Grupo de pais e responsáveis divulgam carta de apoio à decisão do Colégio Franco-Brasileiro

Yasmin Setubal
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Paulo Nicolella / Agência O Globo
Paulo Nicolella / Agência O Globo

RIO — Em meio a bombardeios dirigidos sobre a decisão de debater a linguagem de gênero neutro, o Colégio Franco-Brasileiro recebeu nesta sexta-feira o apoio de parte dos responsáveis pelos alunos. Em carta, os pais defenderam a iniciativa da escola e pediram que a instituição continuasse a promover o diálogo sobre diversidade e inclusão.

— Não teria porquê não apoiar. Trata-se de uma questão importante para colocar em debate os cidadãos que a escola está formando. Afinal de contas, o papel da escola é formar cidadãos e, portanto, eles precisam estar dentro de um debate que concerne a todos, que são as discussões sobre as questões das minorias — comenta Marta Metzler, de 48 anos, mãe de um aluno do último ano do Ensino Médio, que assinou a carta.

O servidor público Roberto Diez, de 55 anos, cuja filha está matriculada no 5º ano do Ensino Fundamental, também apoiou a escola.

— Assinei sim. Eu acho que as pessoas não leram o comunicado da escola. A escola não vai obrigar ninguém, nem alunos, famílias ou professores a usar o termo neutro, mas, sim, convida a todos a conviverem e se abrirem para uma linguagem e um mundo mais inclusivo. Sinto muito orgulho de ser ex aluno e pai de aluna — conta ele.

A professora universitária Betty Rocha, também mãe de um aluno do 5º ano, ficou ao lado da escola. Ela classifica que esse debate seja importante para a comunidade escolar.

— Eu vejo que quando a escola se coloca no desafio de refletir e convidar a comunidade escolar para pensar sobre isso, é muito bom. A escola não está mudando, e sequer propondo a alteração da língua portuguesa. Esse debate está posto em todos os cantos do mundo. Porque as estruturas sociais são dinâmicas, elas são complexas, elas são mutáveis, e a linguagem é uma dessa estruturas — pontua Betty.

Na carta, os pais lamentam as críticas que a escola vem levando por conta da exposição da circular interna. Eles afirmam ainda reconhecer "o esforço da escola para promover diálogo e reflexão sobre pautas essenciais na sociedade atual", e pedem que a instituição apoie a equipe pedagógica, que foi criticada por outro grupo de responsáveis.

Na página da instituição privada no Facebook, muitos pais comentaram negativamente essa iniciativa da escola. "Daqui 6 meses as crianças que estudam no Colégio Franco-Brasileiro terão dúvidas se são menino ou menina...Sem contar que tudo isso será pago pelos próprios pais", escreveu um responsável. "Diversidade não tem nada haver com esse absurdo impronunciável que vcs tentam impor. Se concentrem no ensino e parem de baboseiras", manifestou-se a mãe de um aluno.

Ataques vindos de parlamentares

Era para ser um simples comunicado a pais e alunos, mas o alcance dessa decisão de adotar o gênero neutro foi para além dos muros da comunidade escolar. Dois deputados estaduais, um do Rio e outro de São Paulo, repudiaram a ação da instituição privada que trata sobre o debate da diversidade na unidade de ensino. Os parlamentares alegam que o colégio está promovendo um desrespeito à norma culta do português.

"Não se pode permitir que crianças e jovens sejam doutrinados fora dos padrões da língua culta. É de fácil constatação, que a inserção da "linguagem neutra" em grade curricular possui viés doutrinário ideológico, porquanto viola o direito dos estudantes ao aprendizado em linguagem culta da língua portuguesa, além de ser totalmente contrário às normas e orientações nacionais da base de ensino, obstando, dessa forma, o exercício do desenvolvimento do idioma pátrio", escreveu o deputado Rodrigo Amorim, filiado ao PSL, na monção de repúdio enviada à Secretaria-Geral da Mesa.

O Pastor Marco Feliciano (Republicanos/SP) enviou um pedido de análise da circular à Superintendência da Polícia Federal do Rio, dizendo que o conteúdo do comunicado é "uma afronta ao acordo ortográfico da língua portuguesa de 1990". Ao final do documento, ele ainda pede que "se instaure uma investigação sobre crime de opinião e falsidade ideológica".

O Colégio Franco-Brasileiro preferiu não se posicionar sobre os ataques vindos dos políticos, emitindo a seguinte nota:

O Liceu Franco-Brasileiro, que esta semana completa 105 anos, é uma instituição de ensino comprometida com a qualidade da educação e o respeito à diversidade e à inclusão.

Em comunicado recente, o colégio afirmou o respeito à autonomia de professores e alunos no uso da neutralização de gênero gramatical na escola. Em nenhum momento, informou que passaria a adotar essa prática em avaliações e em sua comunicação oficial.

O Liceu Franco-Brasileiro, portanto, reafirma que continuará a seguir o padrão da norma culta do português, como tem feito desde sua fundação. Como demonstração disso, comunicados e avaliações desta semana usaram os termos "alunos" e "alunas".

Espaço de formação e de múltiplos diálogos, o colégio adota a discussão sobre questões expostas pela sociedade, que não podem ficar só extramuros.

Assim, por meio do seu Comitê da Diversidade e da Inclusão, o Franco-Brasileiro vai promover encontros com a comunidade escolar para debater e aprofundar a reflexão sobre o tema.