Grupo de vítimas de gurus criado por holandesa abusada por João de Deus pede que a Justiça reveja absolvição de líder espiritual do Ceará

RIO — A absolvição do guru Pedro Ícaro de Medeiros, conhecido como Ikky, pelos crimes de violência sexual mediante fraude, lesão corporal dolosa, charlatanismo e curandeirismo, tem mobilizado um grupo de vítimas de falsos líderes espirituais, que pedem um novo julgamento do caso. Criado pela holandesa Zahira Mous, de 38 anos, primeira mulher a dizer publicamente ter sido abusada pelo médium João de Deus, o coletivo se uniu para fortalecer o processo de denúncia e solidariedade. Segundo Zahira, que ainda aguarda o julgamento de seu caso, denunciado em 2018, o sentimento em comum entre as vítimas é o de ter suas dores revividas e minimizadas pela Justiça.

Em entrevista ao GLOBO, Zahira disse que criou o grupo de apoio formado por vítimas de falsos líderes espirituais para fortalecer o processo de denúncia. A proximidade com a investigação do Ceará aconteceu após a jurista Thayná Silveira, que acompanhou o caso João de Deus, formalizar cerca de 50 denúncias contra Ikky junto ao Ministério Público em 2020. De acordo com a holandesa, a absolvição dos crimes na comunidade Afago normaliza a cultura do estupro.

— Esse discurso de culpar a vítima pelos abusos estimula a cultura do estupro, que está muito viva na sociedade. É muito triste ver que a pessoa que abusou de você foi absolvida e desestimula que mais vítimas denunciem. É revitimizante todo esse processo e deixa as vítimas totalmente desesperadas e com medo — diz.

A decisão judicial que inocentou Ikky foi divulgada no dia 4 de abril. O juiz Fabrício Vasconcelos Mazza, da 15ª Vara Criminal da Comarca de Fortaleza, alegou que as acusações contra o estudante de filosofia são por atos em que houve o consentimento das vítimas, por serem "pessoas instruídas, moradoras da capital, com formação superior completa ou em andamento", que teriam conhecimento suficiente para reconhecer um falso líder. Na sentença, Mazza afirma que o acusado conseguiria lubridiar apenas um "indivíduo com déficit cognitivo, derivado da extrema privação de informações".

Ainda segundo a decisão, em nenhum momento o réu prometeu cura em troca de benefícios sexuais na Comunidade Afago, que ele fundou. O guru havia sido condenado, em março deste ano, a 34 anos de prisão em regime fechado e sem direito a recorrer em liberdade pelo estupro de vulnerável de dois menores de 13 anos (os crimes contra os adolescentes pelos quais Ikky foi condenado foram antes da instalação do templo).

Zahira também criticou a justificativa do juiz para inocentar Ikky, a qual considera ilegítima:

— A educação nunca pode ser usada para culpar a vítima, pois o guru se usa de um momento de fraqueza para tirar a roupa e estuprar uma pessoa que confia nos seus ensinamentos. Também é desrespeitoso falar que pessoas sem faculdade seriam facilmente abusadas. Eles (os gurus) falam de cura espiritual e as vítimas confiam. Não é um argumento correto de ser usado pela Justiça — explica a holandesa, que fez mestrado em gênero e religiosidade.

O Ministério Público do Ceará informou que recorreu da decisão, interpondo recurso de apelação. O processo corre em segredo de Justiça.

Ao todo, cerca de 50 jovens de várias partes do país denunciaram Pedro Ícaro por abusos sexuais, físicos e psicológicos. O "guru espiritual" criou a comunidade Afago, que funcionava como uma seita espiritual e atraía vários jovens com a promessa de tratamento espiritual, projeto social e cursos terapêuticos.

Zahira Mous fez sua denúncia contra João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, pelas redes sociais, no início de 2018. Depois de seu depoimento, mais de 400 mulheres denunciaram o médium ao Ministério Público. Após a repercussão do caso, a defesa do médium, Alberto Toron, contestou a versão da coreógrafa e colocou sua credibilidade em dúvida, alegando que ela era “prostituta e tinha um passado de extorsão”. Vítima de abuso sexual e difamação, a Justiça ainda não tem previsão de quando o caso de Zahira será julgado.

João de Deus foi condenado a quase 110 anos de prisão por estupro de vulnerável, violação sexual mediante fraude e posse ilegal de armas de fogo. A pedido da defesa, a juíza Rosângela Rodrigues dos Santos, do Tribunal de Justiça de Goiás, liberou o ex-líder espiritual para cumprir pena em sua mansão em Anápolis, cidade no interior de Goiás próxima a Abadiânia, berço da Casa de Dom Inácio de Loyola.

— As vítimas seguem afastadas de suas próprias vidas por muito tempo. A espera causa muita angústia. O monstro que encontrei em Abadiânia já tirou oito anos da minha vida e, para algumas mulheres, até décadas. Imaginamos ele vivendo em luxo em casa enquanto todo mundo estava presa em casa durante a pandemia. Nunca esqueceremos o que aconteceu, mas merecemos seguir em frente e o encerramento dos processos com a condenação é que nos possibilitará essa retomada. O atual juiz que preside os processos de João de Deus é Renato César Dorta Pinheiro. Espero que ele receba os nossos relatos de dor e angústia e possa trazer fim a esse ciclo de medo e tristezas. Está na hora. Demandamos uma mudança real — conclui Zahira.

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