Grito dos libaneses diante da crise econômica é ouvido novamente

Por Jana DHEIBY con Layal ABOU RAHAL en Beirut
Libanês diante de um desenho que representa um homem de máscara, com os dizeres "Estamos cansados", em Trípoli, norte do Líbano

Manifestantes antigovernamentais libaneses enfrentaram o exército novamente nesta terça-feira (28), em meio a protestos contra a profunda crise econômica que vive o país, e que continua se agravando em plena pandemia de COVID-19.

Os incidentes recomeçaram em Trípoli, norte do país, após o funeral de um jovem de 26 anos que foi morto a tiros na noite de segunda-feira, durante confrontos entre o exército e centenas de manifestantes, segundo uma organização de socorristas da cidade.

Nesta terça-feira, algumas centenas de jovens foram novamente para as ruas na segunda cidade do país, causando destruição e incendiando meia dúzia de bancos, constatou um fotógrafo da AFP.

Foram dispersados pelo exército com gás lacrimogêneo e balas de borracha. Os manifestantes arrancaram azulejos das calçadas para atirar contra as forças da ordem e incendiaram dois de seus veículos.

Em outras partes do país, manifestantes bloquearam estradas com pneus incendiados. Em Beirute, tentaram bloquear uma grande passagem na rodovia, mas as forças de segurança os impediram.

Em Trípoli, na noite de segunda-feira, cerca de vinte pessoas ficaram feridas, assim como 40 militares, segundo o exército.

O Líbano vive há vários dias um aumento na tensão e os manifestantes retomaram sua mobilização para denunciar, em meio ao Ramadã, a grande inflação e uma depreciação sem precedentes da libra libanesa.

Cerca de 45% da população vive agora abaixo da linha da pobreza, segundo estimativas oficiais.

A crise foi agravada pelas medidas adotadas contra a propagação do novo coronavírus, que paralisaram o Líbano, onde foram registrados oficialmente 717 casos e 24 mortos.

Nesta terça-feira, o ministro da Economia Raoul Nehme reconheceu um aumento dos preços de 55%.

- "Explosão social inevitável" -

O governo estuda um plano de reativação econômica, mas ainda está inacabado.

"Até agora, o governo não fez nada, exceto suspender o pagamento dos eurobonus", declara à AFP o economista Samir Nader, referindo-se à dívida não paga do Líbano.

"Não foi tomada nenhuma medida que anuncie reformas", acrescenta.

O país está caminhando "para uma explosão social inevitável" devido à depreciação da moeda "e à queda do poder aquisitivo", alerta.

A Associação de Bancos do Líbano anunciou o fechamento das agências em Trípoli, por conta de "ataques e atos de vandalismo".

Os manifestantes acusam os bancos libaneses de cumplicidade com o poder político e de ter contribuído para o endividamento público desenfreado e a falência do Estado.