'Gugu estava vivendo do jeito que gostaria, como uma pessoa normal', diz diretor e 'irmão postiço'

Carolina Barbosa
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Os amigos e parceiros em set

Foram quase quatro décadas de parceria com Gugu Liberato. O produtor e diretor Walter Wanderley, conhecido como "Goiabinha", conheceu-o no início da década de 1980. De lá para cá, os dois "irmãos postiços, como o apresentador gostava de frisar, viveram inúmeros momentos inesquecíveis, tanto na vida pessoal quanto na profissão. A seguir, Wanderley conta como era sua relação com Gugu, que morreu na última sexta-feira (22), relembra parcerias no trabalho e entrega detalhes de sua vida no exterior. "Ele estava vivendo do jeito que gostaria, como uma pessoa normal, fazendo as coisas dele, andando de patinete, bicicleta, indo à padaria, ao supermercado...".

 

Como começou sua relação de parceria com o Gugu Liberato?

Nós éramos bem jovens, a época em que a televisão era feita por profissionais. Ele fazia o "Sessão premiada" e eu trabalhava no TVS (antigo SBT). E dali que começou nossa amizade. Era por volta de 1981. Na aquela época, eu fazia o "Moacyr Franco show". De lá para cá, ficamos sempre juntos, unidos, nos comunicando. Desde o acidente do Mamonas Assassinas, em 1996, eu fiquei com ele. Quando houve o ocorrido, eu me coloquei à disposição para ajudá-los. Trabalhava com ele até hoje no "Canta comigo", na RecordTV. Lá, eu o ajudava no palco, eu o guiava no estúdio, porque o cenário era enorme.

 

Como foi a negociação dele com a Record?

O Silvio (Santos) não me deixou sair do SBT. Mas ele (Gugu) se aventurou, buscava renovação, queria um instrumento maior de comunicação e foi. A situação era muito boa para ele deixar de ir. Talvez, se ele não aceitasse naquele momento, ele não recebesse uma proposta tão boa depois.

 

E como você voltou a trabalhar com o Gugu?

O próprio Gugu me chamou para voltar a trabalhar com ele. Fui a convite dele. Nos últimos dois anos, eu estava com ele no "Canta comigo".

Como era a relação de vocês?

Ele me chamava de irmão postiço. Até o próprio irmão dele, Amandio, a quem prezo muito, reconhecia isso. Ele sabe da amizade e da irmandade que tínhamos. Não sou o melhor amigo dele, esta patente não é minha, sou o irmão postiço dele.

 

Por quanto tempo trabalharam juntos?

Eu dirigia alguns quadros no "Domingo legal", dirigia as externas, como o Rodolfo e ET. Daí surgiu meu apelido de Goiabinha. Trabalhamos juntos de 1996 até 2009 e de 2015 a 2019.

 

 

A propósito, como era trabalhar com o Gugu?

A primeira vez em que ele entrou no Cristo Redentor, eu estava com ele. Subimos até o braço direito do Cristo. Tudo na vida dele foi sempre marcante. Algo que marcou muito foi ele ir ao restaurante de 1 real de mendigos no "Sentindo na pele". Foi muito emocionante. Ninguém sabia que era o Gugu que estava ali, todo disfarçado. Paramos para comprar comida no caixa e perguntaram o que queríamos comer e beber. Falamos que não tínhamos dinheiro para beber nada e um catador de latas (chamado Natanael) disse que nos pagaria o refrigerante. Olhei para trás e não acreditei. Foi uma emoção ímpar porque uma pessoa como o Gugu, que mal saía de casa, comoveu-se muito com aquela realidade. A história do cara era tão boa que o Gugu, emocionado, mandou chamar o rapaz, conversou com ele, perguntou há quanto tempo não via a família, e mandou eu levá-lo de avião para Recife. Mas ele tinha medo. Disse que só andaria de ônibus. Foi ali que nasceu o quadro "De volta para a minha terra". Neste dia, o quadro "Sentindo na pele" deu 42 pontos de audiência. Gugu era muito generoso, tinha um coração gigante.

 

Como ele era no dia a dia, no trato com as pessoas?

Ele era calmo, costumava ficar muito no escritório dele, com toda a comunicação básica para fazer um bom trabalho, monitorar ibope. Quando resolvia sair, ele ia com o fiel escudeiro, o Niltinho, espécie de anjo da guarda dele. No programa, quando alguém chegava perto dele para contar um problema, ele ouvia e depois fazia uma surpresa. O próprio Liminha contou que tinha R$ 5 000 e sonhava ter um carro que custava R$ 60 000. Dias depois, o Gugu mandou o Niltinho levar o dinheiro para ele. Generosidade dele não era só com dinheiro, mas em gestos, palavras, ações. Ele foi ao enterro da minha mãe, em 2017, que foi no dia do meu aniversário, que ele adorava. Ele estava sempre pronto para me dar um abraço, um conforto. Eu ficava impressionado com o controle que ele tinha sobre o trabalho e a administração de suas coisas. Ele estava sempre alegre, era objetivo. Jamais o vi fazer alguma arrogância. Ele poderia levar um tapa na cara, era forte o suficiente para segurar.

 

 

Quando foi a última vez em que se falaram?

A última vez em que nos falamos pessoalmente foi na gravação do último programa do "Canta comigo", que vai ao ar em 4 de dezembro. Falamos depois por telefone. Foi numa quinta, antes de viajar para Orlando, falamos sobre vida pessoal, fim de ano... Ele tinha paixão pela família toda, todo ano, ele fazia questão de reunir a família e celebrar o Natal. Todo aniversário da dona Maria do Céu (mãe dele), ele fazia uma festa, viajava com a família toda, faziam cruzeiros. A mãe era muito especial para ele, uma loucura. Ele era uma pessoa muito família. Ele estava vivendo no exterior do jeito que gostaria: tendo uma vida normal, fazendo as coisas dele, andando de patinete, bicicleta, indo à padaria, ao supermercado, como uma pessoa normal...

 

Foi exatamente numa situação cotidiana assim que aconteceu o acidente, né?

Teve um momento em que estávamos gravando o "Canta comigo", eu levei um tombo no cenário. Se eu tivesse batido a cabeça na quina do palco, eu teria morrido, tenho 61 anos. Graças a Deus, não deu em nada. Falei para ele: Gugu, a morte é um frame da vida. Quando ela chega, você não sente. De fato, é isso mesmo. Ele, todo preocupado, mandava sempre o Niltinho me ligar para saber se eu estava bem.

 

 

Como bons "irmãos", já tiveram algum conflito?

Ele era um cara super do bem e também exigente, pontual. Mas só discordamos em coisas banais. Nada de importante. Todos os nossos grandes momentos foram de parceria.

 

Tem algo que gostaria de ter dito a ele e não disse?

Da última vez em que tivemos contato, eu disse a ele: "te amo". Graças a Deus. Sempre dizia o quanto ele era importante para mim, me fazia falta. Sempre que possível, estava ao lado dele.

 

Como reagiu quando soube da morte dele? O que passou pela sua cabeça?

Eu não acreditei quando soube da notícia. Logo de manhã cedo, a advogada dele me ligou pedindo uma ajuda com um documento para a mãe dele viajar para os Estados Unidos. Não sabia de nada. Por volta das 11h, um jornalista me ligou e perguntou se era verdade que o Gugu tinha se acidentado. Porque semanas antes houve aquele infeliz boato da fake news sobre a morte do Gugu. Queria muito saber quem plantou isso, aliás, porque deixou o Gugu sentido e foi de muito mau gosto. Quando fui checar, soube do acidente, mas não da dimensão. Fiquei chocado, sem chão, imaginando que ele sairia dessa, afinal, era um super-homem. Talvez se saísse dessa, ele poderia vegetar. Não seria mais ele. Ele jamais ia querer essa vida para ele. Gugu não merecia um grand finale desse. Vou ao velório e ao enterro dar meu último adeus ao corpo, porque a alma dele já subiu e está em um bom lugar. Ele era devoto de Nossa Senhora Aparecida, sempre quis o bem para todo mundo. Nunca o vi fazendo mal para ninguém. Só quero que ele esteja bem e que olhe pela gente, que nos guie.