Greve afeta transportes e provoca incidentes no início da Copa América

Um homem tira uma foto numa estação do metrô em São Paulo fechada por conta da greve convocada contra a reforma da previdência

Interrupções parciais nos transportes públicos, vias fechadas e vários incidentes em protestos marcaram nesta sexta-feira (14) a greve contra a reforma da Previdência, a poucas horas do jogo de abertura da Copa América, a ser disputado em São Paulo.

Comunicados enviados por sindicatos revelaram paralisações nos setores petroleiro e bancário, além dos serviços de correios de vários estados. O movimento também ganhou a adesão de estudantes e professores que realizaram no mês passado duas grandes manifestações contra o corte de verba para as instituições federais de ensino.

De acordo com as centrais sindicais, 45 milhões de trabalhadores aderiram à greve em 300 cidades de quase todos os estados. O portal G1 informou que foram registrados protestos em quase 200 cidades dos 27 estados do país.

"Esta greve geral está sendo exitosa, apesar das práticas antissindicais de patrões e Tribunais, mesmo com a repressão policial em vários estados. Foi maior do que a greve construída em 2017 contra a reforma de Michel Temer. E nós vamos a Brasília, vamos organizar novas manifestações, coletar assinaturas e entregar um abaixo-assinado no Congresso Nacional", disse o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas.

Em São Paulo, onde a Seleção Brasileira encara a Bolívia no Morumbi, na primeira partida da Copa América, a polícia deteve 14 manifestantes, sendo dez por "incêndios e danos", e outros quatro por "depredar um ônibus e ameaçar o motorista", informou a Secretaria de Segurança Pública.

No Rio de Janeiro, a polícia de choque utilizou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão após explosões ao final de um protesto que reuniu milhares de pessoas na Avenida Presidente Vargas.

- Paralisação parcial dos transportes -

A paralisação dos transportes foi parcial na maioria das principais cidades do país.

Uma linha do metrô de São Paulo foi completamente paralisada e outras três funcionavam parcialmente, segundo dados da companhia pública de transporte. Apenas as linhas 4, que leva ao Morumbi, e a 5, ambas de gestão privada, funcionavam normalmente.

Os ônibus urbanos operavam com toda a frota, de acordo com a prefeitura da capital paulista, assim como os trens. Apesar da aparente normalidade no serviço foram registradas aglomerações nas estações e atrasos que afetaram a população da maior cidade da América do Sul.

"Ou para tudo, ou não para nada. Parar apenas a metade é uma palhaçada. Quem sai prejudicado somos nós, os trabalhadores", se queixou à AFPTV a usuária Vanilda Souza Vieira.

Em outras capitais, como Salvador, apenas o metrô funcionou, enquanto em Brasília, Porto Alegre e Recife a interrupção era parcial. Em Belo Horizonte, o metrô permanecia fechado, de acordo com a imprensa local.

Também pela manhã manifestantes fizeram bloqueios em vias de várias cidades, como no Rio de Janeiro, onde a polícia chegou a usar bombas de lacrimogêneo e de efeito moral para dispersar os protestos, ainda segundo o G1.

- Batalha da Previdência -

Os sindicatos mantiveram a convocação da greve para esta sexta-feira contra a reforma da previdência proposta pelo governo do presidente Jair Bolsonaro, apesar do projeto apresentado na véspera no Congresso contar com mudanças nos pontos mais controversos.

Essas mudanças "não mudam nada", disse à AFP Vagner Freitas. "A CUT não concorda com a narrativa de que as aposentadorias sejam o principal problema econômico do Brasil. O problema do Brasil é que não há um projeto de política econômica".

Já o ministro Paulo Guedes declarou que não vai criticar as mudanças feitas pelo relator do projeto: "Eu vou respeitar a decisão do Congresso, da Câmara dos Deputados. Agora, é importante que, se aprovar a reforma do relator, que é de R$ 860 bi de corte, abortaram a nova Previdência. Mostrarão [deputados] que não há compromisso com as futuras gerações. O compromisso com servidores públicos do legislativo parece maior que das futuras gerações".

A reforma da Previdência é uma promessa de campanha com a qual Bolsonaro ganhou o apoio do setor empresarial durante a corrida à presidência.

O projeto inicial contemplava uma economia de cerca de 1,2 bilhão de reais em 10 anos.

Mas as medidas para atingir essa meta são impopulares e geram resistência entre os legisladores, e a sua aprovação depende de maioria de três quintos no Congresso.

Para reduzir a resistência, o relator do projeto retirou alguns de seus pontos mais polêmicos, como o que previa transformar o regime atual, de divisão, em aposentadoria por capitalização individual.

Também ficou fora do projeto medidas que afetavam as pensões e os benefícios dos trabalhadores rurais.

Com esses ajustes, a economia passaria para cerca de 900 milhões de reais.

Para a oposição, essas modificações foram resultado da pressão social.

"Conseguimos proteger os beneficiários do BPC, proteger os trabalhadores rurais. É uma grande vitória da oposição contra a capitalização das aposentadorias", declarou o deputado federal Alessandro Molon, do PSB-RJ.