Guedes às vezes fica irritado, mas disse que só sairá no fim do mandato, afirma Bolsonaro

Marcello Corrêa
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Jorge William / Agência O Globo

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro disse neste sábado que o ministro da Economia, Paulo Guedes, fica chateado com o andamento de medidas que dependem do Congresso, mas assegurou que só sairá do governo quando acabar o mandato presidencial.

A declaração foi dada em uma conversa gravada com o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), seu filho, publicada neste sábado na internet. O parlamentar questionou ao pai se em algum momento Guedes já indicou que deixaria cargo.

— Não demonstrou para mim (que sairia do governo). Lógico que a gente vê que de vez em quando ele fica irritado, porque certas medidas dependem de votações. Eu sei como funciona o parlamento, ele está aprendendo ainda. Ele quer resolver e fica chateado. Agora, no tocante a sair, falou que vai sair comigo quando acabar meu mandato — disse Bolsonaro.

Nos últimos meses, o ministro tem se queixado do que afirma ser uma aliança de centro-esquerda no Legislativo para travar o andamento de pautas como a agenda de privatizações. Até hoje, no entanto, o Executivo só enviou ao Congresso uma proposta para privatizar a Eletrobras.

Bolsa Família

A pressão por gastos públicos também é motivo de desconforto por parte do ministro, que cancelou as férias de fim de ano, previstas para começar neste fim de semana. A mais recente polêmica é a respeito da concessão de 13º salário a beneficiários do Bolsa Família.

Na quinta-feira, Bolsonaro afirmou que o benefício não seria pago neste ano porque o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não havia pautado uma medida provisória (MP) para autorizar o repasse.

Maia, por sua vez, negou a informação e disse que a orientação para não tratar do benefício havia sido do próprio governo, por falta de recursos. O parlamentar ameaçou pautar na sexta-feira uma MP para liberar o pagamento, em uma forma de desafiar Bolsonaro.

No mesmo dia, Guedes disse que a concessão do abono configuraria um crime de responsabilidade fiscal, porque o benefício já havia sido pago no ano passado. Um segundo ano de repasses configuraria uma despesa permanente, não prevista no Orçamento.

Reajustes para servidores

Uma disputa sobre reajustes para servidores públicos também foi motivo de crise envolvendo o ministro. No início da pandemia, a equipe econômica articulou para incluir no projeto de auxílio a estados e municípios um artigo para proibir os aumentos até o fim de 2021.

A medida acabou sendo retirada na última hora durante a votação da medida, e o ministro teve que pedir que Bolsonaro vetasse o dispositivo que permitia aumentos salariais. Depois de 20 dias, o presidente atendeu ao pedido do auxiliar.

O episódio ainda teve um último desdobramento, quando o Senado derrubou o veto presidencial e abriu espaço para conceder aumentos. Na ocasião, o ministro disse que a decisão foi 'um crime contra o país'. A declaração causou mal-estar entre senadores e o ministro acabou pedindo desculpas. A derrubada do veto foi revertida pela Câmara, que manteve o bloqueio às altas salariais no funcionalismo até o fim do ano que vem.

Outro momento de atrito ocorreu em agosto, quando Guedes travou uma batalha nos bastidores contra o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, a quem acusava de tentar flexibilizar o teto de gastos, regra que limita o crescimento de despesas federais à inflação.

Em um dos momentos mais tensos dessa crise, no mesmo dia em que afirmou haver uma debandada em sua equipe, o chefe da Economia afirmou que furar o teto poderia aproximar o presidente do impeachment.

No dia seguinte, Bolsonaro reuniu no Palácio da Alvorada os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e ministros para se comprometerem ao cumprimento do teto de gastos, válido até 2026.