Guerra despertou Europa para gasto com defesa, diz presidente da Saab

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Guerra da Ucrânia foi uma "chamada de despertar" para a necessidade de a Europa se preocupar com seu gasto com defesa, que irá crescer "dramaticamente" devido à ameaça colocada pela Rússia de Vladimir Putin.

A avaliação é de Micael Johansson, 61, o presidente da Saab, principal fabricante de armas da Suécia. Para ele, o pedido de admissão de seu país na Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, representa uma oportunidade de expansão, embora haja o risco inerente da exposição a mais competição.

"Acho que o conflito foi uma chamada de despertar para vários países, incluindo o meu. Infelizmente, a guerra deixou isso bem claro, ao vermos o que exatamente os ucranianos precisam para se defender", disse.

Em conversa por vídeo com a Folha de S.Paulo desde Brasília, ele afirma que "o mercado de defesa na Europa vai crescer enormemente, e estamos posicionados". Desde que os mísseis russos começaram a cair sobre o vizinho, em 24 de fevereiro, toda a postura continental mudou.

O caso alemão é eloquente: o país, refratário a questões de defesa desde o fim da Guerra Fria em 1991, triplicou seu orçamento de defesa com a criação de um fundo de EUR 100 bilhões (R$ 544 bilhões hoje) a serem gastos neste ano. Outros países, como Polônia, já anunciaram compras militares.

Mais próximo de Johansson, há o caso nórdico: a Suécia abandonou mais de 200 anos de neutralidade para pedir para entrar na Otan, assim como a vizinha Finlândia, que mantinha sete décadas de não alinhamento militar para evitar melindrar Moscou.

"Eu não esperava ver isso na minha vida", afirmou o executivo. "A decisão sueca é política, não me cabe comentar, mas assumo que a adesão irá acontecer. Tenho dificuldade em ver algo negativo nisso, como indústria, se formos competitivos", afirma.

"Mesmo que todos nossos sistemas sejam compatíveis com a Otan, a aliança não costuma comprar de países que não são membros", diz. "Em algumas áreas, como comando e controle e guerra eletrônica, se você está fora da aliança, eles pode não confiar muito."

Johansson admite, contudo, que as oportunidades vêm acompanhadas de riscos, como é claro no caso dos caças, seu mais famoso produto de exportação. O seu modelo Gripen, por exemplo, perdeu duas concorrências importantes neste ano: na Finlândia (64 unidades) e no membro da Otan Canadá (88 aviões).

O vencedor foi o americano F-35, que vem se firmando como modelo padrão da aliança -a Alemanha já anunciou que irá comprar o avião com capacidades furtivas ao radar.

"Essas aquisições, independentemente de quão fantástico é seu produto, são políticas no fim. É sobre política de segurança. Temos de ter isso em conta quando vamos numa campanha de vendas, temos de saber que somos expostos a isso", afirma, ressaltando "respeitar a decisão da Finlândia nos termos que são mais importantes para eles".

Com efeito, como no caso da venda do Gripen ao Brasil que motivou a visita de Johansson ao Brasil nesta semana, a quantidade de intercâmbio tecnológico colocado nesses negócios amarra governos por várias décadas.

A Saab produz uma grande linha de defesa, com submarinos, peças de artilharia e sistemas eletrônicos, além dos caças. Na Ucrânia, seus lançadores portáteis de mísseis antitanque NLAW foram, ao lado dos Javelin americanos, a linha de frente da resistência de Kiev à atabalhoada invasão inicial dos russos.

Apesar de seu foco no mercado europeu como um todo, embora ele seja cauteloso em falar em corrida armamentista, o presidente da Saab enfatiza o peso das necessidade suecas. "A Otan não vai tomar conta da defesa nacional, os políticos têm de entender isso", disse, defendendo os 84 anos de legado da Saab.

É um pequeno paradoxo. A indústria militar sueca é forte porque foi organizada para a defesa de sua neutralidade, e no pós-Guerra Fria ganhou tração com exportadora -entre 65% e 85% da receita da Saab vem de vendas externas. A empresa figura no pelotão inferior das top 30 do mundo.

Agora, acredita Johansson, os novos compromissos deverão aumentar necessidade de exercitar a musculatura bélica do país. "Espero que tenhamos mais responsabilidades sobre a região do mar Báltico, sobre a defesa dos países nórdicos", afirmou.

Hoje a Suécia tem 96 Gripen modelo C/D na linha de frente, que serão paulatinamente substituídos pela nova geração E/F, a mesma comprada pelo Brasil em 2014. "Nos próximos meses saberemos o quão rápido chegaremos aos 2% [de gasto do Produto Interno Bruto com defesa, a marca desejada na Otan]", afirmou. Hoje a Suécia gasta 1,3% do PIB no setor.

Mesmo que a oposição turca barre a pretensão sueco-finlandesa de aderir à Otan, a Saab acredita no aquecimento das necessidades europeias.

Desde o início da guerra, seu valor de mercado em Bolsa quase dobrou: suas ações eram negociadas na vérspera do conflito na casa das 210 coroas suecas e hoje estão na das 400 coroas. Seu lucro operacional no primeiro quadrimestre ficou acima do esperado, em US$ 69 milhões (R$ 355 milhões)

A guerra é boa para os negócios, então? Ante a questão assumidamente retórica, Johansson responde o possível. "Eu só vejo conflitos como um completo erro, uma tragédia e um desastre humanitário. Não é por isso que fazemos o que fazemos. Fazemos porque queremos proteger a sociedade, as pessoas", afirma.

Ele conta que, antes das hostilidades, havia um maior questionamento acerca do papel da indústria de defesa, já que fazer armas letais não encaixa muito bem no conceito da moda do ESG (Ambiente, Sustentabilidade e Governança, na sigla inglesa).

"Tínhamos políticos em Bruxelas [sede da União Europeia] dizendo que precisávamos de uma capacidade de defesa e elogiando nossas empresas, mas por outro lado eles falavam que talvez fizéssemos coisas perigosas, socialmente danosas. Isso é absolutamente inacreditável, não há lógica", afirmou. "Mas isso foi antes da guerra. Agora, todas essas discussões despareceram."

Eleição pode afetar cronograma de novos Gripen no Brasil Micael Johansson está em uma de suas passagens regulares pelo Brasil para discutir o andamento do programa do Gripen. A Força Aérea acaba de anunciar que a encomenda inicial de 36 aviões, parte fabricada em conjunto com a Embraer localmente, terá mais 4 unidades.

O executivo não falou em detalhes sobre isso ou sobre a pretensão da FAB em aquirir o segundo lote de caças, com 26 unidades, também já anunciado. "Também há eleições chegando que, claro, podem afetar o cronograma, Mas o diálogo é construtivo", afirmou.

A compra do Gripen foi finalizada no governo de Dilma Rousseff (PT), então parece improvável que uma eventual vitória de Luiz Inácio Lula da Silva vá mudar o cenário para os suecos. O mesmo não pode ser dito da Colômbia, onde o caça disputa com o F-16 americano a primazia da troca da frota de antigos modelos Kfir operados pelo país.

Lá, o processo está avançado, mas o presidente eleito no domingo (19), o esquerdista Gustavo Petro, disse durante a campanha que não iria gastar dinheiro com o armamento. Johansson é, claro, diplomático. "Nós temos bom apoio da Força Aérea, estamos esperando o que a nova administração irá fazer. Tudo o que sabemos é que eles precisam trocar seus aviões", afirmou.

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