Guia Descorchados causa polêmica ao criticar vinho brasileiro: 'Até pensam que atacamos o país'

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Obra de referência quando o assunto são os vinhos sul-americanos, o recém-lançado guia "Descorchados 2021" foi bombardeado nas redes sociais pelas críticas feitas ao vinho brasileiro. Na publicação, o idealizador e organizador Patricio Tapia afirmou que a experiência de degustar nossos tintos e brancos — "principalmente tintos — pode ser um pouco decepcionante, se comparada ao nível médio apresentado" pelos países vizinhos.

Tapia enumera problemas como a dificuldade de obtenção de frutas saudáveis; a extração excessiva; o abuso na utlização da madeira; e o ponto de maturação das uvas. Na avaliação, foram degustados 396 vinhos brasileiros tranquilos (sem borbulhas), mas só 46 foram selecionados e constam no livro, o pior desempenho percentual entre os quatro países (os outros são Argentina, Chile e Uruguai). Para ele, provar vinhos tranquilos no Brasil atualmente "é semelhante a fazer isso na Argentina e no Chile há mais de 20 anos".

De positiva na produção nacional, ele aponta a grande evolução dos espumantes, em todos os estilos. E destaca produtores como Família Geisse, Casa Valduga e Adolfo Lona. Ele ainda se diz entusiasmado com avanço dos nossos moscatéis, "as melhores borbulhas meio doces que se pode obter no mercado sul-americano".

Em entrevista por e-mail, o chileno Patricio Tapia explica as avaliações do guia e como reagiu às críticas. Confira abaixo:

Por que acha que os vinhos tranquilos do Brasil têm pouca consistência? Por que são comparados aos da Argentina e do Chile no passado?

Essas são duas questões importantes. Em primeiro lugar, acredito que o desafio climático, especialmente em áreas úmidas, mina essa consistência. E em segundo lugar, sinto que de um modo geral, o produtor brasileiro ainda não encontrou o seu estilo, a forma de captar a expressão do seu terroir. Há exceções, aliás, e essas exceções fazem vinhos muito bons. E eu as comparo com o passado da Argentina ou do Chile porque ele foi feito lá, também. Façam vinhos superextraídos, doces e envelhecidos na madeira, porque se acreditava que quanto mais gordos, quanto mais grandes, melhor. Madeira, sobreextração e sobre maturação ou falta dela, são fatores habituais para disfarçar o terroir. Há uma certa ingenuidade e um descompasso com o que o mercado exige hoje. Já se foram os dias em que o vinho pesava como um tijolo na boca.

Como você está reagindo às críticas que essa afirmação ganhou no Brasil? Isso é comum acontecer com o guia?

Houve reações muito acaloradas nas redes sociais. Pessoas que se ofenderam com nossas avaliações e comentários, pessoas que até pensam que atacamos o país. Costuma acontecer. Já aconteceu conosco no Chile e na Argentina. Por exemplo, na Argentina, disseram-nos que fomos pagos pelo governo chileno para desacreditar o vinho argentino. E vice-versa! Essas críticas acabaram sendo muito construtivas e hoje quem nos atacou valoriza nossa atitude no passado, e o trabalho que realizamos. Às vezes, há paixões desenfreadas no vinho. Faz parte!

Como os vinhos tranquilos brasileiros se comparam aos da América do Sul hoje?

Eles estão alguns passos atrás. Mas, essa declaração deve ter um contexto. No "Descorchados", há mais de duas décadas, experimentamos toda a América do Sul, então temos um conteúdo muito claro para afirmar isso.

Além disso, no Brasil provamos cerca de 800 a 900 vinhos anuais, o que não é tudo, mas nos permite ter uma visão bastante panorâmica. E, desse ponto de vista, podemos afirmar que, no vinho tranquilo brasileiro, há deliciosos exemplos, mas em sua média ainda está abaixo do nível sul-americano. Isso é questão de tempo. E nossas críticas visam a apressar esse processo.

O Brasil usa muito extração e muita madeira?

Não tudo, mas sim, principalmente aqueles vinhos caros, que procuram impressionar mais pelo tamanho e peso do que pela complexidade. A mesma coisa acontecia na Argentina e no Chile, e continua acontecendo, embora muito menos.

O guia diz que os empumantes brasileiros continuam em alta. Quais são as boas notícias?

Em primeiro lugar, essa qualidade vai ganhando consistência ano a ano, o que em termos simples, significa que o consumidor tem que se sentir muito mais seguro de encontrar qualidade nas borbulhas brasileiras. E mais tarde, em uma variedade de estilos. O estilo "sur lie" (sem a degola) é uma tendência notável, mas talvez seja algo mais para conhecedores. Por outro lado, nos segmentos brut e extra brut, é onde o desenvolvimento é mais sentido.

Pode dar sua opinião sobre o espumante Moscatel brasileiro?

Acho que é algo único. No "Descorchados", tentamos fazer uma espécie de campanha para que este estilo fosse conhecido no mundo. Seu equilíbrio é impressionante. Vinhos com tanto açúcar, mas ao mesmo tempo com tanta acidez e tanta fruta. É como comer pêssegos com borbulhas. Os melhores exemplos são simplesmente irresistíveis. Acho que tem se que prestar muita atenção aqui, principalmente em Farroupilha, berço do estilo.

É curioso que o melhor tinto do Brasil seja um clarete (o Clarete 2020, da Era dos Ventos)?

Pode ser. Admito que há algo de rebelde e irônico nessa escolha. Um vinho simples, de fruta, para beber no verão à beira da piscina, como o melhor tinto brasileiro do ano? Um tinto que se parece mais com um Rosé do que com um tinto? Este é o Sr. Tapia maluco? Mas esse é exatamente o ponto. Você deve aprender a andar antes de correr. O vinho brasileiro precisa encontrar clareza frutada, frescor e, também, precisa se levar menos a sério, fazer vinhos divertidos e simples e, acima de tudo, não acreditar que o melhor deve ser um blockbuster doce e tânico. A beleza também é encontrada na sutileza. E este clarete é um belo e sutil vinho.

E que o melhor branco seja feito com uma uva ibérica (o Revolução White Alvarinho 2020, da vinícola Guahyba)?

Também parece estranho, mas não tanto. Na América do Sul, a viticultura ainda busca sua identidade. Se você me perguntar, ainda não estou completamente certo de que a Malbec é a grande uva para capturar o espírito dos Andes no Vale do Uco. Na Borgonha, levou séculos para definir a Pinot Noir como a variedade principal. Pelo mesmo, nem descartaria a Alvarinho (de Revolução White de Guahyba Estates Wines) como o possível transmissor de lugar naquela nova região de Porto Alegre. De momento, o que posso garantir é que este branco é delicioso e que estamos muito entusiasmados por vir de uma nova área. No "Descorchados", uma das nossas principais (e mais divertidas) tarefas é mostrar novos caminhos: novas abordagens ao vinho, novos lugares, novos nomes.

Os espumantes da Família Geisse são o melhor ponto de partida para conhecer o melhor do Brasil?

Geisse é uma porta. Mas há mais. Muitas mais. Tem Adolfo Lona, Valduga, Estrelas do Brasil, Luiz Argenta, Maximo Boschi, Pizzato, Hermann, Refinaria, Peterlongo. A lista é longa e posso continuar...

O guia "Descorchados 2021" (R$ 179) é publicado pelo Inner Group, à venda no site

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