A guitarra "entorta cérebros"de Allan Holdsworth se calou para sempre

Há muitos anos atrás, tive a oportunidade de fazer uma entrevista por telefone com Eddie Van Halen, na época em que ele e sua banda haviam acabado de lançar o pavoroso III. Em um dado momento do papo, perguntei a ele o que mais poderia assustá-lo ou deixá-lo apreensivo naquela altura da carreira. Quase sem pestanejar, ele respondeu “Alguém jogar uma guitarra na minha mão enquanto eu estivesse ao lado de Allan Holdsworth. Eu ficaria petrificado! Não saberia nem por onde começar a tocar ao lado dele”. John McLaughlin, famoso desde os tempos em que sua Mahavishnu Orchestra havia se tornado referência primordial do chamado “jazz rock” nos anos 70, sempre diz “eu teria roubado, na cara dura, toda e qualquer ideia que Allan tocasse em sua guitarra, desde que eu conseguisse decifrar o que ele faz. Juro por todos os deuses que até hoje eu nem cheguei perto disso”.

Não fiquei surpreso com a resposta de Eddie e a declaração de McLaughlin. Tenho a total certeza de que não só eles, mas também Steve Vai, Brian May, Joe Satriani, Eric Clapton e quem mais você pensar teria receio de tocar ao lado dele e “passar vergonha”. Com uma guitarra na mão, Holdsworth parecia ter vindo de Saturno…

Musicalmente, ele esteve próximo da genialidade. Suas linhas harmônicas e melódicas eram de tal forma belas e desconcertantes ao mesmo tempo que a audição de seus discos era uma experiência única, que começava a ser compreendida depois que umas semanas de “vou ouvir essa porra de novo para ver se eu entendo alguma coisa”. E esse pensamento nunca surgia de maneira negativa, mas sempre em tom de desafio. A música de Holdsworth estava ali. A gente é que não tinha células cerebrais suficientes para decodificar o que ele queria dizer com o instrumento. A incompetência era nossa!

A primeira vez que ouvi a guitarra de Holdsworth foi quando comprei um LP do grupo inglês Soft Machine, Bundles, que por incrível que pareça havia sido lançado no Brasil em 1975. Até hoje não consigo mensurar o impacto de ouvir aquele som aos quinze anos de idade. Era um jazz rock com os dois pés enviados no rock progressivo, um troço tão contagiante quanto uma orgia só com mulheres lindas. E Holdsworth solando sua guitarra de um modo tão maluco que fazia nossos cérebros rodopiarem dentro das caixas cranianas como se fosse o Diabo da Tasmânia dos desenhos do Pernalonga. Dá uma ouvida no álbum na íntegra aí embaixo e comprove que não estou errado…

Fiquei tão absolutamente chapado com o som dele que saí atrás de tudo o que havia lançado e lançou desde então, como os álbuns do Lifetime de Tony Williams (Believe It, de 1975, e Million Dollar Legs, de 1976), do Gong (Gazeuse, de 1976, e Expresso II, de 1978) e, principalmente, do violinista francês Jean-Luc Ponty (Enigmatic Ocean, de 1977) e do ex-baterista do Yes e do King Crimson, Bill Bruford (os extraordinários Feels Good to Me, de 1978, e One of a Kind, do ano seguinte).

Em 1978, quando comprei o primeiro e autointitulado LP do U.K.– a superbanda que tinha Holdsworth ao lado de Bill Bruford (ex-Yes, ex-King Crimson), do baixista/vocalista John Wetton (ex-Family, ex-King Crimson) e do tecladista/violinista Eddie Jobson (ex-Roxy Music) -, confesso que meu cérebro deu uma forte entortada.

Dois de seus inúmeros álbuns solo, I.O.U. (1982) e, principalmente, o inacreditável Metal Fatigue (de 1985), ficaram meses rodando diariamente em minha vitrola.

Só recentemente pude tomar contato com os primórdios de seu trabalho como guitarrista com o lançamento em CD do único disco do grupo Igginbottom, o esquisito Igginbottom’s Wrench, lançado originalmente em 1969, assim como os álbuns que lançou com as bandas Nucleus, do escocês Ian Carr (Belladonna, de 1972), e Tempest (Tempest, de 1973).

Holdsworth morreu inesperadamente no sábado passado. Nem consegui lhe prestar uma de minhas “homenagens em vida”. Todo mundo foi pego de surpresa, incluindo sua família. Todo guitarrista que prima pela excelência técnica e execução impecável – e mais o tio aqui – está com o coração um pouco mais pesado hoje…