Boulos se aproxima de evangélicos. E essa pode ser a maior novidade de 2022

Matheus Pichonelli
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Presidential candidate Guilherme Boulos of the Socialism and Freedom Party (PSOL) attends an event in Sao Paulo, Brazil August 20, 2018. REUTERS/Paulo Whitaker
Guilherme Boulos, do PSOL, durante evento das eleições 2020. Paulo Whitaker/Reuters

Segundo colocado na disputa pela Prefeitura de São Paulo, no ano passado, Guilherme Boulos, do PSOL, anunciou que pretende agora se candidatar a governador.

Nas últimas eleições, o partido fez figuração em território paulista. Em 2018, por exemplo, a aposta foi na candidatura da Professora Lisete, que ficou em oitavo lugar, com 2,5% dos votos.

O desempenho do líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) na corrida paulistana permite pensar em planos mais ousados, para ele e para a legenda.

Em 2020, Boulos se aliou à deputada e ex-prefeita Luiza Erundina, também do PSOL, e compensou a falta de experiência administrativa e o pouco tempo de TV, seus calcanhares de Aquiles, com uma bem sucedida estratégia de comunicação digital nas redes; lá, conseguiu desconstruir a imagem de líder incendiário impressa pelos opositores.

Com a exceção de uma cotovelada aqui e ali, a disputa até a linha de chegada foi marcada pela civilidade entre os candidatos do PSOL e do PSDB, Bruno Covas, que acabou reeleito. Eles nem pareciam estar no mesmo país onde, na disputa presidencial, venceu a última corrida quem gritou e ofendeu mais.

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Um sinal de que a candidatura para o Palácio dos Bandeirantes não é balão de ensaio é a aproximação de Boulos com o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, pastor licenciado da Igreja Universal.

No ano passado, o partido lançou Celso Russomanno à Prefeitura de São Paulo e Marcelo Crivella, no Rio. Ambos contavam com o apoio de Jair Bolsonaro e foram derrotados.

A aproximação sinaliza pragmatismo mas também uma necessidade. Qualquer liderança hoje à esquerda do tabuleiro político sabe que a (re)construção de pontes antecede a pretensão eleitoral. E, hoje, as duas pontes mais deterioradas para a esquerda estão no campo da segurança pública e das denominações religiosas, sobretudo as pentecostais e neopentecostais, hoje alinhadas ao bolsonarismo. O primeiro pressuposto é saber que nem todas as lideranças abertas ao diálogo se resumem a pastores midiáticos que se abrigam no bolsonarismo e seu negacionismo mostrado na pandemia por interesses políticas e comerciais.

O joio e o trigo são, inclusive, elementos de uma importante passagem bíblica. A figura dos vendilhões do templo, também. Convém não juntar todos no mesmo balaio ideológico. 

O resultado da aproximação de Boulos pode ser incerto, mas seu pressuposto está correto. Em sua coluna na Folha de S.Paulo, o líder do MTST fez uma espécie de carta de intenções que deveria servir de base para outras lideranças do mesmo campo. Ele contou a história de uma amiga que encontrou em uma igreja neopentecostal o acolhimento que não encontrava em outros grupos sociais. Lá, seu aniversário é comemorado com um bolo todo ano. Parece um detalhe, mas não é: nunca ninguém havia lembrado de seu aniversário até então.

No artigo, Boulos reconhece as igrejas como uma rede de apoio social fundamental em um contexto marcado pela depressão, pelas humilhações e pela falta de oportunidades.

A análise acontece em um contexto de divórcio entre grupos religiosos e lideranças progressistas, antes conectados às chamadas comunidades eclesiais de base, muito atuantes nas periferias até os anos 1980. Muita coisa mudou de lá pra cá. E, na guerra cultural movida pelas redes, é a esquerda que ficou associada ao sistema, a um certo elitismo e ao distanciamento com suas bases.

Entender as razões desse divórcio, como tenta o pré-candidato em seu artigo, é o primeiro dos muitos passos para a reconstrução dessa ponte. A interdição não será superada quando, em uma ponta até a outra, essa relação é mediada pela caricatura, pela demonização e pelo preconceito.