Grávida, Razan fugiu do terror do Estado Islâmico e achou no Brasil um lar

Arquivo pessoal

Após ser capturada pelo Estado Islâmico e ver seu marido ser torturado, Razan viu no Brasil a única saída para dar uma vida decente à família

Por Melissa Santos

Me chamo Razan, tenho 27 anos e vivia em Aleppo, na Síria. Quando começou a guerra, eu e meu marido aguentamos ao máximo, mas quando Aleppo virou centro do conflito,tivemos que nos mudar. Víamos gente morta pelas ruas e passávamos fome. O Estado Islâmico pegou eu e meu marido. Eles cortaram os dedos dele por ele fumar cigarro. Foi horrível, muito sofrimento.

Não sabia que estava grávida quando resolvemos fugir para o Líbano. Para sair da cidade, nós viajamos de carro, um transporte pirata, sem segurança. Tivemos que trocar de carro e de motorista três vezes até chegar na embaixada do Brasil no Líbano. Foi aí que conseguimos visto e passagem para vir pra cá. Não sabíamos nada sobre o país, mas resolvemos vir porque aqui nunca teve guerra.

A gente veio sem falar português, sem conhecer ninguém… Quando saímos do avião, ainda no aeroporto, me arrependi e queria voltar para a Síria. Foi quando um rapaz refugiado nos viu falando árabe e veio nos ajudar. Ficamos uma semana vivendo na casa dele.

Foi ele que nos apresentou a Caritas e a Mesquita Brasil. Hoje, a gente vive em uma casa da mesquita, mas precisaremos sair de lá e ainda não temos ideia para onde vamos.

Antes de começar a investir na culinária, a gente vivia de doações de brasileiros e vendendo água como ambulante no centro da cidade. Foi depois de cozinhar para uma vizinha que veio a ideia de criar a Razan Comida Árabe [https://www.facebook.com/razancomidaarabe]. Até agora meu marido não conseguiu um trabalho por estar doente. Ele tem problema na coluna e perdeu a audição porque caiu uma bomba lá perto da nossa casa em Aleppo. Por isso, ele não fala português direito ainda, mas me ajuda a vender as comidas. Atualmente, nós recebemos encomenda e também participamos de eventos. Onde tem espaço, nós vamos.

Gosto de fazer comida árabe e tenho vontade de abrir um restaurante. Muita gente elogia minha comida porque sigo exatamente a receita original do país. Procuro até onde vende comida síria para comprar e ter os melhores ingredientes para os clientes.

Para mim, vir para cá foi a esperança de dar uma vida melhor para meu filho. Ele já vai para creche e gosta muito das aulas. Ainda queremos melhorar mais de vida e trabalhar muito aqui. O Brasil é muito bom e os brasileiros sempre nos acolheram bem. Acho que se eles não fossem assim nem estaríamos mais vivendo aqui.

Nunca passei por nenhum preconceito, nem nada. O maior desafio mesmo é falar português. Meu marido não fala quase nada. Eu aprendi porque as mulheres falam muito e aí sempre fiquei de papo com as brasileiras.