A guerra entre Bolsonaro e PSL tem todos os ingredientes de uma novela das 8


Reginaldo Faria em cena da novela "Vale Tudo"


No fim da primeira temporada, o “mau militar”, nas palavras de Ernesto Geisel, ressurge dos porões do baixo clero 30 anos após deixar o Exército pela porta dos fundos por aprontar altas aventuras e confusões e dedica seu voto a favor do impeachment ao torturador que atacara a presidente prestes a ser deposta.

Tensão no ar.

Olhos constrangedores se observam e tentam assimilar o ruído daquela que foi nomeada uma festa em homenagem à solidez democrática.

Corta a cena. “To be continued”, diz a legenda.

A trilha sonora é “Psycho Killer”, do Talking Heads.




Na segunda temporada, o “mau militar” vê todos os aliados que detonaram o governo anterior serem derrubados, ou detidos, e encontra um portão aberto e uma faixa presidencial a poucos metros de distância.

Aluga uma casa, de propriedade de um ex-dirigente esportivo soturno, e entra na disputa pela Presidência como azarão.

O barco de apoiadores tem um pouco de tudo. De herdeiro da família real a ator pornô, passando por militares da reserva, um cantor gospel, um astrólogo alterado, marombados de todo tipo e uma jornalista conhecida por plagiar os colegas.

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Todos buscavam na política e nos grupos de WhatsApp das melhores e mais ressentidas famílias o reconhecimento que não tiveram em suas respectivas áreas.

Queriam vingança.

Como um bom roteiro de ficção, tudo levava a um retumbante fracasso de quem fatalmente se espatifaria no teto da rejeição apontado pelas pesquisas.

Até que o “mau militar” é vitimado em um atentado à faca e seus apoiadores bebem até a última gota de sangue do episódio para transformar a paranoia em inimigo real.

O povo, tão assustado quanto desencantado, abraça o projeto.

O “mau militar” promete armar a população e varrer os opositores para fora do país.

Corta a cena.

A música agora é “SOS”, de Raul Seixas.

Fim da segunda temporada.

O “mau militar” vira presidente.

Ganha como aliado o juiz responsável por prender o vilão da história e quatro cavaleiros do apocalipse que surgem na trama dispostos a combater quatro inimigos: o globalismo anticristão, a ideologia de gênero, as zebras gordas das universidades e as árvores.

Foi aí que os roteiristas da série perceberam que a história valeria uma novela, não uma série. E se perderam.

Para prender a atenção do público, entraram em cena núcleos paralelos de personagens.

Um para cada filho, que brigam entre si pela coroa.

E outro para cada apoiador disposto a transformar a traição em vingança.

O dono da casa pede o imóvel de volta.

Avisa que naquele partido quem manda é ele.

Ele é “queimado pra caramba” em praça pública, mas ressurge dos mortos e começa a assombrar os ocupantes da residência.

O grupo racha ao meio.

A jornalista que plagiava os colegas ameaça contar o que o presidente e os filhos fizeram no verão passado.

O presidente e os filhos percebem que o inimigo agora é outro e veste Prada, e não vermelho.

O pai tenta proteger um dos filhos enviando-o a uma missão aos EUA, onde pode vir ajuda em caso de novos ataques.

Mas, antes de chegar lá, ele é informado que a casa dos amigos americanos também está caindo.

Como prêmio de consolação, o filho é agraciado com o melhor quarto da casa do ex-aliado “queimado pra caramba”.

Para isso, precisa tirar de cena um delegado amigo, que não aceita a troca e chama o “mau militar”, agora presidente, de “vagabundo”.

O delegado promete mostrar uma gravação e implodir tudo.

A guerra é declarada e começam a voar pancada por todos os lados.

Sobram comentários homofóbicos e gordofóbicos no país que intimidou professores e aprendeu a chamar a educação de “politicamente correto”.

No auge da briga, a jornalista e os herdeiros começam a trocar insultos em código emoji.

Ela vai à TV e acusa os herdeiros de administrarem uma rede de milicianos digitais.

Alguém percebe que tem algo de podre no reino.

Uma mancha de óleo passa a escorrer da costa marítima. O país está manchado, e isso não é metáfora.

O “mau militar” embarca para outro país e, de lá, diz que o problema do vazamento misterioso não é dele.

Com o apoio do pai, o herdeiro consegue reunir o mínimo de votos e pega para ele um naco da casa cedida pelo ex-aliado “queimado pra caramba”.

O ex-aliado se veste de Scarlett O'hara e, de joelhos, promete que nunca mais vai viver à míngua como nos tempos de fundo partidário nanico.

Reviravolta.

O delegado reconhece a derrota e ensaia erguer uma bandeira branca.

O fantasma “queimado pra caramba” recorre à Justiça.

Perde.

Ele recorre às instâncias superiores e seus apoiadores, ao estilo MaCaulay Culkin, prometem espalhar armadilhas pela casa.

Os próximos episódios prometem.

A novela prossegue.

Tem mais quatro anos de exibição.

A não ser que o público se canse e o dono da TV resolva encurtar a história e brincar com outros personagens.