Guerra de jingles e acusações marcam campanha eleitoral em cidade do interior do RN

JOÃO PEDRO PITOMBO
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SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - Com cerca de 15 mil habitantes, a cidade de Pendências, no Rio Grande do Norte, era conhecida até este ano era pela tradicional festa do padroeiro São João, pelas águas do rio Piranhas-Açu e por ser uma das maiores produtoras de camarão em cativeiro do país. A campanha deste ano, contudo, colocou o município no mapa das disputas políticas mais comentadas desta eleição após um jingle com ataques ao candidato a prefeito Paulo Barreto (PT) ganhar as redes sociais em todo o país. Em ritmo de axé, o jingle apócrifo tem uma letra com um formato de perguntas e respostas. As perguntas questionam sobre supostos crimes como agressão, estelionato, desvio de recursos públicos e até homicídio. As respostas no jingle invariavelmente acusam o candidato Paulo Barreto e seus familiares. Nos trechos mais leves, o jingle acusa o candidato de supostamente de calote em um financiamento de um banco e de ter dado uma cadeirada em um morador da cidade, o Jessé da Ambulância. Candidato a prefeito de Pendências (RN), Paulo Barreto (PT) é alvo de jingle apócrifo que viralizou nas redes sociais Everson de Andrade / Divulgação Candidato a prefeito de Pendências (RN), Paulo Barreto (PT) é alvo de jingle apócrifo que viralizou nas redes sociais **** Esta é a primeira vez que Paulo Barreto disputa uma eleição. Empresário, ele atua no ramo da construção civil e na produção de camarão. Neste ano, resolveu entrar na disputa como uma espécie de terceira via a dois tradicionais grupos políticos da cidade. Assim como acontece em outras cidades no Rio Grande do Norte, a política é dividida entre os araras e bacuraus -grupos políticos ligados às famílias Maia e Alves que rivalizam no estado desde o bipartidarismo na ditadura militar. Na eleição deste ano, em Pendências, o prefeito e candidato à reeleição Flaudivan Cabral (MDB) representa os bacuraus. Ele era presidente da Câmara e assumiu a prefeitura em 2018 em uma eleição suplementar que aconteceu após a cassação do prefeito Fernandinho, também do MDB. Já Sebastião Moura, o Van da Serraria (PC do B), é o candidato do principal grupo político da oposição e representa os araras. Ele já havia disputado as eleições na cidade em 2004, quando concorreu a vice-prefeito. Em entrevista à Folha, o candidato Paulo Barreto (PT) afirma que o jingle revela o nível de agressividade da campanha de seus adversários. Ele nega todos os crimes citados no jingle, incluindo supostas ameaças a ex-funcionária e supostas agressões que teriam ocorrido em um bar da cidade. "Se tivesse cometido tantos crimes, eu seria o suprassumo da impunidade". Certidão emitida pela Justiça Eleitoral informa que Paulo Barreto não responde a nenhum processo criminal ou cível por improbidade administrativa. Ele ainda diz que sua empresa, de fato, precisou repactuar um financiamento concedido pelo Banco do Nordeste. Mas nega que tenha dado qualquer calote no banco. "Repactuar uma dívida não é crime. Até mesmo grandes empresas fazem isso quando estão em dificuldade." Paulo Barreto conta que estava participando de uma caminhada com eleitores na semana passada quando soube da existência do jingle que o atacava. Em menos de uma semana, o jingle espalhou-se de forma rápida pelas redes sociais e chegou ao conhecimento até fornecedores da sua empresa que ficam no Paraná. "Quando ouvi, me veio um sentimento de surpresa e indignação. O jingle é só uma série de agressões que tentam nos desconstruir do ponto de vista pessoal e da família", afirma o candidato. Ele afirma que pretende acionar a Justiça para descobrir quem são os responsáveis pelos jingles apócrifos. Mas diz não ter dúvida que a iniciativa partiu de políticos adversários que viram na sua candidatura uma ameaça à hegemonia dos grupos políticos locais. Enquanto aguarda as investigações, Paulo decidiu revidar no mesmo formato, mas não na mesma moeda. Orientou a sua campanha a gravar um jingle em formato semelhante, também em ritmo de axé. A letra, contudo, não ataca os adversários: fala da sua própria candidatura em um tom positivo. "Se fosse atacar o grupo que está no poder, não ia caber em um jingle. Ia precisar fazer uma coletânea de discos", diz Barreto. Ao invés de se recolher, reforçou os atos de campanha na última semana e diz estar otimista quanto a uma possível vitória em 15 de novembro: "A população viu nesse ataque algo tão desproporcional que se criou um sentimento de repúdio não a mim, mas aos meus adversários." Apesar de ter viralizado na eleição deste ano, este formato de jingle não é exatamente uma novidade e já foi adotado em outras campanhas de pequenas cidades do Rio Grande do Norte. Na eleição de 2016, um jingle coma mesma melodia foi adotada na cidade de Macau (174 km de Natal). A música acusa um candidato de mandar dar surra de chicote em adversário, de ter empurrado uma professora da rede municipal escada abaixo e de ter comprado cuecas com dinheiro da prefeitura. Na campanha deste ano, há um jingle apócrifo semelhante na cidade de Assú (190 km da capital). Na música, um candidato é chamado de "rato branco gabiru" e é acusado de desviar verbas para combate à enchente e de abandonar a obra de uma UPA, que teria sido "transformada em motel e boca de fumo".