Sem provas, guardas municipais agridem e acusam estudante negro de porte de drogas no Recife

Alma Preta
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Vídeos divulgados nas redes sociais comprovam o comportamento violento dos agentes públicos. Foto: Reprodução/Facebook
Vídeos divulgados nas redes sociais comprovam o comportamento violento dos agentes públicos. Foto: Reprodução/Facebook

Texto: Nataly Simões | Edição: Pedro Borges

Uma noite de shows que faz parte da programação do pré-carnaval do Recife terminou de forma traumática após um conflito envolvendo Guardas Municipais do Grupo Tático Operacional (GTO) e jovens. Vídeos divulgados nas redes sociais mostram a abordagem violenta dos guardas contra um estudante negro que foi agredido e detido por porte de drogas, sem nenhuma prova. Nas imagens, também é possível ver e ouvir ao menos três tiros disparados por um agente público em meio a uma multidão.

O caso aconteceu no evento Terça Negra, organizado pelo Movimento Negro Unificado (MNU), no Pátio de São Pedro, na capital de Pernambuco. De acordo com Juliana Barbosa, estudante de medicina da Universidade de Pernambuco (UPE), o jovem identificado como Márcio Glei Barbosa da Silva foi abordado por um guarda extremamente alterado, que o chamou de vagabundo e alegou que ele estava com drogas.

“Qual legitimidade ele tinha para chamar um estudante de vagabundo? Sabemos que a nossa cor fala primeiro. Antes de saber quem somos, nosso caráter e de onde viemos, somos subjugados”, relata.

Ao perceberem a ação dos guardas municipais, as pessoas no local tentaram conversar com os agentes públicos para entender o que estava acontecendo. Sem respostas, o público começou a protestar enquanto Márcio da Silva estava cercado por seis guardas.

“Questionamos a ação e esperamos ele ser revistado e liberado. Não tinha necessidade de uma pessoa desarmada ficar cercada por seis guardas e eu ouvi um dos guardas falar que pretendia levar o Márcio para um lugar reservado. Argumentamos de forma coerente e a única resposta era o silêncio de quem estava fardado. Foram 30 minutos de tentativa de diálogo até que chamaram reforços e a população protestou”, acrescenta Juliana Barbosa.

A Polícia Militar foi chamada e Márcio da Silva foi levado para a Central de Plantões, onde só foi liberado após a defesa de advogados. Para Juliana, que também foi atingida pelo spray de pimenta usado pelos guardas, a sensação que fica é a de impotência.

“Ele não foi para uma penitenciária, mas foi tratado como um bandido perigoso. Márcio não fez nada de errado para ser tratado com violência. É necessário ter olhar crítico sobre a situação e entender que não é só estar no lugar errado, é ser o corpo julgado como errado”, salienta.

Violência cotidiana

A tradicional Terça Negra acontece no Pátio de São Pedro, no Recife, desde a década de 1990. O evento, tradicional na capital recifense e voltado para a população negra, ao longo dos anos também se tornou em ponto turístico.

Segundo Biatriz Santos, militante da Coalizão Negra Por Direitos e integrante da Articulação Negra de Pernambuco (ANEPE), pessoas brancas também frequentam o local e não são alvo de abordagens truculentas por parte de agentes de segurança pública.

“É uma festa aberta, com pessoas negras e brancas, mas as únicas que sofrem com a violência policial são as negras. Na edição da terça-feira, houve diversas abordagens e os guardas municipais não encontraram nada de errado. Márcio estava com uma garrafa de água na mão e os agentes foram na direção dele para tentar incriminá-lo por algo que ele não fez. É evidente que para não sair sem nenhuma pessoa presa, eles decidiram pegar um rapaz negro retinto [de pele escura] e que não cometeu nenhum crime”, pondera.

A Articulação Negra de Pernambuco (ANEPE) se reúne nesta quinta-feira (6) para acionar as autoridades competentes. O Alma Preta procurou a Secretaria de Segurança Urbana do Recife e questionou a razão de Márcio da Silva ter sido tratado de forma violenta pelos Guardas Municipais do Grupo Tático Operacional (GTO). Até a publicação desta reportagem, o órgão não se posicionou.