Grafite de 180m² conta curiosidades sobre o Leblon

Você sabia que o empresário francês Charles Le Blond foi o primeiro dono das terras que um dia formariam um bairro batizado com seu sobrenome? Muito antes disso, porém, os índios da aldeia tamoio Kariané já moravam por lá. O bairro, que hoje é um dos mais valorizados do Rio, guarda muita história, e algumas delas foram eternizadas em um mural grafitado de 180 metros quadrados, inaugurado esta semana na Rua Humberto de Campos, na altura do número 99. O painel é o resultado do projeto Cultura Carioca, de imersão artística, que durante três meses ofereceu oficinas a 50 jovens da Cruzada São Sebastião, no Leblon, e a estudantes da rede pública do entorno do bairro.

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A idealizadora da iniciativa, Juliana Teixeira, conta que o objetivo é democratizar o acesso à cultura e fazer o resgate histórico da memória das localidades atendidas.

— Talento nato para o desenho é algo que muita gente tem, só falta aprimorar, independentemente de idade ou classe social. É gratificante ver o envolvimento não só dos alunos, mas das famílias, em todo o processo e conseguir por meio da arte deixar um legado para história dos bairros. O grafite ficou lindo, de muita qualidade, e é recompensador ver as pessoas parando e observando os detalhes, lendo o texto com as curiosidades da região — conta Juliana, acrescentando que já pensa na próxima edição, que deve ser realizada em 2023 e se aprofundar mais na história do Leblon ou homenagear outro bairro.

Aluna do projeto, Sahra Aishila, de 13 anos, acredita que na vida dela esse foi o início da realização de um sonho.

— Eu me sinto muito sortuda de ter um projeto desse ao lado da minha casa e de graça. Eu sonho fazer animação para a Disney, e quando isso acontecer vou me lembrar do Cultura Carioca — diz a adolescente.

As oficinas de desenho, pintura e grafite aconteceram na Paróquia Santos Anjos, localizada na mesma rua onde foi feito o mural. A execução do painel durou cerca de um mês. Foram usadas 140 latas de sprays, e os alunos receberam o auxílio dos artistas Airá o Crespo, Jefferson Seon e Rafael Geraldo.

Antes do início das aulas, durante dois meses, o historiador José Maurício Moreira fez uma pesquisa sobre o bairro e a Cruzada São Sebastião. O material, em forma de apostila, foi entregue a alunos, familiares, escolas e entidades como associações de moradores. E a partir dela é que foram selecionados as personalidades e os eventos destacados no mural. Além de Charles Le Blond e dos indígenas, primeiros moradores do bairro, foram homenageados Dom Hélder Câmara — indicado ao Prêmio Nobel da Paz e mentor da Cruzada São Sebastião — e os craques do Flamengo Adílio (ex-morador da Cruzada) e Júlio César Uri Geller (da favela Praia do Pinto).

Para Adílio, além de dar oportunidades a quem participa do projeto, a homenagem no mural pode inspirar mais jovens a correrem atrás dos seus sonhos.

— Não moro mais na Cruzada, mas tenho família e amigos e vivo aqui. Minha história está intimamente ligada à comunidade e sou conhecido como Adílio do Flamengo e da Cruzada. Fui coroinha na igreja onde foram realizadas as oficinas, e é emocionante receber esse reconhecimento e saber que outros jovens podem olhar para o mural e acreditar que se eu, que nasci e fui criado na comunidade, consegui chegar ao Flamengo, eles também podem ser o que quiserem — afirma o ídolo rubro-negro.

Júlio César conta que o mural o faz lembrar da sua infância no Leblon, vendendo amendoim e tomando conta de carros, e do amor pelo Flamengo que existe até hoje.

— Vivia nas ruas do bairro junto com o meu irmão Adílio. Eu me sinto muito feliz com essa homenagem, é uma grande recompensa — diz.

O projeto foi realizado pela Associação Caminho da Cultura, com patrocínio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura do Rio Janeiro e da Vinci Partners.

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