Grupo evangélico se opõe ao conservadorismo, defende diversidade sexual e cria debate ao propor 'novas narrativas' na Igreja

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RIO — “Nada se encaixa, está tudo fora de contexto”. O comentário, feito numa rede social por um perfil genérico, auto descrito como “conservador e patriota”, é um dos que constam num vídeo com centenas de milhares de visualizações publicado no início de dezembro pela vereadora de Macaé, no Rio de Janeiro, Iza Vicente (Rede), que mostra jovens do movimento Novas Narrativas Evangélicas dançando ao som de batuques, durante um encontro realizado em São Paulo, fora dos padrões tradicionalistas. "Culto ao aborto , drogas e indecências em geral", escreveu outro homem.

Discriminatórios, os ataques são emblemáticos do ponto de vista da intolerância, síncrona ao crescimento de frentes conservadoras da igreja evangélica, observado por estudiosos. Mas é a partir desse avanço do fundamentalismo que também tem aparecido a atuação de pessoas que buscam se opor a questões que, muitas das vezes, caminham junto com estas frentes ideológicas, como, por exemplo, a homofobia, o machismo e a intolerância às divergências dentro da própria religião.

O coletivo Novas Narrativas Evangélicas surge como um desses opositores. Os idealizadores afirmam que o encontro, que repercutiu nas redes sociais, tem como objetivo, não para dar uma nova narrativa à Bíblia, mas, segundo eles, retomar questões importantes que, ainda na opinião dos organizadores, se perderam para muitas pessoas ligadas ao fundamentalismo, como o que eles chamam de "respeito à pluralidade" — que passa pela aceitação da diversidade sexual e da luta contra o preconceito racial, e da própria tolerância à divergência politica dentro da igreja. No mês passado, jovens de diferentes vertentes evangélicas se reuniram, levando à mesa para debate uma série de temas ligados aos direitos humanos.

O encontro que aconteceu em novembro, contam, foi dividido em três dias e, segundo os organizadores, composto por mais de cem pessoas de pelo menos dez movimentos ou ONGs, diferentes igrejas ou vertentes evangélicas — entre protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais, batistas, assembleianos, metodistas, presbiterianos, adventistas e anglicanos —, comunidades independentes e evangélicos sem filiação religiosa — os chamados “desigrejados”. Fora do contexto de um culto rotineiro — como diria o crítico internauta —, estava, no centro do encontro, uma série de debates sobre questões, envolvendo até a preservação do meio ambiente e respeito aos povos tradicionais. Tema sempre polêmico, a questão do aborto não foi tratada pelo grupo. O debate serviu para traçar pontos em comum entre os fiéis, e o resultado foi tido pelo movimento como positivo. Dentre as principais pautas onde houve consenso entre as ideias estão:

- A luta contra miséria, desigualdade e a fome no Brasil;

- A luta antirracista em todas as frentes;

- A defesa e celebração dos povos originários e tradicionais;

- A luta contra a violência de gênero, dentro e fora da igreja;

- A luta pela preservação ambiental e desconstrução do fundamentalismo bíblico e político.;

- Importância da mobilização social e política.

Em uníssono, o grupo acredita que o discurso de parte das igrejas evangélicas, hoje, é ultrapassado, falha no sentido da inclusão, dentro e fora da igreja, seja ela social, racial, sexual ou política e em relação à consciência sobre assuntos importantes como o direito à moradia e à alimentação no país, e contribui para uma estigmatização negativa dos evangélicos em geral.

— Da perspectiva bíblica, não queremos trazer novas leituras. O que nós queremos é que haja um resgate do sentido original da fé cristã, que esteja de acordo com o nosso tempo, que responda às demandas do nosso tempo. Isso exige um certo enfrentamento — comenta Ismael Lopes, de 30 anos, pastor, teólogo e articulador social, que participou do evento e se define como "crente e militante desde sempre".

Ele argumenta que qualquer crítica feita por frentes conservadoras da igreja ao debate de temas sensíveis à sociedade fere a mensagem passada pelo próprio evangelho. Para Ismael, o encontro acontece, também, como uma forma de resposta a intimidações, violências e estigmatizações vindas por parte de fundamentalistas da própria igreja.

— Esse encontro é mais um grito para que não descredibilizem a nossa fé, e não nos tirem de um lugar que é nosso. Não vamos deixar que nos privem desse espaço da igreja, que é precioso para nós, porque foi onde aprendemos a lutar pelo que lutamos. Se os evangélicos, de uma forma mais ampla, não têm mais essa bandeira dos direitos humanos, então eles precisam arrumar outro nome, porque o evangelho nos impele a lutar em defesa dos direitos e causas sociais — acrescentou.

Segundo o pastor Fellipe dos Anjos, de São Paulo, 20 propostas serão estruturadas e compartilhadas com demais igrejas evangélicas que se interessarem. Nos dois últimos dias do encontro, foram feitas ainda ações artísticas, místicas e litúrgicas originárias de várias tradições evangélicas, para celebrar a pluralidade, e que contou com apresentação musical.

— As reações das pessoas no evento foram as melhores possíveis. A maioria enfatizou a importância da fé e do pertencimento comunitário de forma generosa, aberta, plural e inclusiva. Mesmo que marginalizados e estigmatizados no interior do campo religioso, não vamos abandonar nossa fé, nossas memórias, nossas linguagens, nossas canções e nossas tradições nas mãos dos fundamentalistas. Vamos ocupá-las e atualizá-las. Vamos seguir reinventando nossa fé e nossas tradições, com liberdade, amor e responsabilidade pela vida do outro. Essa sensação de pertencimento foi o grande acontecimento — disse Fellipe.

Daniel Wanderley, de 32 anos, um dos idealizadores do Novas Narrativas, acrescentou, detalhando sobre o momento do encontro que foi compartilhado em vídeo nas redes sociais.

— Estes cantos e danças são parte de uma estética, da linguagem e da corporeidade evangélica pentecostal, que de forma espontânea também brotou entre nós. Representa a experiência religiosa de muitas das pessoas presentes. E é possível dizer que há afinidades estéticas entre o pentecostalismo ou neopentecostalismo e religiosidades afro-brasileiras — comenta Daniel Wanderley, de 32 anos, um dos idealizadores do Novas Narrativas.

Novos tempos

A socióloga Christina Vital da Cunha, professora e coordenadora do Laboratório de Estudos Sócio Antropológicos em Política (LePar) da Universidade Federal Fluminense (UFF) analisa que há diferenças sintomáticas entre este movimento progressista evangélico atual e outros grupos conhecidos que emergiram no passado, como o Movimento Evangélico Progressista (MEP) ou pela Missão Integral entre os anos 1960 e 1990, do ponto de vista social e, também, das pautas que são levadas à mesa.

— O que observo de diferente é que há a inclusão hoje de pautas que não estavam nesses movimentos evangélicos anteriormente, porque eram temas que naturalmente não eram tratados pela sociedade de um modo geral no Brasil, sobretudo com a força que têm hoje, como sexualidade, feminismo, questões raciais — explica Christina. — Há, também, mais evangélicos progressistas que são propriamente moradores de periferias, pessoas mais jovens, que fazem parte da liderança desses processos, diferente do que aconteceu no passado. No MEP, as principais lideranças eram masculinas, brancas, com alta escolaridade. Hoje, esses movimentos contam com muitas mulheres, pessoas negras, um recorte bem diferente.

'Disputa de narrativas'

Ela explica ainda que, após o período de ebulição política, a partir do impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, foi dado um ponta-pé-inicial, também, num interesse maior desses grupos em articularem-se politicamente.

— Houve, não só um crescimento do movimento dos evangélicos progressistas, mas também uma mudança de estratégia. Se antes era um movimento que dialogava para dentro do próprio segmento, passou a haver interesse maior dirigido ao âmbito da política eletiva. É algo que se torna forte em 2018, se torna ainda mais amplo em 2020 e tende a ser ainda maior em 2022 — acrescenta a professora, autora do relatório "Evangélicos à Esquerda no Brasil", pesquisa feita para o Instituto de Estudos da Religião (Isep) e publicada em dezembro.

Sobre os ataques recebidos nas redes sociais por parte desses grupos, Christina reforça que um dos principais desafios.

— Os evangélicos de esquerda e progressistas vêm sofrendo muitos ataques e tentativas de deslegitimação. É uma disputa de narrativas, evidentemente, mas a gente observa também que esses evangélicos de esquerda são estigmatizados, sofrem preconceito por boa parte da própria esquerda que os veem como conservadores e duvidam dessa aproximação. De outro lado há ainda a esquerda secular que busca justamente distinção entre Estado e religião. Eles sofrem ataques de diferentes grupos, motivados por diferentes perspectivas. Esse é um desafio ao crescimento e consolidação desse grupo. Não tanto na sociedade, porque eles vêm crescendo, mas em termos políticos e eleitorais principalmente.

Número de evangélicos é crescente no Brasil

A última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada sobre a presença das religiões no Brasil mostrava que, uma população evangélica que era de 26,2 milhões de pessoas em 2000 saltou em 61% em dez anos e passou a ser de 42,3 milhões em 2010 – cerca de 22% da população brasileira àquela altura. No ano passado, o Instituto Datafolha publicou que, em 2020, a proporção já era de 31% da população brasileira – ou cerca de 65,9 milhões de pessoas, se levados em conta os 212,6 milhões de habitantes brasileiros, segundo o IBGE.

Apesar de ainda não tão expressiva quanto é sua população total, a disposição dos fiéis na política também ajuda a entender um pouco sobre como as diferentes vertentes religiosas pensam. Apesar de a pluralidade existir, a grande maioria dos parlamentares evangélicos que se candidataram no TSE nas últimas eleições para vereador, por exemplo, se consideram de direita (6.332) ou do centro (2.059), enquanto 1.804 definem sua atuação como de esquerda. Os dados são da pesquisa “Esquerda evangélica nas eleições 2020”.

Contexto político dita tendências

A socióloga e professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Mariana Côrtes, que pesquisa o contexto político das bancadas evangélicas, explica os elementos que contribuíram para um novo avanço do conservadorismo entre os evangélicos.

— No contexto eleitoral de 2018, o combate contra as pautas dos movimentos feministas e dos grupos LBTQIA+ constituiu uma agenda conservadora que encontrou reverberação entre os evangélicos. Mas não só isso. O discurso teológico e militar do bolsonarismo também encontrava ressonância entre os pentecostais, habitantes das periferias. Viver sob o cerco das facções criminais, a ameaça das milícias, a luta pelo trabalho, toda uma gramática de guerra urbana fortalecia a ideia do Deus da guerra, fundamentado no Antigo Testamento — comenta a pesquisadora.

Para ela, no entanto, o cenário político atual também contribui para uma espécie de ruptura de muitos evangélicos que radicalizaram o discurso com o presidente Jair Bolsonaro, o que abre uma brecha para que manifestações como a das Novas Narrativas surjam com mais força e visibilidade. A pesquisadora acredita que o comportamento da comunidade evangélica – à direita, esquerda, liberal ou conservadora – está longe de ser estática e se desenvolve de acordo com o contexto.

— Após a catástrofe da condução da pandemia pelo governo, e o agravamento do desemprego, da miséria e da forme, a relação entre pentecostalismo e bolsonarismo dá sinais de abalo. Nesse cenário, grupos progressistas de evangélicos, ainda que minoritários no campo protestante, ganham uma maior projeção política e nas redes sociais, ao colocarem o foco na ética da fraternidade e na retórica do amor — afirma. — Ainda é cedo para afirmar um diagnóstico sobre as viradas do pentecostalismo, mas a conjuntura atual permite dizer que o pentecostalismo não é um bloco monolítico, mas um movimento plástico, que pode ganhar sentidos à direita e à esquerda, a depender do contexto político.

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