Guerra entre milícias esfria na Zona Oeste e na Baixada, que registram queda nos homicídios

Madrugada de 1º de março, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. Dois homens ligados à milícia comandada por Danilo Dias Lima, o Tandera, tentam entrar na área dominada pelo paramilitar Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho. A dupla, porém, é interceptada na Avenida Cesário de Melo, uma das principais vias do bairro, e o carro dos invasores acaba incendiado. Segundo a polícia, o encontro dos dois corpos carbonizados, em meio a marcas de tiro no veículo e dezenas de cápsulas de fuzil ao chão, marca o último episódio da guerra entre as quadrilhas rivais, que, nos meses anteriores, vinham disputando à bala territórios e a exploração de negócios irregulares da milícia, que movimentam até R$ 10 milhões por mês.

Em paralelo ao arrefecimento no conflito, o perfil das estatísticas de violência nos locais em disputa passou por mudanças expressivas. No segundo semestre do ano passado — a querela começou em junho, com a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko — , a região aparecia na contramão do Rio, com os homicídios disparando, enquanto caíam no estado como um todo. Entre março e maio, contudo, o panorama se transformou, com os bairros antes conflagrados apresentando redução nas mortes quase 13 vezes maior do que a do estado de modo geral.

A análise feita pelo GLOBO considerou os números de seis das 137 delegacias fluminenses, que abrangem o território diretamente sob o domínio de Ecko até a morte do miliciano em uma operação da Polícia Civil: 35ª DP (Campo Grande) e 36ª DP (Santa Cruz), ambas na Zona Oeste da capital, e 48ª DP (Seropédica), 50ª DP (Itaguaí), 52ª DP (Nova Iguaçu) e 56ª DP (Comendador Soares), todas na Baixada Fluminense. Foi na área da 36ª DP, por exemplo, que o embate derradeiro entre as tropas de Tandera e Zinho fez as duas últimas vítimas conhecidas.

Não houve trégua

Entre março e maio, dado mais recente disponibilizado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), as seis delegacias somaram 60 casos de homicídios dolosos. No três meses anteriores — na comparação entre os chamados “trimestres móveis”, portanto — , haviam sido 79 assassinatos, o que configura uma redução de 24%. No mesmo período, a queda no índice no estado foi de 1,9%, passando de 751 para 737 ocorrências. Não fossem as 19 mortes a menos nas áreas antes em guerra, o número de todo o Rio teria, inclusive, apresentado ligeira alta.

Fenômeno similar se deu em relação aos casos de desaparecimento — compostos, em sua maioria, por egressos das forças de segurança, que conhecem métodos de investigações, os grupos paramilitares sabem como sumir com os corpos das vítimas sem deixar vestígios, de modo a não chamar a atenção das autoridades. A comparação entre os trimestres móveis mostra que o total de pessoas desaparecidas, que também disparou no auge da guerra, agora apresenta queda de 27,3%, diante de uma redução de 17,8% em todo o estado.

Apesar de os confrontos terem cessado até o momento, e do consequente impacto disso nas estatísticas, as investigações da Polícia Civil não apontam para qualquer tipo de acordo selando uma trégua definitiva entre os dois grupos rivais. Para as autoridades, as quadrilhas preferiam “estacionar” em seus próprios territórios em vez de apostar em novas conquistas, numa estratégia que teria o objetivo de evitar mais baixas nas tropas. Além das sucessivas mortes ocasionadas pela guerra, as duas milícias também foram enfraquecidas por prisões importantes, que colocaram atrás das grades figuras de relevância na hierarquia dos bandos.

Uma semana depois do ataque na Cesário de Melo, por exemplo, a Polícia Civil prendeu em Cabuçu, bairro de Nova Iguaçu, o miliciano Leonardo Monteiro Bastos, conhecido como Malucão e apontado como braço direito de Tandera. No fim de março, no mesmo bairro, o capturado da vez foi Emanoel da Silva Lima, o Grande. Segundo a polícia, ele coordenava uma espécie de grupo de ações táticas da quadrilha, encarregado de repelir investidas adversárias e também operações policiais.

Zinho também sofreu baques significativos no período. Rodrigo dos Santos, o Latrell — que traz um fuzil tatuado no peito —, foi preso no dia 17 de março, em São Paulo. Investigadores afirmam que ele era o segundo homem mais importante do grupo, abaixo apenas do próprio chefe. Menos de dois meses depois, Luis Fillipe Santos Maia, substituto de Latrell na função, teve o mesmo destino do antecessor ao ser localizado em uma casa de festas em Campo Grande.

As duas quadrilhas também foram enfraquecidas por ataques rivais, incluindo execuções pirotécnicas. Em 19 de fevereiro, Vladimir Melgaço Montenegro, o Bibi, tido como um dos principais braços armados de Zinho, foi morto com uma jovem na saída de um baile funk em Santa Cruz. O carro do casal foi atingido por cerca de cem tiros.

Dois dias depois, a emboscada veio na mão inversa. Edivaldo Barbosa da Costa Neto, que teria sido escolhido por Tandera para controlar a exploração de vans em Campo Grande, foi foi alvejado mais de 50 vezes ao sair de sua BMW blindada.

Mesmo com todo o derramamento de sangue, a geopolítica do crime organizado pouco mudou desde o início da guerra. Tal qual quando os dois começaram a duelar, Tandera comanda, hoje, a milícia na maior parte de Nova Iguaçu e em Seropédica. Já o paramilitar Zinho domina a exploração dos negócios ilegais na Zona Oeste, principalmente em Campo Grande e Santa Cruz, e em Itaguaí. Uma estagnação que também passa ainda por um outro ator: a maior facção do tráfico do estado vem fazendo investidas em territórios estratégicos para os milicianos, o que também ajuda a explicar a necessidade de proteção em detrimento do ataque.

— Ao que parece, as duas quadrilhas estão se mantendo imóveis para evitar novas baixas. Além disso, há o fortalecimento de uma facção que já recuperou territórios no cinturão que era explorado pela milícia em Jacarepaguá, em parte de Campinho e na comunidade de Santa Maria (Taquara) e no Morro do Dezoito (Quintino) — explica o delegado Thiago Neves, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco).

Antigos aliados

Na última terça-feira, a Draco prendeu o ex-PM Willian Santos Araújo, chefe da milícia em Seropédica. Com ele, a polícia apreendeu uma pistola nove milímetros, três celulares, uma farda camuflada e parte da contabilidade da quadrilha. Só no primeiro semestre deste ano, 93 pessoas ligadas a grupos paramilitares foram capturadas pela especializada, mais do que o dobro das 44 prisões ocorridas no mesmo período em 2021.

No passado, Tandera e Zinho foram aliados, ocupando postos distintos na organização criminosa. O primeiro era homem de confiança de Ecko, com a missão de expandir o território da quadrilha para a Baixada Fluminense. Já Zinho, irmão do então comandante do bando, ficava encarregado da contabilidade e da lavagem do dinheiro oriundo das atividades ilegais.

Em dezembro de 2020, Tandera rompeu com o Ecko, e o bando se dividiu. Seis meses depois, com a morte do chefão, Zinho assumiu o espólio do irmão, mas os dois grupos passaram a realizar ataques mútuos na disputa por território e pelo controle dos negócios. O confronto atingiu o ápice em setembro, quando — por ordem de Tandera — várias vans foram incendiadas na Zona Oeste, e seguiu a todo vapor nos meses seguintes.

Tandera e Zinho estão com as prisões decretadas pela Justiça do Rio. Pela prisão da dupla, o Disque-Denúncia (21 2253-1177) oferece recompensas de R$ 5 mil e R$ 1 mil, respectivamente.

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