Guerra na Ucrânia: o que se sabe sobre mísseis que atingiram Polônia

Fumaça na região da fronteira entre Polônia e Ucrânia
Fumaça na região da fronteira entre Polônia e Ucrânia atingida por mísseis segundo relatos de agências de notícias

O diretor da aliança militar Otan, Jens Stoltenberg, disse nesta quarta-feira (16/11) que o míssil que matou duas pessoas em um vilarejo polonês próximo à fronteira com a Ucrânia no dia anterior foi "provavelmente" lançado pelo sistema de defesa aérea da Ucrânia.

Após uma reunião da aliança, Stoltenberg declarou que uma análise preliminar mostrou que os destroços filmados no local são parte de um míssil da defesa aérea ucraniana. No entanto, a Otan não culpa a Ucrânia pelo ataque, pois afirma que o país tem o direito de se defender

A organização atribui à Rússia a responsabilidade pelo ataque na Polônia, por causa de sua invasão da Ucrânia.

Os membros da aliança militar têm o compromisso de se defender mutuamente em caso de ataque armado contra qualquer um deles.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou ser "improvável" que o míssil tenha sido disparado da Rússia. Ele diz que há "informações preliminares que contestam" que o míssil partiu dos russos.

"Eu não quero dizer isso até investigarmos completamente, mas é improvável pela trajetória que ele tenha sido disparado da Rússia, mas veremos."

Biden disse que o fato está sendo investigado na Polônia e que os líderes mundiais determinarão os próximos passos depois que for determinado o que aconteceu.

Andrzej Duda, o presidente polonês, também disse que não há sinal de que o míssil faz parte de um ataque intencional. O embaixador russo chegou a ser convocado pelo governo polonês para prestar informações detalhadas sobre o incidente.

Moscou havia declarado na terça que os relatos sobre os mísseis são uma "provocação deliberada" e que não realizou ataques na fronteira entre Ucrânia e Polônia.

A Ucrânia pediu "acesso imediato" ao local atingido, mas Duda disse que, para isso, será necessária aprovação conjunta da Polônia e dos EUA — os dois países estão conduzindo as investigações sobre o ocorrido.

Nas primeiras horas após o incidente, o governo ucraniano disse que relatos de que o disparo havia partido de suas forças eram "teoria da conspiração" e parte da "propaganda russa".

Líderes mundiais estão reunidos em Bali, na Indonésia, para um encontro de cúpula do G20. Nesta quarta-feira, eles realizaram uma reunião de emergência para discutir o ataque na Polônia.

As vítimas

Segundo a mídia local e agências de notícias, as vítimas das explosões causadas pelo míssil são um homem de 62 anos e outro de 60 que trabalhavam com secagem de grãos no vilarejo de Przewodów. O governo polonês ainda não confirmou oficialmente as identidades deles.

A BBC conversou com Jevhen Kozak, que vive a poucos metros da fazenda atingida, nas proximidades da fronteira com a Ucrânia. Ele afirmou que um dos homens que morreram trabalhava em uma loja que era "o centro da comunidade" local.

A região foi isolada pelos militares com barreiras e está sendo examinada para as investigações. No entanto, a escola primária local funcionou normalmente no dia seguinte ao incidente.

Munição usada tanta pela Rússia quanto Ucrânia

Na terça, circularam imagens nas redes sociais que mostram fragmentos de mísseis no local do ataque na Polônia.

A BBC não conseguiu verificar a autenticidade dessas fotos, mas foram ouvidos três especialistas em defesa sobre o equipamento encontrado.

Mark Cancian, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), acredita que trata-se de um sistema S-300. Esse tipo de míssil é tipicamente usado em ataques terra-ar e já foi utilizado tanto pela Rússia, quanto pela Ucrânia.

"Ainda não está claro quem disparou os mísseis", diz J. Andrés Gannon, especialista em segurança no think tank Council on Foreign Relations dos Estados Unidos.

"Nós sabemos que a Rússia vem usando o S-300 para ataques de solo, embora seja um sistema de defesa aéreo, mas a Ucrânia também faz uso do sistema para defesa aérea contra mísseis de cruzeiro."

Justin Bronk, do think tank Rusi, concorda que talvez seja um sistema S-300, mas avalia que ainda não há evidência suficiente para total identificação.

Bombardeios em Kiev e outras cidades

Também na terça-feira, a Rússia lançou uma série de mísseis contra cidades importantes ucranianas, dias depois de tropas russas terem sido expulsas de Kherson, na região sul ucraniana.

A guerra na Ucrânia se arrasta desde fevereiro, quando a Rússia invadiu o país. Uma contra-ofensiva ucraniana iniciada em setembro, segundo as autoridades de Kiev, já retomou mais de 3 mil quilômetros quadrados do território ocupado inicialmente pelos russos.

Bombeiros trabalham para apagar um incêndio em um prédio residencial atingido por um ataque de míssil russo, em meio ao ataque da Rússia à Ucrânia
Bombeiros trabalham para apagar incêndio em prédio residencial em Kiev, na Ucrânia

A capital Kiev está entre as cidades atingidas. O prefeito Vitaliy Klitschko afirmou que prédios residenciais próximos ao centro da cidade foram danificados.

Ataques também foram registrados em Mykolaiv, Chernihiv, Lviv e outros locais.

Os ataques aconteceram ao mesmo tempo em que líderes mundiais estavam reunidos na cúpula do G20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, em Bali.

Na reunião, o governo de Vladimir Putin enfrentou duras críticas por causa da guerra na Ucrânia.

Cortes de energia

Klitschko afirmou que pelo menos uma pessoa morreu nos últimos ataques em Kiev. Vários mísseis russos foram derrubados, disse ainda o prefeito da capital ucraniana.

Ele alertou que pelo menos metade dos moradores da cidade estavam sem eletricidade devido a interrupções de emergência — um "passo necessário para equilibrar o sistema de energia", disse o prefeito.

Alertas de ataque aéreo soaram em toda a Ucrânia nesta terça-feira.

Em vídeo compartilhado pelo gabinete do presidente ucraniano, o que parece ser um bloco de apartamentos pode ser visto em chamas, com fogo saindo pelas janelas.

Uma moradora de 22 anos, Oleksandra, disse à agência de notícias Reuters que viu de sua janela "quando o foguete estava voando, um fogo brilhante e o som de algo voando muito próximo".

Vitaly Kimm, prefeito de Mykolayiv, no sul, disse que mísseis russos foram lançados em três ondas.

Em Chernihiv, no norte, o governador Vyacheslav Chaus pediu que a população se abrigasse, acrescentando que "o ataque com mísseis continua".

Já na cidade ocidental de Lviv, o prefeito Andriy Sadovy afirmou que também houve ataques, com cortes de energia como resultado.

Retirada de Kherson

Na semana passada, Moscou retirou suas tropas da cidade de Kherson, no sul — um grande revés para o exército russo.

Em outros momentos da guerra em que a Rússia sofreu derrotas, o país também recorreu a ataques aéreos como uma forma retaliação.

Andriy Yermak, um conselheiro do presidente da Ucrânia, disse que os ataques desta terça-feira teriam sido uma resposta da Rússia ao "poderoso discurso" de Zelensky na cúpula do G20.

Zelensky durante encontro com líderes militares em Kherson
Zelensky durante encontro com líderes militares em Kherson

No discurso virtual, Zelensky abordou o que chamou de líderes do "G19" — desprezando Putin — e disse estar "convencido de que agora é o momento em que a guerra destrutiva da Rússia deve e pode ser interrompida".

Um esboço de declaração da cúpula, relatado por agências de notícias, afirma que "a maioria" dos países concordou que a guerra estava exacerbando as fragilidades da economia global.

Já Sergei Lavrov, ministro das relações exteriores da Rússia, afirmou que a declaração do G20 foi "politizada" pelos aliados ocidentais da Ucrânia.

- Este texto foi publicado emhttps://www.bbc.com/portuguese/internacional-63644325