Grupos mergulham fundo no mar para falar sobre o problema da poluição na biodiversidade marinha

Um problema varrido para debaixo da água. No vai e vem das ondas, a vida marinha tem aprendido — mesmo que à força — a conviver com exageros e irresponsabilidades dos humanos, os terrestres habitantes que têm extravasados limites e deixado transbordar seus excessos: lixo (e de todos os tipos). Plásticos de diferentes composições, formas e usos, embalagens feitas de diversos materiais e itens de pesca, sejam perdidos, abandonados ou em uso com técnicas devastadoras e instalados inclusive em locais de preservação. Na semana em que se celebrou o Dia Mundial do Ambiente (no domingo) e se comemora o Dia Mundial dos Oceanos, hoje, grupos dedicados à preservação e pesquisa da vida marinha dão fôlego as suas ações para trazer à tona a importância da conservação dos mares e de suas biodiversidades — e como embarcar numa corrente de soluções.

Ao longo desta semana, ações em terra firme e na água são dedicadas à educação e conscientização. ONGs, grupos e projetos prometem realizar os tradicionais mutirões de limpeza de areia a plantio de mudas, lançamento de documentário, exposição e live para instigar um mergulho no tema, passando por praia, lagoa e baía. Com atuação global contra a destruição do oceano, no Brasil, a Sea Shepherd segue levantando uma de suas principais bandeiras, a denúncia do impacto negativo que a pesca causa bem antes de chegar à mesa do consumidor. Entre as ações de limpeza pelo país, em Búzio um dos focos é uma rede fantasma (material abandonado), a ser retirada durante um mergulho do mutirão, nesse sábado, na Praia João Fernandes.

— Todos os tipos de resíduo danificam a água, mas as redes são feitas para matar o animal. Se não são retiradas, elas sufocam. Os petrechos de pescas são 10% do plástico hoje no oceano. É preciso pensar nos nossos hábitos de consumo, quais as ferramentas usadas para isso — aponta Nathalie Gil, diretora geral da Sea Shepherd no Brasil. A retirada de qualquer resíduo na água requer atenção diante da possibilidade de ter animais presos ou vivendo nos itens.

No estado do Rio de Janeiro, Cabo Frio recebeu seu primeiro mutirão de limpeza nas areias no domingo. Neste fim de semana, é a vez da capital, na Praia da Urca, e de Niterói, na Praia de Boa Viagem. Os encontros serão no domingo, das 9h às 13h, com inscrição on-line.

Para o Projeto Verde Mar todo dia pode ser a ocasião certa para uma faxina. Após paralisação devido à pandemia de Covid-19, o projeto voltou aos encontros mensais, iniciados em 2016, quando são coletados dados e lixos para relatórios sobre o cenário atual. Até domingo, o público pode conferir registros desse trabalho na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, das 13h às 18h, com exposição fotográfica e peças de arte contemporânea produzidas com a utilização de materiais de pesca retirados do mar pelos mergulhadores. Diante do trabalho para preservar a biodiversidade na Praia Vermelha, na Urca, na Zona Sul do Rio, os itens são motivo de preocupação, em especial os deixados para trás perto do costão, conta Caio Salle, jornalista, instrutor de mergulho e fundador do projeto:

— Nas ações nós ficamos perto do costão, onde tem mais concentração de vida marinha. Especificamente na enseada da Praia Vermelha tem barcos que fazem a pesca de cerco, em que jogam a rede para usar os peixes de isca para outras espécies. Há uma proposta de proibir a pesca embarcada porque a rede limpa toda a enseada — explica Salles. —Localmente estamos fazendo a diferença. E sair do mar com esse resíduo, resgatando a fauna e devolvendo para o mar, como polvo, caranguejo, moluscos, que são minúsculos e podemos não dar atenção, mas tem um atrativo. As pessoas que passam na praia veem as atividades e começam a se sensibilizar com isso. É mostrar o que acontece.

A separação de tudo o que é recolhido durante os mutirões auxilia a dimensionar o tamanho do problema, mesmo com objetos tão pequenos. Encontrar itens nada convencionais para um ambiente de orla desperta curiosidade e reflexão.

— É uma ferramenta de educação mesmo. Todo mundo que participa acaba tendo uma reflexão consigo mesmo. Volta para casa e vê o próprio resíduo de uma maneira diferente. Na hora de separar os itens e contar, é um momento de insight, como as hastes flexíveis, o que elas têm a ver com a praia? E entende que vem de esgoto, embalagens que vêm de vias marítimas (por embarcações) e em movimentações oceânicas (como correntes) de outros lugares do mundo — salienta Nathalie. — O oceano é uma coisa só. As águas estão interligadas.

Uma das preocupações do Verde Mar é falar sobre sustentabilidade e preservação de maneira simples e direta, apesar de se apoiar em dados científicos e realizar pesquisa constantemente. O projeto acredita que para fazer com que as pessoas percebam os problemas e se sensibilizem a ponto de fazerem parte da solução, é preciso entender causas e consequências. Foi através da troca, por meio de conversa, com pescadores e frequentadores da Praia Vermelha que surgiu a ideia de propor a criação do "Santuário Marinho da Paisagem Carioca" no local, uma medida, que aguarda publicação de decreto, para ordenar as atividades na água e restringir a pesca. Uma pesquisa com ilustres moradoras da região, as tartarugas, está prestes a começar. O estudo é em parceria com o Projeto Ilhas do Rio, voltado para a educação ambiental e o estudo do impacto da poluição nas ilhas.

— Vamos trazer a pesquisa como é feita nas Ilhas Cagarras para a Praia Vermelha. É interessante porque será por foto identificação, a partir da placa na cabeça da tartaruga, em que o conjunto de manchas é como uma identidade de cada uma. Fazemos fotos de ângulos diferentes para montar um banco de dados — adianta Caio Salles.

O Instituto Mar Urbano convida o público a mergulhar na Baía de Guanabara com a exibição dos quatro episódios da websérie "Raias da Guanabara", documentário, a ser exibido no Museu do Amanhã, no domingo, que aborda o potencial econômico da região desperdiçado à medida em que faltam políticas públicas de preservação. Poluição e pesca de animais ameaçados são alguns dos temas retratados, conta o idealizador da produção e diretor do instituto, o fotógrafo e biólogo marinho Ricardo Gomes, que faz mergulho na região desde 1986:

— Essa é a quinta baía do mundo com maior diversidade de elasmobrânquios, os tubarões e as raias, essas com três espécies descobertas recentemente. O filme é voltado para os atrativos econômicos, o que desconhecemos e o potencial de coisas que não damos valor, como as raias. vendidas como o filé mais barato da feira. Sendo que para ver uma raia-borboleta, ameaçada de extinção, as pessoas pagam para mergulhar com elas, e aqui não.

As dificuldades para evitar que a poluição chegue nas águas e as oportunidades de renda e emprego perdidas com o descarte irregular também estão na discussão, isso atrelado à perda de biodiversidade.

— Tem tantas coisas boas para fazer. Até a reintrodução do plástico que está na baía, o retirando, tratando e repassando para cooperativas de reciclagem, estaria criando emprego e renda. O plástico virgem acaba sendo mais barato, e é uma luta das empresas de reciclagem para conseguirem operar na formalidade e serem competitivas com o preço do material — aponta Gomes. — O que precisamos para rever a qualidade da água na Baía da Guanabara é rever o saneamento. Se fosse promovido, hoje, a gente estaria gerando divisas por todos os lados possíveis e imagináveis, entre elas, emprego e renda com o turismo náutico.

As ações de preservação ganham fôlego com o dia dedicado a falar da importância dos oceanos, mas é preciso continuar a nadar em buscar de soluções efetivas a curto e longo prazo. A aposta é na conscientização tanto no coletivo como no individual para continuar a replicar os aprendizados nos outros 364 dias do ano. Os grupos têm levado atividades para escolas, seja através de parcerias fixas ou em eventos. Com pé na areia, crianças e adolescentes aprendem sobre a vida marinha e a preservação da biodiversidade na prática, que vai de soltura de animais resgatados e limpeza e produção de conteúdo sobre conservação a partir do próprio olha

— Não vamos formar defensores sem crianças com conhecimento dos oceanos. É necessário conversar sobre os oceanos mesmo longe deles. O impacto que uma cidade que está longe causa, da mesma maneira que estamos aqui perto. As soluções que precisamos globalmente podem começar na cabeça de um jovem. Cada um tem um olhar único sobre o que estamos vivendo — salienta Ricardo Gomes.

Aliadas ao coletivo, as mudanças nas escolhas individuais impulsionam as transformações, defende a diretora geral da Sea Shepherd Brasil. Adaptações na rotina auxiliam na redução da produção de lixo e no descarte de itens de uso único, em especial o plástico.

— Recusar tudo o que a gente pode. A maioria dos líquidos que são servidos com canudo poderiam muito bem ser consumidos sem. E sempre substituir, como a bucha vegetal, que está aí desde sempre, no lugar da esponja. Trocar o sabonete e o xampu líquidos pelo em barra. Levar uma garrafinha e uma sacola reutilizáveis sempre quando a gente pode — diz Nathalie, destacando que as ações acabam por desdobrar no coletivo: — Num nível de problema municipal, é votar em prefeituras que se preocupam com o tema, de saneamento básico, gestão de resíduos, botar pressão, exigir deles, passar para frente essa informação.

Até domingo, o Grupo Cataratas tem ações diárias em seus espaços, mesmo que longe do mar e até em terra firme. Um dos vieses é a discussão sobre os diversos ecossistemas e como eles estão relacionados. No sábado, a partir das 10h, o público vai pegar onda na Lagoa de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, com limpeza e reintrodução de Guaiamu, espécie de caranguejo terrestre. E dá para aprender sobre biodiversidade através de uma tela, com a live sobre o peixe-leão, hoje, às 18h, no Instagram do AquaRio

— Acho que as pessoas têm uma dificuldade, em geral, de relacionar os ambientes e entender que às vezes um problema em um local vai desencadear uma rede de impactos negativos que acaba que inevitavelmente retornam para nós. Estamos vendo a crise de eventos climáticos extremos — observa Talita Uzeda, gerente de sustentabilidade do Grupo Cataratas.

Em outras atividades mão na massa, o grupo organiza limpeza da orla da Praia da Macumba, no Recreio dos Bandeirantes, e, no domingo, o Clean Up Bay em três pontos: Ilha de Paquetá, São Gonçalo e Ilha do Governador. Os encontros são sempre às 10h.Em outra ação que conta com a participação do público, uma escultura será montada no BioParque amanhã a partir de resíduos, inclusive os coletados nos parques sob gestão do Cataratas. Os visitantes serão convidados a contribuir.

Ainda hoje, a partir do meio-dia, o Instituto Route Brasil realiza a 2ª edição do “Aquele Abraço”, na Praia de Copacabana, na Zona Sul do Rio. A expectativa é de reunir mais de 5 mil voluntários. Serão 26 pontos para recepção do público. Após o ato simbólico, que em 2019 realizou o maior abraço do mundo, com mais de 15 mil pessoas, será realizado um mutirão de limpeza na orla.

— Todo dia deveria ser o dia do oceano, ser o dia do meio ambiente, de entender como fazer parte desse planeta para se entender como espécie. A gente precisa cuidar do planeta como um todo, estamos inseridos nele. Deveria ser parte do dia a dia — alerta Caio Salles.

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