Grupos de teatro criam peças especialmente para a internet

Gustavo Cunha

O primeiro ato foi reflexo de um susto. Assim que decretaram a quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus, produtores e artistas liberaram, na internet, uma abundância de registros em vídeo de espetáculos teatrais antigos. Com o tempo, porém, novos elementos se incorporaram ao palco (ops, à web). Hoje, muitos grupos já encenam peças inéditas pensadas especialmente para plataformas virtuais, com transmissões ao vivo em horários pré-definidos — e com direito a interações do público. Abaixo, confira uma lista de atrações que utilizam esse espaço como um tablado temporário para a criação teatral.

‘Clube da Cena Lives’

Desde a última segunda-feira (18/5), o coletivo Clube da Cena apresenta dramaturgias curtas e inéditas, no Instagram (@clubedacena), em dinâmica irreverente que conta com a participação do público.

De segunda a sexta-feira, sempre às 22h, uma dupla de artistas se reúne para encenar um esquete com duração de dois minutos. Ao longo da noite, a performance ganha outras versões à medida que os espectadores são convocados a “redirigir” a história com sugestões de novos comandos.

— Pensamos num formato que levasse em consideração o caráter solto das lives, já que há pessoas que entram e saem a todo instante e não necessariamente acompanham início, meio e fim — ressalta Cristina Fagundes, idealizadora do projeto.

Nesta terça-feira (19/5), as atrizes Ana Paula Novellino e Stella Brajterman levam à cena “A mostra”, de Regiana Antonini, sob direção de Raul Franco. A trama aborda o isolamento social, assunto que será tratado até o fim da semana.

‘Desamparos’

As dez badaladas do sino da igreja da pequena cidade Barão de Cotegipe, no Rio Grande do Sul, fazem as vezes de terceiro sinal para o solo interpretado por Cléo de Páris. Ambientado nos jardins e no interior de um casarão da família da atriz, a performance dirigida por Fábio Penna interliga textos autorais a passagens por obras de Florbela Espanca, Cecília Meireles, Milan Kundera, entre outros. As apresentações acontecem todas as terças-feiras, das 22h às 22h20, no Instagram (@cleodeparis).

‘Tudo que coube numa VHS’

O novo projeto do grupo Magiluth funde linguagens de diferentes plataformas através de um experimento curioso. Em sessões individuais com duração de cerca de 30 minutos, um dos seis atores da companhia pernambucana — formada por Giordano Castro, Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Mário Sérgio Cabral, Lucas Torres e Pedro Wagner — conduz uma história ficcional que se inicia com uma ligação telefônica e caminha para os aplicativos WhatsApp, Instagram, Youtube e Spotify.

Para participar, o público deve entrar em contato através do Instagram (@magiluth) e combinar um horário, sempre de terça-feira a domingo, das 19h às 23h30. Os ingressos custam R$ 20, através de depósito em conta.

A obra , que não exige intervenções do espectador, tem feito sucesso. Em média, cada um dos artistas apresenta a performance para cerca de 12 pessoas por dia. A agenda desta semana está lotada.

— O trabalho tem quebrado barreiras geográficas. Já atendemos gente que estava num fuso horário a cinco horas de diferença do nosso. Ainda estamos entendendo essas novas possibilidades — diz Mário Sérgio Cabral.

‘O filho do presidente’

Montagem do grupo Teatro Caminho, o solo escrito e interpretado por Ricardo Cabral une aspectos das artes cênicas e da linguagem audiovisual para materializar, ao vivo, uma dramaturgia na tela.

Transmitida todas as sextas-feiras, às 21h, através do aplicativo de videochamadas Zoom (em link que é liberado ao público 1 hora antes do espetáculo, no Instagram @teatrocaminho), o monólogo acompanha a fuga de um homem que mata dois policiais e rouba um livro. A trama, dirigida por Natasha Corbelino, propõe uma investigação sobre a desobediência civil.

— O personagem experimenta diferentes infrações e todas as suas consequências. E surgem daí algumas questões. Até onde podemos ir em nossos atos? Desobedecer se aproxima mais da loucura ou da liberdade? — explica o ator e autor, que transformou o próprio quarto em sala cênica.