Greenpeace diz que fala de Salles revela projeto de desmantelamento ambiental do governo

Elisa Martins
Desmatamento e queimadas no estado do Pará, município de São Felix do Xingu, divisa com Altamira (27-8-2019).

SÃO PAULO — O comentário do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sobre "ir passando a boiada" de novas normas ambientais durante a pandemia de Covid-19, "deixa claro o projeto de desmantelamento das condições de proteção ambiental do país", denunciou a organização Greenpeace Brasil.

A crítica veio depois que se tornou pública uma declaração do ministro, durante reunião ministerial divulgada pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta sexta-feira.

No encontro, Salles sugeriu que o governo deveria aproveitar a atenção da imprensa na pandemia do novo coronavírus para aprovar "reformas infralegais de desregulamantação e simplificação" na área do meio ambiente e "ir passando a boiada".

"Salles acredita que as pessoas morrendo na fila dos hospitais seja uma boa oportunidade de avançar em seu projeto antiambiental. Acredita que a ausência dos holofotes da mídia, devidamente direcionados para a pandemia, seria o suficiente para fazer o que bem entende", lamentou, em nota, a porta-voz de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil, Luiza Lima.

A declaração de Salles cai como mais uma bomba entre organizações ambientalistas, poucos dias após a divulgação de um informe do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O relatório mostra que, em abril, foram devastados 529 km² de área na Floresta Amazônica. O número representa um recorde de desmatamento para o mês desde 2008, ano em que o levantamento passou a ser realizado.

A área desmatada é superior à de cidades como Porto Alegre (496,8 km²) e Maceió (509 km²) e equivale a mais que o dobro de Recife (218 km²). Em relação a abril de 2019, quando 195 km² foram desmatados em toda a Amazônia Legal, o aumento foi de 171%.

Em nota, a organização Greenpeace Brasil diz que não há espaço para o ministério "passar sua boiada".

"A sociedade segue atenta, a Justiça Federal julgando seus atos, e os satélites que medem o aumento do desmatamento atestando o resultado de sua política. Bolsonaro ganhou as eleições, mas não ganhou um cheque em branco para acabar com a floresta e os povos indígenas, os ministros gostem ou não", acrescenta o texto.