Gravadora Tapecar retoma atividades com tesouros da música brasileira dos anos 70

O tema afro “Kiriê” foi sampleado pelo rapper Baco Exu do Blues em “Minotauro de Borges” (2018) e chegou à Alemanha numa coletânea intitulada “Levanta poeira”, do selo Jazz and Milk. Devem ser poucos os que sabem que se trata de uma faixa do disco “A moça do mar”, da carioca Georgette. Pois o álbum de 1976 está novamente disponível: nas plataformas digitais e em LP. Ele é um dos marcos da volta à ativa da gravadora Tapecar.

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Quem amava música brasileira na década de 1970 consumiu, possivelmente, produtos fonográficos da Tapecar. O selo lançou mais de 200 LPs, além de compactos, inclusive de nomes como Beth Carvalho, Elza Soares e Novos Baianos.

— A Tapecar foi algo muito específico no Brasil, uma gravadora que contava com gêneros de origem extremamente popular, como forró, brega e partido-alto — diz o pesquisador Ricardo Morais, diretor artístico do selo em sua nova fase e sócio da Matita Records, que está relançando os LPs.

Motown e mais

A história começa em 1967 com uma loja que vendia cartuchos sonoros para carros — daí o nome Tapecar. Em seguida, Manuel Camero, o Manolo, filho da dona da loja, conseguiu licença para distribuir aqui discos das gravadoras Motown e Tamla. Pôs em circulação referências de peso como Stevie Wonder, Diana Ross, Jackson 5 e Marvin Gaye, entre outros.

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Com o nome Tapecar já conhecido, decidiu investir em samba e, depois, em outros gêneros. Montou um grande catálogo nos anos 1970. Para citar dois sucessos, lançou “Nuvem passageira”, de Hermes de Aquino, e “Poxa”, de Gilson de Souza.

— Manolo apostava em novos talentos. Produziu o primeiro compacto do Jorge Aragão, por exemplo — destaca Morais, que conta com o apoio do pesquisador Manoel Filho em seu trabalho.

Manolo nasceu na Espanha, mas veio criança para o Brasil. Os pais escaparam da Guerra Civil Espanhola. Acabou por se tornar importante executivo da indústria fonográfica. Também foi diretor da gravadora RCA e presidente da ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Discos).

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Com problemas financeiros, a Tapecar encerrou as atividades em 1980. Manolo fundou a Aycha Discos, que só durou um ano. O catálogo foi para a Copacabana, hoje integrada à Universal Music. A fábrica de prensagem de discos que ele adquirira em 1974 foi comprada pela Continental.

— O cheiro do vinil e as máquinas da fábrica rodando fazem parte da minha infância — recorda Rossana Camero, filha de Manolo.

Rossana, que tem um café no Leblon, decidiu retomar a Tapecar em 2019, um ano depois de seu pai morrer, aos 84 anos. Convidou Ricardo Morais, conhecedor do catálogo, para organizá-lo.

Parte do material já aparecera em CDs. Na década passada, o pesquisador Marcelo Fróes relançou 13 títulos pelo selo Discobertas, entre eles seis de Elza Soares e três de Xangô da Mangueira. Pretendia fazer mais.

— Remasterizamos, mas não conseguimos o “o.k.” para lançar os primeiros de Bezerra da Silva, Bartô Galeno e Trepidantes, além daqueles dois dos Novos Baianos sem Moraes Moreira. Durante anos, adquiri exemplares em boa qualidade dos LPs e dos compactos da Tapecar, já que não existia máster de nada — afirma Fróes.

Apostas

Rossana diz que alguns dos discos relançados agora vêm de másteres, enquanto outros são antigos LPs remasterizados. Ela já não vê sentido em fabricar CDs, que hoje estão em baixa no mercado, e aposta no streaming e nos LPs.

Já estão nas plataformas — alçadas pela Nikita Records, parceira da Tapecar nesse campo — 30 títulos. Alguns são o de Georgette, os de Elza, um de Candeia (“Samba de roda”, de 1975), os dois de Bezerra cantando cocos, um do sofisticado Bebeto Castilho (do Tamba Trio) e outros do romântico Bartô Galeno, do forrozeiro Sandro Becker, da emepebista Claudia Savaget e do sambista Gilson de Souza, para citar apenas alguns.

O plano é lançar em LP, até o final deste ano, “O rei do coco” (1973), de Bezerra da Silva, e “Obrigado, Corcovado” (1971), da dupla baiana Tom e Dito.

— É importante mostrar para as novas gerações trabalhos que não estão sendo lembrados. Falar do Gilson de Souza, que morreu este ano e está esquecido. Temos muitos discos de qualidade que foram negligenciados com o tempo. Não vamos lançar só a Elza, que felizmente já foi reconhecida, mas também a Georgette — ressalta Morais.

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Um dos critérios para pôr uns títulos na frente de outros na fila de relançamentos é o fato de o álbum já estar circulando por aí, sem que a Tapecar receba nada.

Rossana diz que já acertou com o selo alemão as contas pelo uso de “Kiriê” e que também está negociando com o staff de Baco Exu do Blues.

Outra negociação é para relançar os quatro discos de Beth Carvalho que saíram pela gravadora, entre 1971 e 1975, e firmaram a opção da cantora pelo samba.

Obstáculos

Os LPs prensados em cor branca pela fábrica do selo Rocinante não são exatamente baratos: “A moça do mar”, por exemplo, custa R$ 160 no lançamento e vai passar para R$ 180 — compráveis no site da Matita.

— O mercado já está chegando à casa dos R$ 200. Infelizmente, é questão do dólar, de matéria-prima. O preço da unidade dobrou nos últimos anos — explica Morais.

Viabilizar uma gravadora pequena na situação crítica do país é algo que Rossana — que conta com o apoio das duas filhas e de uma advogada — está buscando descobrir como fazer.

— Estamos pensando em produzir festivais, novos fonogramas, distribuição digital de artistas. São parcerias para ver qual é o nosso verdadeiro caminho — diz a empresária.

Com a reativação gradual do catálogo, revive-se parte da velha Tapecar.

— Acho que foi a única gravadora indie, pequena, que trabalhava como major — aponta Fróes.

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