'A guerra chegou', dizem médicos, enfermeiros e técnicos em campo no Pacaembu

ARTUR RODRIGUES, LALO DE ALMEIDA E MARIANA GOULART
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP. 07/05/2020. Profissionais de saúde reunidos no posto de enfermagem de uma das alas do hospital de campanha do Pacaembu em São Paulo. O hospital foi construído as pressas dentro do estadio do Pacaembu para receber pacientes com Covid-19. ( Foto: Lalo de Almeida/ Folhapress ) C

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Como que a gente não vai entrar no campo de batalha?", pergunta a enfermeira Jullianne Scalia, 37, enquanto retira os equipamentos de segurança. "Parece que nós profissionais da saúde somos uns soldados que foram treinados o tempo todo para a guerra. E a guerra chegou."

Moradora da cidade goiana de Catalão, Jullianne veio a São Paulo com o objetivo de trabalhar no hospital de campanha montado pela Prefeitura de São Paulo no Pacaembu para combater o coronavírus. Deixou os dois filhos, de 5 e 10 anos, em sua cidade natal. Ficou mais de 20 dias sem vê-los.

Neste domingo (10), Dia das Mães, tinha marcado de reencontrá-los. Depois, voltaria para o front. O dia da enfermeira, celebrado nesta terça (12), ela deveria passar no hospital.

O hospital municipal de campanha do Pacaembu atraiu vários profissionais com o mesmo perfil de Jullianne. São pessoas acostumadas a atuar em zonas de conflito e que estão dispostas a ficar afastadas de familiares para atuar numa situação de emergência.

A reportagem acompanhou a rotina desses profissionais por um dia.

Jullianne, por exemplo, já esteve em um campo de refugiados no Líbano por duas semanas. Acabou decepcionada. "Lá eu não consegui fazer muita coisa, porque eles não deixavam as mulheres atuarem. Para mim, foi inútil. Aqui, estou fazendo a minha parte", diz.

O período de trabalho previsto para ela no hospital de campanha é de três meses.

A enfermeira Gladys Borges, 38, também têm mantido os dois filhos afastados para preservá-los. Enquanto ela trabalha na unidade do Pacaembu, as crianças estão em Minas, na casa de parentes.

"É a parte mais difícil para mim. Vou passar o Dia das Mães sem eles, mas faz parte. Eu tenho a sensação que estou perdendo alguns momentos com eles, porque cada dia que eu falo com eles parece que eles estão diferentes", diz. "Mas eles me apoiam, me entendem, eu já fiz alguns trabalhos voluntários de ficar longe, fui pro Amazonas. Então eles entendem que a mãe deles é assim mesmo."

O farmacêutico Fabio Ferracini, 52, é outro que tem experiência relacionadas a zonas de conflito. Ele atuou no Haiti, em 2010, quando as Forças Armadas brasileiras estavam em missão de paz naquele país.

No Pacaembu, ele administra a área de farmácia. "A diferença que eu acho do Haiti para cá é que lá a gente via o inimigo. Aqui a gente não vê."

O farmacêutico diz que, em seu setor, há várias pessoas de outros estados que viajaram só para atuar na unidade. "Teve dois profissionais que largaram seus trabalhos para vir para cá. Achei uma coisa bonita, porque vieram para um emprego temporário."

Ferracini não vê a mulher, que mora no interior, há 49 dias. Está em um hotel em São Paulo, oferecido pelo Hospital Israelita Albert Einstein, que administra o hospital de campanha.

Parte dos profissionais na unidade já atuava no Albert Einstein, como Ferracini, mas outros vieram de outros estados e fizeram processos seletivos.

Apesar de haver grande rigor na paramentação e no uso de equipamentos médicos, muitos se afastam de familiares morando na mesma cidade, seja ficando em hotéis ou deixando de visitar os parentes. Tudo por receio de contaminar alguém que amam.

"Moro sozinha, mas eu tinha contato com a minha família. Tenho uma sobrinha de quatro anos que é minha paixão, que eu via todos os fins de semana, então estou distante porque fico com muito medo por eles", diz enfermeira Michele Jaures, 36, responsável pela área de assistência.

Em um hospital em que parte da equipe e os pacientes não veem os parentes, acaba havendo uma conexão maior. Michele pretende fazer um mural com cartas e lembrancinhas deixadas pelos pacientes.

A enfermeira Elisângela Delgado, 45, atua sempre na sala de estabilização, considerada a ala mais grave. Lá, é onde podem ocorrer casos de intubação, quando há maior risco para a contaminação dos funcionários. Nessas ocasiões, os pacientes expelem um aerossol que atinge roupas e equipamentos.

Mãe de dois filhos adultos e casada, ela conta que a família ficou receosa após a chegada dela no hospital. " Porque eu vim para o meio da onde todo mundo chama, o perigo, mas a paramentação aqui é 100% eficaz, estão sempre observando a paramentação e principalmente a desparamentação, que é onde a gente pode adquirir esse vírus", diz. "Mas eu amo o que faço, estou aqui para agregar."