Grajaú aguarda retorno de Witzel depois de temporada no Palácio Laranjeiras

André Coelho
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Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

Bucólico, o Grajaú, na Zona Norte, se viu às voltas com o poder com a eleição de um ilustre morador, o ex-juiz federal Wilson Witzel. A ascensão e queda do antigo vizinho, que foi afastado do cargo de governador e responde a um processo de impeachment por irregularidades na saúde do estado, pegou todos de surpresa. Depois da glória dos primeiros dias de administração de Witzel, em que sonhavam com melhorias para o local e reforço da segurança, os moradores agora se preparam para reencontrar na padaria e nas esquinas, o que pode acontecer ainda este mês, aquele que esperavam que fosse o “salvador da pátria” desse recanto esquecido da cidade.

Após o acórdão do tribunal misto que determinou a continuidade do processo de impedimento, além da redução de salário e a saída do governador investigado do Palácio Laranjeiras, Witzel terá 10 dias para se mudar. O novo destino provavelmente será o o velho endereço. Morador há pouco mais de um ano do Grajaú, o arquiteto Franco Maiuolo, de 34 anos, chegou ao local depois da mudança da família do governador, e ficou surpreso ao saber que poderá encontrar o ex-juiz. Ele lamenta a situação política do Rio, mas diz que evitará tocar no assunto caso encontre o vizinho.

— Como vizinho de rua, eu não teria nada para falar para ele, nada contra ele morar aqui. Agora, como cidadão já não sei... Vamos esperar a conclusão dos processos para ver se ele é culpado mesmo — afirma.

Um dos vizinhos de frente de Witzel, que não quis se identificar, diz que a família sempre foi muito reservada, e que o governador continuava indo à casa nos finais de semana, quando o movimento de seguranças aumenta.

— Agora mesmo deve ter alguém da família aí, provavelmente a Helena (Witzel). Por isso está essa movimentação — diz, referindo-se aos cerca de 10 homens que guardavam a rua .

Morador do local há mais de trinta anos, ele também destaca a melhora na segurança na região com a presença da polícia, mas se diz decepcionado.

— Não votei nele, mas gostaria que tivesse terminado o mandato. Nosso estado está muito mal, não merecia isso — lamenta.

Ao lado da casa de Witzel um caminhão de mudanças descarregava móveis. O novo morador contou que a presença constante da polícia na rua foi um fator decisivo para a escolha da nova casa, e se mostra preocupado com a possível saída do aparato com uma eventual cassação de Witzel.

— Com certeza, esse fator pesou muito. A gente fica preocupado se a polícia sair, vamos ver o que acontecerá — diz.

A aposentada Mônica Ferreira, de 55 anos, moradora do bairro há 48,está preocupada com a volta do antigo vizinho.

— Ao mesmo tempo que melhorou a segurança, temos o risco de alguém tentar fazer algo contra ele. Essas pessoas são muito visadas, têm inimigos, eu vou evitar passar na frente da casa — afirma.

Ao contrário da votação que aprovou por unanimidade a sequência do processo de impeachment, o tribunal misto se dividiu sobre a ordem para que Witzel deixasse o Palácio. Foram seis votos a favor e quatro contra Autor da proposta, o relator do caso, deputado Waldeck Carneiro (PT), argumentou o afastamento do cargo tornava a residência oficial injustificada.

Integrante do tribunal misto, o deputado Alexandre Freitas (Novo) foi um dos que votou contra justamente por acreditar que a medida pode atrapalhar o julgamento, apesar de ser contrário ao uso do Palácio como residência oficial.

— A remoção de Witzel do Palácio nunca foi objeto da denúncia. Como a defesa não pôde sequer contestar esse tópico, isso fere o direito à ampla defesa — aponta.

A defesa do ex-juiz informou que ele está avaliando se vai entrar com recurso na Justiça contra a decisão, e destacou que ele foi para o Palácio por orientação da área de segurança do estado. "Como sua principal atuação como governador voltou-se ao combate ao crime organizado, a defesa teme pela sua segurança e de sua família durante o processo de impedimento", diz nota dos advogados.

Segundo fontes ligadas ao governador, a tendência é que ele saia do Palácio primeiro e decida se entra com o recurso já como morador do Grajaú.