Guedes diz que Fies deu acesso à universidade até para 'filho de porteiro que zerou o vestibular'

Redação Notícias
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Brazil's Minister of Economy, Paulo Guedes, speaks during a press conference at the Embassy of Brazil in Washington, DC on November 25, 2019. (Photo by Olivier DOULIERY / AFP) (Photo by OLIVIER DOULIERY/AFP via Getty Images)
Ministro da Economia afirmou que o Fies colocou 'todo mundo” na universidade. (Foto: OLIVIER DOULIERY/AFP via Getty Images)

O ministro da Economia, Paulo Guedes, reclamou que o governo federal concedeu bolsas de estudos em universidades via Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) para "todo mundo". Em um exemplo dado sem detalhes ou provas, Guedes relata que o filho foi beneficiado mesmo após supostamente ter zerado no vestibular, ainda que o Fies tenha exigências de notas mínimas para aprovação do financiamento.

"O porteiro do meu prédio, uma vez, virou para mim e falou assim: 'Seu Paulo, eu estou muito preocupado'. O que houve? 'Meu filho passou na universidade privada'. Ué, mas está triste por quê? 'Ele tirou zero na prova. Tirou zero em todas as provas e eu recebi um negócio dizendo: parabéns, seu filho tirou...' Aí tinha um espaço para preencher, colocava 'zero'. Seu filho tirou zero. E acaba de se endereçar a nossa escola, estamos muito felizes”, disse Guedes.

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Após relatar o suposto caso, Guedes disse que “botaram todo mundo” na universidade.

“Deram bolsa para quem não tinha a menor capacidade. Não sabia ler, escrever. Botaram todo mundo. Exageraram. Foi de um extremo ao outro”, afirmou o ministro.

As críticas de Guedes ao Fies foram feitas no momento em que o ministro defendia que a eficiência da iniciativa privada é maior do que a do poder público.

Para ilustrar a crise na educação, Guedes disse que as universidades estão em estado “caótico”. “Paulo Freire. Ensinando sexo para criança de 5 anos. Todo mundo... maconha, bebida, droga. Dentro da universidade. Estado caótico. Eu prevejo o mesmo fenômeno para a saúde”, disse o ministro.

Críticas foram feitas na mesma reunião 'polêmica' de Guedes

As falas do ministro foram feitas durante a reunião do Consu (Conselho de Saúde Suplementar), na terça-feira (27). Na mesma ocasião, Guedes afirmou também que o novo coronavírus foi inventado pela China e que a vacina desenvolvida pelos chineses é menos efetiva que a criada pelos norte-americanos.

Ao saber que o vídeo estava sendo gravado, Guedes disse: "Só não manda para o ar, por favor". A transmissão do evento fora feita pelas redes sociais do Ministério da Saúde, mas após o término da reunião o vídeo não estava mais disponível.

Após saber que o vídeo estava sendo gravado, Guedes disse: "Só não manda para o ar, por favor." A transmissão do evento fora feita pelas redes sociais do Ministério da Saúde, mas após o término da reunião o vídeo não estava mais disponível.

Mais tarde, Paulo Guedes disse ter usado 'imagem infeliz'

Na noite do mesmo dia, o ministro reconheceu ter usado uma "imagem infeliz" ao procurar desfazer "mal entendido" sobre suas declarações.

Segundo ele, ao ter dito que o vírus foi inventado na China, quis ressaltar a região de onde acredita-se que surgiu o coronavírus, e que pretendia com isso enfatizar a resposta da iniciativa privada dos Estados Unidos ao ter produzido uma vacina eficiente contra Covid-19.

"Quis dar a importância ao setor privado de como consegue produzir respostas. Então mesmo um vírus desconhecido que veio de fora, eles conseguiram fazer uma vacina que parece mais eficaz ainda do que a da própria região que saiu o vírus. Foi só essa imagem que eu quis usar", disse.

"Nós somos muito gratos à China por ter nos enviado vacina. Eu tomei a CoronaVac, tomei a primeira dose 30 dias atrás e a segunda dose neste domingo, então eu não vou falar mal da vacina", completou.

Embaixador da China respondeu ao ministro, mas sem citá-lo

O embaixador da China do Brasil, Yang Wanming, respondeu às críticas, mas sem citar o ministro da Economia. Wanming lembrou que os chineses são os principais fornecedores de vacinas contra a covid-19 no Brasil.

“Até o momento, a China é o principal fornecedor das vacinas e os insumos ao Brasil, que respondem por 95% do total recebido pelo Brasil e são suficientes para cobrir 60% dos grupos prioritários na fase emergencial”, apontou.

Wanming ainda citou a CoronaVac, produzida pelo Butantan em parceria com o laboratório chinês SinoVac. “A Coronavac representa 84% das vacinas aplicadas no Brasil.”

O que é o Fies?

O Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior, mais conhecido como Fies, é um programa criado em 1999 pelo Ministério da Educação (MEC) para beneficiar os estudantes do ensino superior que não possuam condições financeiras para arcar com a mensalidade de seu curso.

Para se candidatar ao Fies é necessário cumprir os seguintes requisitos:

  • Ter renda familiar bruta mensal de no máximo três salários mínimos por pessoa;

  • Ter participado do Enem a partir de 2010, com média de pelo menos 450 pontos nas provas e nota maior do que zero na redação;

Desde 29 de julho de 2011, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passou a ter total ligação com o Fies. E a partir de 2015, passou a vigorar uma regra de pontuação mínima no exame. Os estudantes que desejam solicitar o Fies devem ter realizado o Enem 2010 ou ano posterior, com pelo menos 450 pontos na média das provas e nota maior do que zero na redação.

O Fies somente garante financiamento para as instituições que demonstrarem interesse e tiverem avaliação positiva no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES).

A partir de 2015, o MEC anunciou que vai priorizar os cursos com avaliação máxima no SINAES e graduações nas áreas da Saúde, Engenharia e Formação de Professores. Microrregiões mais carentes, com alta demanda por financiamentos para o ensino superior, também terão prioridade.