Calais tem mais incógnitas que certezas após acampamento de imigrantes

Antonio Torres del Cerro.

Calais (França), 19 abr (EFE).- A cidade de Calais, que abrigava um polêmico acampamento de solicitantes de asilo e refugiados há seis meses, continua a conviver com a imigração, um dos assuntos que mais preocupam os franceses que votarão nas próximas eleições presidenciais do país.

Já não existem mais 'acampamentos da vergonha' na cidade, como o conhecido como a "Selva", onde viveram em péssimas condições cerca de 10 mil imigrantes, a maioria vindos de Afeganistão, Sudão e Eritreia. No entanto, centenas de jovens agora vagam pelas ruas e dormem onde podem.

"Fornecemos cerca de 300 refeições por dia aos imigrantes que permanecem à deriva, a maioria deles menores de idade", contou à Agência Efe a ativista Klaartje Smulders, da associação Utopia.

O governo do departamento de Pas-de-Calais calcula que cerca de 100 a 150 jovens estão espalhados pela cidade, separada do Reino Unido por apenas 34 quilômetros.

"Viemos fazendo todo o possível para evitar novos acampamentos", explicou um porta-voz do governo.

A "Selva", onde ficava o acampamento, está absolutamente deserta, tanto de imigrantes como de novas favelas. Situado próximo ao porto de Calais, o local viu a população se multiplicar a partir de 2014 por conta da crise migratória do Mediterrâneo e foi desmantelado no dia 31 de outubro de 2016.

Um dos poucos vestígios do que chegou a ser uma enorme cidade-favela com supermercados, bares e mesquitas são dois cartazes posicionados na antiga entrada que exibem as mensagem "proibida a entrada ao público" e "ninguém merece viver assim".

Embora o número de policiais mobilizados em Calais tenha diminuído de 2 mil do ano passado para os atuais 150, a polícia continua a patrulhar a região do antigo acampamento, que tem aproximadamente quatro quilômetros quadrados de área.

A antiga "Selva" está atualmente fechada, cercada por muros e alambrados construídos em 2016 com o objetivo de proteger a estrada e o porto de intrusões.

Em 2015 e 2016, a época mais movimentada do acampamento, na qual os confrontos entre imigrantes e policiais eram diários, dezenas de jovens montavam barricadas para forçar os caminhões que iam ao Reino Unido a parar para levá-los para o outro lado do Canal da Mancha.

Os habitantes de Calais, afligidos por terem visto a pequena cidade em meio à tormenta midiática dos dois últimos anos, discordam sobre o efeito que o acampamento teve na região.

"Entre antes e depois não vejo muita mudança. A certeza é que vemos menos imigrantes na rua, mas nada além disso", disse Nicolas, de 27 anos. Com opinião parecida, Rose comentou que "há menos barricadas nas estradas".

Ambos compartilham a preferência no candidato neocomunista Jean-Luc Mélenchon para o primeiro turno das eleições, no dia 23 de abril. E isso apesar de a região de Calais, a segunda mais pobre da França, ter votado massivamente na ultradireitista Frente Nacional (FN) nas eleições regionais de 2015.

Os estudantes Louis e Morgane, que aos 18 anos votarão pela primeira vez, consideraram que a insegurança é menor desde que o acampamento acabou: "Amigos nossos tiveram o celular roubado", lembrou a jovem.

Mais preocupado se mostrou Coco, um economista desempregado membro do polêmico grupo "Cidadãos de Calais em Cólera", que diz ajudar a Polícia a interceptar os imigrantes que representem problemas de segurança.

"É fato que nesses meses melhorou um pouco, mas continuou havendo clandestinos. Não montaram barricadas, mas abordaram caminhões", alertou.

Coco, um decepcionado com a política, votará em branco: "Todos falam que Marine Le Pen é a solução, mas não acredito. Para mim, todos são iguais. Fazem promessas e não as cumprem", refletiu.

A nove dias do primeiro turno das eleições, a questão migratória espreita de novo Calais. O incêndio ocorrido recentemente no acampamento de Grand-Synhte, onde viviam 1,5 mil imigrantes, aumentou os temores.

As autoridades estão em alerta para evitar que centenas de pessoas voltem a se instalar em Calais. Enquanto isso, os comerciantes da cidade, muito deles no ramo do turismo, esperam que 2017 seja um ano de alta, após 2015 e 2016 marcados pelo que consideram uma "propaganda negativa". EFE