Brasileiro está menos conservador. E isso já se reflete nas pesquisas

A student carries on her backpack a mask of Brazilian President Jair Bolsonaro in front of riot police during a protest against the education policies of Bolsonaro's governments in Sao Paulo, Brazil, May 23, 2019. REUTERS/Nacho Doce
Foto: Nacho Doce/Reuters

Uma pesquisa Datafolha divulgada no último fim de semana apontou que vem perdendo força a onda conservadora predominante no país desde as manifestações de junho de 2013.

Por razões diversas, os protestos pelas ruas brasileiras naquele ano fizeram com que a direita e seus extremos saíssem do armário e se tornassem uma tendência nas eleições seguintes.

No auge dessa onda, Jair Bolsonaro foi eleito em 2018 com a convicção de que tinha procuração para falar pela “maioria” dos brasileiros, a quem às minorias caberia apenas se curvar e obedecer. Essa “maioria”, segundo a visão mais rarefeita do fenômeno, era liberal na economia e conservadora nos costumes.

Se era, não é mais.

O levantamento do instituto mostrou crescimento do número de eleitores que se identificam com a esquerda em relação a anos recentes. Esse índice é hoje de 49%, contra 41% em novembro 2013.

Já a direita encolheu. Há menos de nove anos, 39% se identificavam assim. Hoje são 34%.

A mudança é observada na opinião dos brasileiros em relação a temas que dissociam as posições políticas entre pontas distintas do debate público. No período, cresceu o número de pessoas contrárias à pena de morte (eram 49%, hoje são 61%), que associam a pobreza à falta de oportunidades (de 65% para 76%) e que se mostram receptivas a pessoas pobres de outros países que vêm trabalhar no Brasil (de 67% para 76%) —um contraste e tanto ao discurso do atual presidente que já se referiu a essas pessoas como "escória do mundo".

A pesquisa apontou também que existe maior aceitação hoje a homossexuais do que em 2013. Oito em cada dez brasileiros (79%) dizem que a homossexualidade deve ser aceita por toda a sociedade (antes eram 67%), enquanto apenas 16% dizem o contrário.

O tema não é exatamente uma agenda exclusiva da esquerda, mas a agressividade contra a causa LGBTQI+ é recorrente nas falas e posições de lideranças e partidos à direita. Bolsonaro entre eles.

A pesquisa mostrou também que caiu 12% o índice de eleitores para quem acreditar em Deus torna as pessoas melhores. Esta, porém, ainda é a visão predominante para 79%.

Embora tenha caído, também é majoritária a opinião de que posse de armas é um risco e representa ameaça à vida de outras pessoas – passou de 68% para 63%.

O armamento civil, vale lembrar, é tema central no governo de Bolsonaro. Apesar da campanha, e dos esforços para associar a compra de armas à segurança pessoal, apenas 35% dos eleitores fecham com o presidente nessa questão. O número já foi maior, mas também já foi menor.

No campo econômico, a maioria afirma que o governo deve atuar com força para coibir abuso de empresas (50%), ajudar empresas nacionais em risco de falência (71%) e tem o dever de se responsabilizar por investimentos (71%). A maioria (56%) também concorda que as leis trabalhistas mais protegem os empregados do que atrapalham o crescimento das empresas.

Apesar disso, 58% acreditam que quanto menos depender do governo, melhor será a sua vida.

A pesquisa serve como uma espécie de radiografia dos humores dos brasileiros às vésperas da eleição.

Esses humores mostram que o apoio a pautas ora mais conservadoras, ora mais liberais, opera como pêndulo ao longo da história.

Há quatro anos, o país vivia o efeito-rebote da operação Lava Jato e do discurso moralizante que englobou ao campo político palavras como Deus, família e combate à corrupção.

As tendências desse campo talvez fossem outras se os sucessores dos governos identificados com a esquerda fossem literalmente um sucesso de público e renda.

O endosso às forças que se opunham às gestões petistas viraram carta-branca para adoção de medidas econômicas como as reformas previdenciárias, trabalhistas e planos de privatização.

Hoje o país está mais pobre do que no começo da última década, com menos emprego, menos renda e mais inflação. E não necessariamente menos corrupto.

Bolsonaro e os grupos políticos conservadores que acreditaram falar em nome do povo talvez não tenham percebido que a sociedade é um organismo vivo que muda e oscila com o tempo.

Quanto mais o tempo passa, mais fica evidente que o ex-capitão foi eleito, em circunstâncias específicas pós-Lava Jato, apesar de sua intolerância a pautas progressistas, e não por causa dela.

A pesquisa mostra que será um erro apostar na mesma agenda de costumes de quatro anos atrás. Os desejos e necessidades hoje são outros. E serão outros daqui a quatro anos se tudo continuar mudando para que no andar de cima tudo siga como estava desde 1500.

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