Grafiteira afegã retrata resistência de mulheres ao Talibã em muros de Cabul e nas redes sociais

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com os olhos fechados, a cabeça erguida e um vaso de flor nas mãos, a menina olha para o homem barbado que segura uma arma. O vermelho de seu lenço e o azul de seu vestido contrastam com os tons acinzentados dele. A única cor que ressalta é a dos olhos, avermelhados de raiva.

Na ilustração seguinte, a postura desafiadora da menina some. Ela está ajoelhada no chão, com o vaso caído e as mãos no rosto, diante da arma e dos pés do homem. A legenda: "Morte para a escuridão".

Desde que o Afeganistão caiu outra vez nas mãos dos extremistas do Talibã, Shamsia Hassani, 33, parou de dar declarações públicas, mas não deixou de expressar por meio da arte o que sente.

Hassani, conhecida como a primeira grafiteira do Afeganistão, espalhou pelos muros bombardeados da capital Cabul suas personagens que ressignificam o papel das mulheres na sociedade afegã.

Com roupas coloridas, grandes cílios e cabelos esvoaçantes por baixo dos lenços, elas são representadas caminhando livres pela cidade ou desafiando caças e tanques de guerra com aviões e barcos de papel.

Muitas seguram instrumentos musicais, ato singelo que ganha contornos de afronta levando em conta que o Talibã, com sua interpretação radical das escrituras islâmicas, proíbe a música e a dança.

Nas palavras de Hassani, em entrevista a um documentário de 2016 da revista Vice, sua personagem "é uma mulher que estuda, está sozinha e enfrenta muitos problemas, mas ainda assim é forte". No perfil da artista no Instagram, que tem mais de 200 mil seguidores, as obras são acompanhadas de legendas em farsi e em inglês e por hashtags como #stoptaliban (parem o Talibã) e #warzone (zona de guerra).

Hassani nasceu em 1988 no Irã, filha de pais refugiados afegãos. Graduada em artes plásticas pela Universidade de Cabul, conheceu o grafite em 2010, durante uma oficina do artista britânico Chu.

Atraída pela ideia de ter paredes como tela, ela viu no grafite uma forma de mostrar sua arte para mais pessoas, já que a maioria da população afegã não tem acesso a galerias e museus.

Por ser uma atividade de risco --ainda mais para uma mulher numa sociedade conservadora como a afegã--, Hassani procura não fazer obras muito grandes, o que a deixaria exposta por mais tempo.

Para preencher essa lacuna, produziu uma série chamada "Dreaming Grafitti" (sonhando com grafite), em que faz pinturas maiores sobre fotos impressas de prédios e muros de Cabul --muitos dos quais semidestruídos por bombas. Também faz obras em muros autorizados de cidades como Florença (Itália), Nova York (EUA) e Istambul (Turquia).

Ela também tem ilustrações feitas em notas de dólar, uma reflexão sobre a política externa americana, que foi exibida na galeria Sakura, em Paris. Em outro conjunto de obras, chamado "Pássaros sem Nação", aborda as ilusões dos afegãos que migram para países ricos. Em 2014, ela entrou na lista dos 100 mais importantes pensadores globais, da revista americana Foreign Policy.

Hassani costumava dizer que não pensava em sair do país. "Muitas pessoas qualificadas estão deixando o Afeganistão e me sinto muito mal, porque elas poderiam fazer algo por esse país. Não quero sair. Talvez eu possa tornar o Afeganistão famoso pela arte, e não pela guerra", afirmou em 2016.

Agora, porém, sua vida está em risco, devido ao tema de seus desenhos e por ser artista --é professora de Belas Artes da Universidade de Cabul e organiza festivais e cursos de grafite para outras afegãs.

O agente de Hassani disse à Deutsche Welle, rede pública de comunicação alemã, que ela está em segurança em local não divulgado. Em post publicado nesta semana em suas redes sociais, ela também agradeceu o apoio que tem recebido de pessoas do mundo todo e voltou a afirmar que está segura.

Seu último desenho, postado nesta terça-feira (24), é de uma mulher de vestido vermelho tocando violão. O título é "Homeless and hopeless" (sem casa e sem esperança).

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