Guia supremo acusa inimigos do Irã de fomentarem distúrbios no país

Por Siavosh GHAZI
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Guia supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, em 2 de janeiro de 2018

O guia supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, rompeu nesta terça-feira (2) seu silêncio sobre a onda de protestos que já dura seis dias e afirmou que os distúrbios são orquestrados pelos inimigos do país.

Nove pessoas morreram durante a noite de segunda no centro do país, onde os manifestante tentaram invadir um posto policial.

Desde o início das manifestações, na quinta-feira passada, 21 pessoas morreram, incluindo 16 manifestantes, em todo país por eventos relacionados a esses protestos, que começaram em Machhad (nordeste), espalhando-se rapidamente.

A capital Teerã tem sido menos afetada que as pequenas e médias cidades, mas 450 pessoas foram detidas desde sábado, segundo as autoridades locais.

As autoridades mobilizaram agentes adicionais para fazer frente aos protestos, que não parecem particularmente estruturados.

Em sua primeira declaração desde o início da crise, o aiatolá Khamenei assegurou, em uma declaração transmitida pela emissora de televisão oficial que, "nos acontecimentos dos últimos dias, os inimigos se uniram e estão usando de todos seus meios, seu dinheiro, suas armas, suas políticas e seus serviços de segurança para criar problemas para o regime islâmico".

"Esperam apenas uma chance para se infiltrar e atacar o povo iraniano", declarou, sem especificar os "inimigos".

"O que pode impedir o inimigo de agir é o espírito de coragem, de sacrifício e a fé do povo, dos quais vocês são testemunha", acrescentou, dirigindo-se às famílias dos soldados mortos em guerra.

As autoridades acusam os grupos de oposição "contrarrevolucionários" baseados no exterior - nos Estados Unidos e na Arábia Saudita, por exemplo - de tentarem se aproveitar da insatisfação da população para criar problemas no país.

O presidente americano Donald Trump, que fez do Irã um dos seus principais alvos, reagiu várias vezes às manifestações, considerando que mostravam que o "tempo da mudança" chegou no país.

Nesta terça-feira, Trump elogiou os manifestantes iranianos por denunciar o regime brutal e corrupto de Teerã. "O povo do Irã está finalmente agindo contra o brutal e corrupto regime iraniano", tuitou.

Em resposta, um porta-voz do ministério iraniano das Relações Exteriores, Bahram Ghassemi, afirmou que "ao invés de perder seu tempo enviando tuítes inúteis e insultantes contra outros povos, (Trump) deveria se ocupar dos problemas internos de seu país, principalmente o assassinato diário de dezenas de pessoas e milhões de desabrigados e famintos".

A embaixadora americana na ONU, Nikki Haley, declarou nesta terça-feira que Washington pedirá uma reunião de emergência do Conselho de Segurança sobre os protestos no Irã.

"A ONU deve se manifestar nos próximos dias. Convocaremos uma sessão de emergência", disse Haley.

O presidente iraniano, Hasan Rohani, pediu ao seu homólogo francês, Emmanuel Macron, que adote medidas contra um "grupo terrorista" iraniano baseado na França e que estaria envolvido nos protestos.

Em conversa por telefone com Rohani, o presidente francês se disse "preocupado" com o "número de vítimas nas manifestações" e pediu "prudência e calma" ao governo iraniano.

Os dois líderes decidiram adiar a visita que o chefe da diplomacia francesa, Jean-Yves Le Drian, faria a Teerã neste final de semana, precisou a chancelaria francesa.

A chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, lamentou nesta terça-feira "a inaceitável perda de vidas humanas" e pediu a "todas as partes envolvidas" que se abstenham de "qualquer violência".

- 'Punição mais pesada' -

O principal grupo reformista iraniano, presidido pelo ex-presidente Mohammad Khatami, condenou a violência nos protestos e o apoio dos Estados Unidos aos manifestantes, em um comunicado divulgado pela imprensa.

"Sem dúvida, o povo iraniano enfrenta dificuldades em suas vidas diárias, mas os acontecimentos dos últimos dias mostram que oportunistas e perturbadores exploram as manifestações para criar problemas", afirma a declaração da Associação de Combatentes Religiosos.

"Os inimigos do Irã, liderados pelos Estados Unidos e seus agentes, encorajam as ações violentas".

Segundo a televisão pública iraniana, nove pessoas - seis manifestantes, um garoto, um policial e um Guardião da Revolução - morreram durante protestos noturnos na região de Isfahan, no centro do Irã.

Seis manifestantes morreram em confrontos com as forças de segurança, quando tentavam invadir uma delegacia da cidade de Qahderijan, na província de Isfahan, indicou a fonte.

Um menino de 11 anos morreu, e seu pai foi ferido por disparos de manifestantes em Khomeinyshahr, acrescentou a mesma fonte.

Um membro dos Guardiães da Revolução, força de elite iraniana, morreu vítima de um disparo de um fuzil de caça em Kahriz Sang, indicou a televisão estatal.

Na segunda-feira, as autoridades haviam anunciado a morte de um policial, vítima de um disparo de fuzil de caça, em Najafabad.

A televisão estatal indicou, por sua vez, que cerca de 100 pessoas foram detidas ontem à noite na província de Isfahan. Desde sábado, foram pelo menos 450.

"Pelo menos 200 pessoas foram detidas no sábado; 150, no domingo; e 100, na segunda", declarou o subprefeito de Teerã, Ali-Asghar Nasserbakht, à agência de notícias Ilna, ligadas aos reformistas.

"A cada dia que passa, o crime das pessoas detidas são mais graves e sua punição será mais pesada. Não vamos mais considerá-los como manifestantes que exigem seus direitos, mas pessoas que atacam o regime", declarou o chefe do tribunal revolucionário do Teerã, Mussa Ghazanfarabadi, citado pela agência Tasnim.

O general Rasul Sanayrad, assessor político do líder dos Guardiões da Revolução, afirmou que "os Mujahedins do povo foram encarregados ​​pelos Al-Saud (a família que reina sobre a Arábia Saudita, grande rival regional da Irã) e alguns países europeus para criar insegurança", de acordo com a agência Tasnim.

As mobilizações contra o governo, que continuam apesar do bloqueio das redes sociais Telegram e Instagram, são as mais importantes desde o movimento de 2009 contra a reeleição do presidente ultraconservador Mahmud Ahmadinejad.

Acusando uma "pequena minoria" de "perturbadores", o atual presidente Hassan Rohani assegurou na segunda-feira que "o povo responderia" à crise, acrescentando que o governo estava determinado a "resolver os problemas da população", em particular o desemprego (12% da população ativa).

Eleito para um segundo mandato em maio, Rohani fez com que o Irã rompesse seu isolamento com o levantamento das sanções internacionais relacionadas às atividades nucleares de Teerã, o que fez com que os iranianos esperassem uma melhoria na situação econômica.

Mas este levantamento das sanções, consequência da assinatura em 2015 de um acordo nuclear histórico com as grandes potências, demora a dar frutos.