Grupo 'Mães do Agro’ é recebido pelo MEC para pedir visão mais positiva do setor nos livros escolares

BRASÍLIA - A forma como o agronegócio é apresentada nos livros escolares deve se tornar o novo ponto de discórdia sobre o conteúdo dos materiais didáticos no Brasil. Representantes do grupo “Mães do Agro” se reuniram na quarta-feira com o ministro da Educação, Milton Ribeiro, para pedir mudanças em textos que “discriminam o agronegócio”. Ribeiro afirmou que a equipe avaliadora dos materiais didáticos do MEC terá integrantes que “entendam de agropecuária”.

O grupo levou ao ministro um compilado do que considera “materiais inadequados” sobre o tema. O encontro teve também a participação da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina.

Ao GLOBO, representantes do Mães do Agro afirmam que a iniciativa pretende que as obras usadas em sala de aula incluam dados sobre o setor, além de informações fornecidas pela Embrapa e outros órgãos relacionados ao tema.

Entre as críticas do grupo que se reuniu com Ribeiro, estão materiais que abordam prejuízos da pecuária ao meio ambiente, o trabalho escravo em lavouras e o uso de agrotóxicos.

Os objetivos são criticados na área da educação. A educadora Anna Helena Altenfelder, presidente do conselho do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, questiona as mudanças pedidas.

— O ministro receber esse grupo dialoga com pautas mais conservadoras, o que ele tem feito desde o começo. Sem desvalorizar o agronegócio, que é importante para a economia do país, há várias questões ambientais envolvidas que merecem e devem ser discutidas. Cabe à escola não fazer proselitismo, mas trazer questões críticas a qualquer atividade econômica — diz.

— No material didático, tem-se de se conscientizar os alunos da poluição na agricultura, da utilização de agrotóxicos. Se há um incômodo, deve haver um debate, e não a tentativa de pressionar a ponto de impor — avalia o historiador João Jambeiro, especialista em educação a distância.

Temor de revisionismo

Na avaliação de Jambeiro, a medida pode ser vista como revisionismo histórico:

— Em vez de ser um contraponto, ser um outro lado da moeda, tirar o que está lá para botar a opinião delas é revisionismo histórico. Não um revisionismo baseado em pesquisas, em análises.

Educadores também questionam os critérios de Ribeiro para audiências, a partir do encontro com as Mães do Agro. O grupo foi ouvido cerca de 15 dias depois de o ministro se recusar receber a União dos Estudantes Brasileiros Secundaristas (Ubes), alegando sobrecarga na agenda.

— Todos os segmentos da sociedade civil têm o direito e devem se mobilizar frente a suas agendas. Mas para o ministro receber, precisa ter uma representatividade significativa da população maior do que um grupo muito específico de mães — opina Ana Helena.

Ribeiro afirmou às Mães do Agro que pretende incluir cientistas de áreas ligadas à agricultura e à pecuária no processo de seleção dos livros.

Integrante do Mães do Agro e presidente da associação De Olho no Material Escolar, Letítica Jacintho diz que o grupo não quer “tirar visão negativa” dos livros, mas “trazer um pouquinho mais da realidade” da economia brasileira.

“Vamos discutir 5G”

Para Letícia, é desproporcional o peso dado a problemas na agricultura nos livros didáticos:

— A gente tem que mostrar os bons exemplos para que as crianças se formem sabendo quais os problemas e desafios que têm que resolver no futuro. Mas tem que trazer o desafio para agora. Não adianta discutir trabalho escravo, que, de acordo com o Ministério do Trabalho, é de 0,01%. Por que a gente vai discutir isso insanamente durante dez anos de vida da criança na escola? Vamos discutir os desafios de logística, do 5G.

Letícia nega que o grupo tenha semelhanças com iniciativas como o Escola sem Partido. Desde o ano passado, o Mães do Agro tenta influenciar parlamentares e integrantes do governo, e teve um encontro com a Frente Parlamentar da Agropecuária para tentar alterar o conteúdo de obras adotadas nas escolas. Ao GLOBO, o deputado Alceu Moreira (MDB-RS), que presidiu a frente em 2020, disse que a frente intermediou com o MEC a audiência das Mães do Agro. Perguntado sobre os possíveis problemas encontrados em livros didáticos, Alceu disse que alguns exemplos refletem uma visão pejorativa.

— Outros são desproporcionais, e há os que não são pedagogicamente adequados. A crítica é direito absoluto, mas é importante que seja fundamentada.

O MEC não respondeu ao GLOBO como é decidida a agenda do ministro