Grupo armamentista oferece apoio a candidatos em troca de cargos no Congresso

***ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF,  BRASIL,  24-05-2022 - O presidente Jair Bolsonaro, durante cerimônia de sanção do projeto de Lei Henry Borel, de proteção das crianças e adolescentes contra violência. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, BRASIL, 24-05-2022 - O presidente Jair Bolsonaro, durante cerimônia de sanção do projeto de Lei Henry Borel, de proteção das crianças e adolescentes contra violência. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O maior grupo armamentista do Brasil tem oferecido apoio a candidatos que querem disputar uma vaga no Congresso em troca de cargos dentro dos gabinetes. A afirmação é do próprio presidente do Proarmas, Marcos Pollon, em vídeo publicado nas redes sociais.

A entidade se autointitula um movimento pela busca do "direito fundamental" da legítima defesa e apoia mais de 50 pré-candidatos a diferentes cargos na eleição de outubro, incluindo senador, governador, e deputado estadual e federal. Em comum, todos são favoráveis à reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) --entusiasta do armamento da população.

Pollon disse, em um vídeo publicado no Youtube em abril, querer "conduzir a pauta de armas" de dentro dos gabinetes.

"O que que eu pedi? O que eu pedi não, qual é a exigência do Proarmas para todos os candidatos que nós apoiamos? Uma vaga no gabinete. Para quê? Para ter o monitoramento para que esse tipo de coisa não aconteça. Vai ter um cara nosso lá monitorando e fazendo o briefing de como é que a ideologia e o que o Proarmas pensa dessa pauta", afirma ele no vídeo.

"Segundo ponto: nós pedimos para todos os candidatos a assessoria jurídica do gabinete porque nós queremos conduzir a pauta de armas do gabinete. Então projetos de lei, manifestações, nós queremos fazer", disse Pollon, na ocasião.

Procurado pela Folha, ele não respondeu. Filiado ao PL, o presidente do Proarmas deve disputar uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Mato Grosso do Sul na eleição de outubro.

No site do grupo armamentista, Pollon se apresenta como advogado, professor de direito e especialista em legislação de controle de armas. Também se diz "pró-Deus", "pró-vida" e "pró-armas", além de fundador de uma academia de direito processual no Mato Grosso do Sul e de um instituto conservador no mesmo estado.

O Proarmas tem representantes em todos os estados e atua, principalmente, em benefício dos CACs (caçadores, colecionadores e atiradores). O movimento possui 1.500 voluntários. No total, há mais 50 mil associados, entre membros gratuitos e contribuintes.

No mesmo vídeo no Youtube, Pollon afirma que a intenção é chegar a 1 milhão de associados e formar um partido político.

Entre os pré-candidatos endossados pelo Proarmas estão nomes conhecidos no bolsonarismo, como o senador Jorginho Mello (PL-SC), a deputada Bia Kicis (PL-DF) e o ex-senador Magno Malta (PL-ES).

Também figuram na lista quadros que integraram o governo Bolsonaro, como Mario Frias (PL, ex-secretário de Cultura) e Rogério Marinho (PL, ex-ministro do Desenvolvimento Regional).

Questionados, os pré-candidatos apoiados pelo grupo armamentista negaram existir a negociação citada por Pollon.

"Eu jamais aceitaria e não acredito que ele tenha dito isso", disse Mario Frias, que se prepara para disputar uma vaga de deputado federal por São Paulo.

O senador Jorginho Mello (PL), pré-candidato ao governo de Santa Catarina; e o ex-deputado Carlos Manato (PL), pré-candidato ao governado do Espírito Santo, também disseram não ter participado desse tipo de negociação.

"Eu nunca estive com Pollon, tenho contato com o coordenador estadual do Proarmas e nunca negociei cargo com nenhum deles. Temos a mesma filosofia do Proarmas e frequentamos clubes de tiros. A promessa do meu governo é que os policiais possam treinar de graça nesses clubes", afirmou Manato.

"Nunca houve negociação. Sou CAC, natural eu apoiar o Proarmas e eles me apoiarem", argumentou, por sua vez, a deputada Bia Kicis.

Rogério Marinho e Magno Malta foram procurados, mas não responderam.

A maioria dos candidatos apoiados pelo grupo é do PL, partido de Bolsonaro. Há também nomes do Republicanos, PMN, PTB e PP.

A distribuição dos pré-candidatos pelos partidos está sendo conduzida por Daniel Lemos, assessor parlamentar do PSC na Câmara dos Deputados. Lemos também atua como consultor político do Proarmas.

Ele protagoniza ao lado de Pollon vídeos sobre a estratégia política do grupo. Procurado, o assessor parlamentar disse que presta serviços para a entidade em seus horários de folga do trabalho e nos finais de semana.

"É uma consultoria voluntária, não recebo nada do Proarmas e de ninguém. Participo fora do horário do expediente, uso final de semana para compreender como nossos jogadores podem conquistar os melhores espaços", afirmou.

O Proarmas cresceu no governo Bolsonaro. O mandatário e seus filhos são ferrenhos defensores da liberação de armamento para a população.

O número de armas pessoais registradas no Exército e na Polícia Federal cresceu 77,5% em 2021, comparado a 2018. Atualmente, há 2,3 milhões de armas nas mãos de CACs, servidores civis, pessoas comuns e no acervo particular de militares.

Na sua gestão, Bolsonaro estimulou o cidadão comum a se armar e aumentou a possibilidade de acesso a armamentos com calibres maiores.

O governo publicou até o momento 15 decretos presidenciais, 19 portarias, dois projetos de lei e duas resoluções que flexibilizam regras sobre armas.

O líder do Proarmas tem bom trânsito com a família Bolsonaro, principalmente com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O parlamentar gravou um vídeo em apoio à pré-candidatura de Pollon.

"É meu camarada, é meu amigo. Não estava nos planos dele, mas eu confesso que eu adorei que ele é pré-candidato a deputado federal pelo estado do Mato Grosso do Sul. O líder do Proarmas, é um advogado atuante, é uma pessoa que trabalha pela causa porque ele gosta --tudo que a gente faz gostando, a gente faz bem feito", disse Eduardo.

Pollon tem acesso a Bolsonaro para falar de pautas armamentistas. A visita mais recente ocorreu em maio para abordar meios de agilizar os processos do Sigma (Sistema de Gerenciamento Militar de Armas), do Exército, e do Sinarm (Sistema Nacional de Armas), da Polícia Federal.

Como a Folha mostrou, Pollon transita ainda com facilidade pelo Senado.

Governo flexibilizou acesso a armas sob Bolsonaro Publicação de 15 decretos, 19 portarias e 2 resoluções Revogação, pelo Exército, de três portarias que impediam o Brasil de aprimorar as regras de rastreamento e identificação de armas e munições Ampliação do número de armas e munições que podem ser compradas Liberação para a população de calibres antes restritos, como o 9 milímetros, 45 e o ponto 40 Entre 2018 e 2021, crescimento de 77,5% do número de armas nas mãos de cidadãos, servidores civis, e no acervo particular de militares

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