Grafiteiro é detido em novo protesto contra Doria na avenida 23 de Maio

PAULO GOMES E AVENER PRADO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O grafiteiro Iaco foi detido na noite desta quarta-feira (22) após fazer um novo protesto contra a política antipichação do governo João Doria (PSDB).

Iaco escreveu "Doria" sete vezes seguidas no muro de um viaduto na avenida 23 de maio, no Paraíso (zona sul). O mesmo Iaco já tinha feito intervenção semelhante em janeiro, quando grafou o nome do prefeito 12 vezes em sequência em outra parede da mesmo via.

Na noite desta quarta, ele e o fotógrafo espanhol Nacho Doce, da agência Reuters, foram levados pela GCM (Guarda Civil Metropolitana) ao 78º DP, nos Jardins. Iaco foi levado em flagrante por escrever no muro e, Doce, que produz um ensaio sobre a questão em São Paulo e registrava a ação foi levado como testemunha. Depois de prestarem depoimento, ambos foram liberados.

Iaco diz que na véspera tinha feito um protesto no mesmo muro, escrevendo "muro censurado" e "Doria" repetidas vezes. "Foi apagado muito rápido, então hoje [quarta] voltei para fazer de novo", afirma. Ele tornou a escrever o nome do prefeito e "muro censurado", mas foi flagrado pela GCM enquanto conversava com moradores de rua que dormem embaixo do viaduto.

"Em nenhum momento fui tratado como criminoso. Expliquei a situação no meu depoimento e o delegado entendeu que não se trata de uma gangue. É uma intervenção artística. Eu não sou pichador, sou artista plástico", diz.

Segundo ele, o protesto é contra a decisão de Doria de apagar grafites e murais da avenida, pintando os muros da 23 de maio de cinza. "A gente perdeu uma das referências de arte urbana no mundo inteiro", declara.

"Ele [Doria] quer fazer um 'grafitódromo', um conceito que limita as pessoas de pensar. Se você limita os artistas, perde o conceito de arte. Censurar e colocar limites de onde o artista tem que fazer é absurdo." Iaco ataca ainda o discurso do prefeito. "Ele diz que não é político, que é um gestor. Mas a cidade não é uma empresa."

O artista foi detido pela GCM antes das 21h de quarta. Até a publicação deste texto, a reportagem ainda não havia conseguido acesso ao boletim de ocorrência com a Polícia Civil.

GUERRA DO SPRAY

A campanha de Doria contra a pichação motivou a chamada "guerra do spray", com grafiteiros e pichadores fazendo ataques ao tucano em muros públicos e privados, seja apenas pichando o seu nome ou com grafites que ironizam a política do prefeito.

Em fevereiro, o prefeito sancionou lei que endurece a punição a pichadores. Agora, caso seja pego no ato, o infrator terá de pagar multa de R$ 5.000. Se a pichação for contra o patrimônio público, a multa dobra para R$ 10 mil. Se houver reincidência, a multa também dobra. Se reparar o dano em até 72 horas, pode se livrar da multa.

Pesquisa Datafolha de fevereiro mostrou que 97% dos paulistanos são contrários às pichações, ainda que 85% sejam favoráveis a grafites. Para 61%, porém, o aumento da punição não vai acabar com a atividade.

Pela lei, grafites serão permitidos, como vem defendendo o prefeito, mas precisam de autorização. O texto diferencia grafite de pichação, mas há dúvidas sobre como essa distinção será feita na hora do flagrante.