Colômbia completa um mês de convulsão social com mais mortes em protestos maciços

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A Colômbia completou nesta sexta-feira (28) um mês de uma sangrenta convulsão social com multidões nas ruas em plena pandemia contra o governo, enquanto os protestos já deixam quase 50 mortos.

O levante popular teve mais um dia trágico em Cali, onde começou a vigorar um toque de recolher noturno. O presidente Iván Duque chefiou um conselho de segurança nesta cidade de 2,2 milhões de habitantes, após vários tiroteios entre civis com pistolas e fuzis.

Após a reunião do conselho, Duque anunciou a militarização desta que é a terceira cidade do país por causa dos protestos sangrentos que deixaram ao menos três mortos durante o dia.

"A partir desta noite começa a mobilização máxima de assistência militar à polícia nacional na cidade de Cali", anunciou o presidente.

"Infelizmente, três pessoas morreram (...) Esta situação ocorreu entre quem bloqueia e quem queria passar" por um dos pontos fechados pelos manifestantes, disse mais cedo o prefeito da cidade, Jorge Iván Ospina.

Em vídeos que viralizaram foi possível ver um homem caído sobre uma poça de sangue e outro próximo com uma arma, perseguido por manifestantes. Em seguida, as imagens mostram o suposto agressor também no chão, após ter sido aparentemente linchado. A terceira vítima morreu em circunstâncias que não foram esclarecidas até o momento.

Uma das vítimas era Fredy Bermudez, um investigador do Ministério Público, que atirou na direção de uma manifestação, "provocando a morte de alguns civis" e que depois foi morto pelos manifestantes, segundo o chefe do organismo, Francisco Barbosa. Ele acrescentou que o funcionário "estava de folga". A emissora W Radio denunciou a morte de outra pessoa que levou vários tiros durante um protesto.

Enquanto isso, o ministério da Defesa divulgou imagens de multidões atacando edifícios públicos com pedras e explosivos artesanais nas cidades vizinhas de Popayán e Pasto.

Em um mês de protestos, morreram 49 pessoas, segundo contagem oficial. O Ministério Público estabeleceu que pelo menos 17 casos têm vínculo direto com as manifestações, mas a ONG Human Rights Watch afirma ter "denúncias confiáveis" sobre 63 óbitos, 28 relacionados com a crise.

- Diálogo estéril -

Os protestos avançaram principalmente em Bogotá, Medellín e Cali, em repúdio à repressão oficial e à gestão da emergência econômica provocada pela pandemia.

Embora em sua maioria sejam pacíficas, as manifestações desta sexta-feira geraram confrontos com as forças públicas nas proximidades da capital colombiana e outros pontos do páis.

Em 16 de maio, o governo abriu diálogos com a frente mais visível das manifestações, mas não conseguiu chegar a um acordo.

Líderes sindicais e estudantis exigem garantias para o protesto, diante dos múltiplos excessos das forças públicas, e ao mesmo tempo as autoridades pedem a suspensão dos bloqueios viários que causam desabastecimento e perdas milionárias em pontos como Buenaventura, o principal porto banhado pelo Pacífico.

"Os bloqueios são uma ameaça aos direitos de todos os colombianos (...) Ninguém pode, para reivindicar direitos, afetar os direitos do outro", afirmou o presidente Iván Duque em entrevista à Blu Radio.

A crise começou quando o governo quis cobrar mais impostos à classe média, já castigada pela pandemia, para preencher o buraco fiscal deixado pela emergência econômica.

Duque desistiu da proposta, mas a repressão policial acendeu mais os ânimos. Hoje, as ruas estão cheias de jovens sem emprego, nem educação, que pedem um Estado mais solidário diante dos estragos provocados pela covid-19.

"Neste mês se visibilizou a força do Estado, como age" contra os cidadãos, disse Gustavo Peña, um universitário de 22 anos que participou de manifestações em Bogotá.

"Eu me sinto orgulhoso porque meu país enfim está tendo dignidade e se levanta não a pedir nada de graça, mas oportunidades, que não haja uma distribuição tão desigual" de recursos, acrescentou em declarações à AFP.

- Protesto sustentado -

As forças policiais, que na Colômbia são controladas pelo Ministério da Defesa, estão sob o ferro escaldante das críticas pelos excessos que as vinculam às mortes de manifestantes.

A comunidade internacional condenou a reação dos órgãos de segurança, enquanto as ruas clamam por uma reforma que "desmilitarize" uma força policial que há décadas luta contra guerrilheiros e narcotraficantes.

O governo garante que as manifestações foram infiltradas por vândalos e grupos armados que sobrevivem à assinatura do acordo de paz com as extintas Farc, guerrilha que se tornou partido político após meio século de fracassada luta pelo poder.

Desde que assumiu o poder em agosto de 2018, Duque enfrentou protestos sem precedentes. A pandemia extinguiu as mobilizações por um tempo, mas elas recomeçaram com força, apesar do fato de que a Colômbia enfrenta uma onda agressiva da covid-19 que tem hospitais à beira do colapso.

As manifestações pacíficas durante o dia, mas que à noite escalaram para confrontos violentos em vários pontos, levaram à demissão do Ministro das Finanças, do chanceler e do Alto Comissário para a Paz.

Enquanto isso, a desaprovação de Duque atinge níveis históricos (76%), a um ano das eleições das quais deverá sair seu sucessor.

A pandemia afetou a economia do país de 50 milhões de habitantes. Em um ano, a porcentagem da população pobre passou de 35,7% para 42,5%, e quase um terço dos colombianos (27,7%) entre 14 e 28 anos não estudam, nem trabalham, segundo o órgão estatal de estatísticas.

"Estamos há um mês resistindo na luta contra um Estado que nem mesmo está disposto a escutar. Nos lembra que precisamos continuar nos mobilizando", afirmou Juanita Prieto, estudante de Artes Plásticas de 26 anos.

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