Greve dos caminhoneiros: governo teme repetir estragos na economia causados pela paralisação de 2018

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O presidente Jair Bolsonaro enviou um áudio a caminhoneiros pedindo que liberem as estradas do país com o argumento de que a paralisação "atrapalha a economia". O pedido não é à toa. Os dez dias de greve da categoria realizados em 2018, durante o governo de Michel Temer, causaram desabastecimento no Brasil, com longas filas para encher o tanque e falta temporária de produtos nas gôndolas.

Mas os efeitos do movimento na economia foram bem além dos dez dias de paralisação. A greve derrubou o resultado da produção industrial em maio de 2018, afetou a inflação e reduziu a capacidade de crescimento da economia naquele ano.

Na época, a manifestação foi motivada pela política de repasse da flutuação nas cotações do petróleo no mercado internacional aos preços dos combustíveis. Quando o movimento começou, a gasolina havia sido reajustada 12 vezes e o diesel, dez, apenas naquele mês.

Desta vez, porém, a mobilização é política, um gesto de apoio ao chefe do Executivo, após os atos de 7 de Setembro, que tiveram caráter antidemocrático.

Em 2018, com as restrições na circulação de mercadorias, o segmento mais afetado foi a indústria, que chegou a despencar 10,9% em maio. Os segmentos mais impactados foram a produção de automóveis, que desabou 30%, e a produção de alimentos, com queda de 18,5%.

Uma repetição deste cenário em 2021 seria ainda mais danosa para a economia. A produção de automóveis em agosto já foi a mais baixa dos últimos 18 anos, afetada pela falta de peças e componentes, segundo a Anfavea, a associação das montadors.

O quadro é um resultado direto do impacto de longo prazo da pandemia na cadeia de suprimento, e o setor espera solução somente em meados de 2022. Ou seja, uma nova paralisação seria um componente a mais de dificuldade para uma atividade que já enfrenta problemas.

Um impacto na produção de alimentos no momento em que a inflação acumulada em 12 meses supera os 9% poderia pressionar ainda mais o orçamento das famílias, em um momento de desemprego alto e renda apertada.

Estudo divulgado em 2018 pela Secretaria de Política Econômica do então Ministério da Fazenda apontava que os dez dias da greve dos caminhoneiros tiveram um impacto negativo de R$ 15,9 bilhões, aproximadamente 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB).

A indústria foi o segmento mais afetado, justamente por ser dependente do transporte rodoviário. O setor de alimentos teve em alguns casos perdas definitivas, como no caso de empresas que trabalham com produtos perecíveis.

Em 2018, segundo publicação do IBRE/FGV, a expectativa de crescimento do PIB era de 2,7% em janeiro. No fim de maio, já havia sido reduzida para 2,3% e apenas um mês depois caiu para 1,6%.Mais do que os produtos perdidos nas fábricas ou as vendas que deixaram de ser feitas no varejo, um movimento como esse traz um componente de incerteza ao mercado por expor fragilidades ‑ de infraestrutura, no caso da dependência do transporte rodoviário ‑ e políticas, em razão da necessidade de diálogo e interlocução.

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