

"Trata-se de grave afronta ao Supremo Tribunal Federal, que, com absoluto acerto técnico, condenou Daniel Silveira pela prática de crimes graves. Ainda que o presidente da República tenha a prerrogativa de conceder graça, não pode fazê-lo de forma abusiva, deturpando a lógica que justificou a criação desse instituto. E, no caso concreto, o que se nota é Jair Bolsonaro, mais uma vez, atacando as instituições, atacando a democracia e tomando uma decisão manifestamente incompatível com o Estado de Direito", afirmou.

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