Grupo extremista assume controle de cidade síria após acordo de paz

Por Alice HACKMAN
Vista geral da cidade rebelde de Maaret al Numan, norte de Idlib, totamente destruída

Os extremistas do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), ex-braço sírio da Al-Qaeda, assinaram uma trégua com os grupos rebeldes apoiados pela Turquia e, com isso, assumiram o controle total da província de Idlib (noroeste).

O acordo põe fim a vários dias de confrontos letais entre o HTS e os rebeldes, em particular os da Frente Nacional de Libertação (FNL), uma coalizão apoiada pela Turquia.

Sob os termos de um acordo alcançado pela Turquia e pela Rússia em setembro, esperava-se que Ancara restringisse as facções rebeldes de Idlib para evitar uma ameaça de ofensiva do governo com repercussões humanitárias potencialmente desastrosas.

"Esta manhã (quinta-feira), o HTS e a FNL assinaram um acordo que encerra as hostilidades e estabelece o controle do Governo da Salvação sobre o conjunto de Idlib", anunciou Ebaa, o site de propaganda do HTS.

Este "Governo de Salvação" é uma administração local estabelecida pelo HTS.

Localizada no noroeste da Síria em guerra, a província de Idlib, bem como partes das províncias vizinhas de Aleppo, Hama e Latákia, permanecem fora do controle do governo de Bashar al-Assad e abrigam um grande número de grupos rebeldes e jihadistas.

- Interlocutor indispensável -

Nos últimos dias, os jihadistas lançaram um ataque contra facções rebeldes - que deixou mais de 130 mortos - e assumiram o controle de cerca de 50 aldeias, especialmente na província ocidental de Aleppo, um setor que caiu completamente nas mãos do HTS.

Segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), com o acordo desta quinta-feira, a província de Idlib passará inteiramente para o controle administrativo do HTS.

Outros grupos jihadistas, como Al-Din e o Partido Islâmico do Turquestão (TIP), também estão presentes na região de Idlib, mas são aliados do HTS, afirmou o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman.

O acordo anunciado hoje prevê o cessar imediato das hostilidades, a troca de prisioneiros, o fim de todos os postos de controle na região e sua unificação sob a autoridade do Governo da Salvação.

O analista Sam Heller comentou que os últimos acontecimentos colocam o grupo jihadista HTS diretamente no controle da região de Idlib.

"Agora eles podem se apresentar à Turquia e a outros países como um interlocutor indispensável em qualquer solução não militar de Idlib", explicou Heller, do International Crisis Group.

O analista destacou que, por enquanto, não está claro se esse cenário tornará mais difícil para a Turquia implementar o acordo alcançado com a Rússia para ter uma "zona desmilitarizada" em torno de Idlib.

Simultaneamente, Ancara ameaçou lançar uma ofensiva fronteiriça contra a milícia curda que controla grande parte do nordeste da Síria.

O recente anúncio feito pelo presidente americano, Donald Trump, sobre a retirada de tropas da Síria deixou seus aliados curdos mais expostos do que nunca.

Eles tiveram de recorrer a Damasco, em detrimento de seus planos de maior autonomia, para garantir sua sobrevivência contra as ameaças turcas.

Dado este cenário, na semana passada, os curdos sírios indicaram que seria "inevitável" chegar a um acordo com Damasco na região autônoma do norte do país, já que suas forças devem permanecer na área.

Marginalizada por décadas, a minoria curda da Síria forjou uma região autônoma "de fato" em cerca de 30% do território do país após a eclosão da guerra, em 2011.