Guedes admite não ter entregue o que gostaria, mas diz haver narrativa ‘negacionista’ contra ele

Manoel Ventura e Marcello Corrêa
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Edu Andrade / ME

BRASÍLIA — Ao fazer um balanço deste ano, o ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu nesta sexta-feira que não entregou tudo que gostaria. Guedes afirmou, por outro lado, que há uma campanha “negacionista” contra o governo, citando os resultados positivos da Bolsa.

— Não entregamos o que nós gostaríamos, mas há um reconhecimento do nosso trabalho. A Bolsa de Valores está chegando a 120 mil (pontos). O risco Brasil está nos menores níveis em cinco anos, os juros estão em 2%, a economia está retomando o crescimento. Tem muita gente que acredita que nós estamos entregando — disse o ministro, em entrevista à imprensa.

Guedes citou como exemplo a aprovação da reforma da Previdência, o acordo com a União Europeia, a entrega ao Congresso da reforma administrativa e do Pacto Federativo, além do megaleilão de petróleo de 2019.

— Essa transformação do Estado é nosso objetivo, mas as dificuldades existem. Eu sou acusado toda hora de não entregar. Nós estamos entregamos alucinantemente — disse. — Tem uma narrativa política para descredenciamento do nosso governo, mas ela é negacionista, anticientífica, porque ela não é baseada em evidência empírica. A evidência empírica é que nós estamos entregando o que governos passados não entregaram.

Guedes também rebateu críticas por fazer promessas que não foram cumpridas, como declaração de que o Brasil iria mudar em 15 semanas, no início do ano, e também de que faria quatro privatizações em 90 dias.

Ele disse que fez suas falas após conversas com parlamentares, mas afirmou que a falta de experiência política o faz criar promessas.

— Pato novo mergulha fundo, não conhecia a política direito, acreditava, saía lá e falei “em 40 dias vou entregar alguma coisa”. Aí você vê que a política é complicada, e leva seis meses. Quem paga a conta sou eu — afirmou o ministro.

O ministro disse que não fará mais promessas, repetindo que quem dá o timing das reformas são os políticos.

— Estou aprendendo. Resultado: não prometo mais nada. Agora acabou, não prometo mais nada.

Paulo Guedes disse ainda que a vacinação em massa da população contra a Covid-19 é o próximo capítulo das medidas de combate à pandemia e que ela será necessária para a retomada da economia.

'Sou demissível em cinco minutos'

Questionado sobre a avaliação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de que ele estava enfraquecido, Guedes negou ser um superministro e afirmou ser o mais vulnerável na Esplanada.

— Eu nunca acreditei que eu sou superministro de nada. Sou demissível em cinco minutos. Quem é que é super se pode ser demissível em cinco minutos? Sou um ministro como todos e sou o mais vulnerável — afirmou.

O ministro se comparou a uma represa. Ele afirmou poder ser como a usina de Itaipu, que gera energia com a força das águas, ou como a barragem da Vale em Brumadinho, que causou uma tragédia com centenas de mortes ao romper em Minas Gerais no início de 2019.

— Quem quiser gastar, vem fazer um furozinho no meu teto. (Eu digo a outros ministros:) os senhores podem me transformar em uma Itaipu, gerar energia para todo mundo, ou pode me transformar em Brumadinho. Eu sou uma represa que quer gerar energia — disse Guedes.

Para Guedes, há “janelas” em que as reformas podem ser pautadas. E, sempre que houver essa oportunidade, o ministério irá atuar.

— Nós estamos entregando quando a janela abre. Toda vez que a janela abre a gente enfia o dedo lá. Só que a janela fecha toda hora, você tira a mão para não perder a mão. Mas nós vamos continuar enfiando a mão lá, e bota mais uma reforma.

Guedes voltou a falar em "acordo" para a Câmara na pautar privatizações. O próprio governo, porém, só enviou uma privatização ao Congresso até agora, a da Eletrobras.

O ministro também sinalizou que a reforma tributária só avançará caso ocorra uma troca de comando do grupo político hoje à frente da Câmara dos Deputados, liderado pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Guedes afirmou que a proposta defendida pelos deputados, que unifica cinco impostos, não é compatível com a defendida pela equipe econômica, que inclui a desoneração da folha de pagamentos, compensada pela criação de um imposto sobre transações financeiras.

— Se não é possível caminhar assim, eu prefiro esperar. Essa (reforma da Câmara) não é a nossa reforma tributária, a gente espera mais um pouco — disse o ministro.