Sob fanáticos, democracia no Brasil já vale menos que pequi roído

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
·5 minuto de leitura
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
BRASILIA, BRAZIL - MARCH 14: Supporter of Brazilian President Jair Bolsonaro protest with written banner asking for military intervention during a motorcade and  demonstration in favor of the government amidst the coronavirus (COVID-19)pandemic in Esplanada dos Ministérios on  March 14, 2021 in Brasilia, Brazil. Brazil has over 11.439,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 277,102 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Apoiador pede golpe militar em protesto de apoio a Jair Bolsonaro. Foto: Andressa Anholete/Getty Images)

Quem ainda se pergunta até onde se esgarça o Estado democrático de Direito no Brasil pode esquecer as notas de repúdio oficiais e levar o pano até a sede de um semanário de Olímpia, município paulista a 790 quilômetros da capital federal.

Lá, se alguém escreve o que o governante não gosta, tem a casa onde mora e funciona o jornal incendiada.

Em um tempo em que a morte das democracias é roteiro e tema de best-seller, não é preciso um ditador com poderes imperiais mandar prender ou soltar quem não concorda e não difunde suas ideias. Basta estimular o guarda da esquina a fazê-lo.

No Brasil de Bolsonaro, a figura do guarda é todo aquele disposto a matar e morrer pela causa. Uma causa estimulada todos os dias por quem se queixa por não ter “liberdade” para fazer tudo o que pensa e deseja diante dos pesos e contrapesos do Congresso, do Judiciário e do pacto federativo.

Longe da praça dos Três Poderes, a liberdade de imprensa, um dos pilares da democracia em qualquer país, já é materialmente uma casa incendiada. Nela vivia um jornalista com 40 anos de profissão, um histórico de luta contra a ditadura e que hoje relata à polícia estar sofrendo ameaças por defender as medidas de isolamento social no combate ao coronavírus.

Não é caso único.

Em Araraquara, um radialista teve a casa cercada por manifestantes após ter uma fala editada e viralizada na qual criticava quem se mobilizava contra o lockdown na cidade, medida dura que reduziu o número de internações nos hospitais locais prestes a entrar em colapso.

Leia também:

Em Belo Horizonte, um fotógrafo foi covardemente agredido por manifestantes que foram às ruas em defesa de Jair Bolsonaro, o principal influencer anti-isolamento social do país. E que, desde o início da crise, não tem perdido a chance de confundir e jogar a população, já suficientemente apreensiva pelas duras e necessárias medidas de distanciamento, contra quem faz e pensa diferente —por exemplo, gestores municipais e estaduais, que lidam na ponta da linha com hospitais superlotados no pior momento da pandemia. A “esses bostas”, como ele mesmo descreveu na reunião de 22 de abril, Bolsonaro queria dar um recado ao mandar seus ministros da Defesa e da Justiça assinarem portarias ampliando o acesso a armamento pela população. Sim, o recado era uma bala.

No país que está prestes a completar 300 mil mortes por coronavírus, dar nome aos bois e aos atos que nos levaram até aqui pode ser perigoso. Pode render processos movidos pelos sabujos oficiais ou porrada de quem faz os serviços de graça em defesa do alinhamento automático (e burro) com o comando central.

Para que ninguém dê nome aos bois, nem aos pequis, possíveis detratores são vigiados, perseguidos, incluídos em dossiês, ameaçados, constrangidos.

É o que o jurista e colunista da Folha de S.Paulo Conrado Hübner Mendes chama de Estado de intimidação. Baseado no “milicartismo”, este Estado permite que: a Procuradoria Geral da República peça a jornalista que entregue relatório a Abin, que monitora “maus brasileiros” em uma conferência do clima; que dossiês contra antifascistas e detratores sejam produzidos no centro do governo; que críticos do ministro do Meio Ambiente sejam interpelados pela Advocacia Geral da União; que o presidente incite a polícia a partir pra cima da imprensa; que médicos sejam assediados para receitar remédio sem comprovação científica; que professores fiquem obrigados a assinar termo de ajustamento de conduta por criticar o governante; que estudante seja preso por frase irônica em rede social; que órgãos do governo embarguem a publicação de estudos de interesse público; que disque-denúncias sejam criados em escolas e universidades; que advogados se mobilizem para processar quem criticar em voz alta o capitão e seus aliados.

A essa lista, muito bem lembrada por Hübner Mendes em uma coluna recente, se somam novos episódios. Por exemplo, as ameaças de morte sofridas pela médica cotada para assumir o Ministério da Saúde. E a ordem do Ministério da Justiça para a Polícia Federal investigar quem pagou por um outdoor no Tocantins dizendo que Jair Bolsonaro não valia “um pequi roído” —expressão local para dizer que não valia nada.

(Em tempo: na polifonia das redes, há quem embarque na tentadora e falsa simetria segundo a qual, no sistema judiciário brasileiro, pau que bate em Chico também bate em Francisco. E confunda as similaridades entre uso das redes sociais para criticar políticos e uso para divulgar o desejo e estimular a violência contra juízes e opositores).

No filme “Alpha Dog” (2007), de Nick Cassavetes, o líder de uma gangue sequestra o irmão mais jovem de um rival que lhe devia dinheiro. O que era para ser apenas um “susto” se transforma em tragédia —ironicamente não por ato ou ordem do macho alfa, mas pelas mãos de um seguidor estúpido e inseguro disposto a ganhar prestígio e mostrar serviço, e devoção, ao ídolo.

Nas pontas das grandes e pequenas cidades, estimulados pelas falas e pelo clima persecutório implementado pelos subordinados mais próximos no Planalto, as consequências trágicas chegam às vítimas pelas mãos do aparentemente distante guarda da esquina —entre eles anônimos que, se não querem chamar a atenção do líder, pensam ter nele as costas quentes para promover qualquer ato em seu nome.

Um país que deixa isso acontecer dá à democracia o valor de um pequi roído.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos