Guru da cloroquina alterou dados de pelo menos quatro pacientes e distorceu estudo, diz TV francesa

O médico e microbiologista francês Didier Raoult foi acusado nesta quinta-feira de alterar dados de quatro pacientes e, com isso, distorcer o resultado de um estudo sobre o uso da hidroxicloroquina como tratamento para a Covid-19. O especialista foi o principal promotor do medicamento como forma de enfrentar o coronavírus. Pesquisas publicadas posteriormente comprovaram que o remédio não tem eficácia contra a doença.

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As novas revelações contra Raoult foram publicadas no "Complément d'Enquête", um popular programa jornalístico da França. A reportagem teve acesso a documentos internos do Instituto Hospitalar Universitário Méditerranée Infection (IHU), de Marselha, onde ele atuava.

Os registros hospitalares mostram que o microbiologista inseriu erroneamente os dados de ao menos quatro voluntários do estudo. A amostra da pesquisa era composta por 16 participantes.

"Erro ou manipulação? O programa apresenta depoimentos que defendem a segunda opção", escreveu o jornal francês "L'Indépendant". A íntegra da reportagem será publicada nesta sexta-feira.

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O programa televisivo pediu a um grupo de cientistas que repetissem o estudo, mas com base em dados reais. O resultado não permitiu afirmar que o tratamento com hidroxicloroquina é eficaz. A conclusão difere completamente daquela encontrada por Raoult nos primeiros meses de pandemia.

Raoult ganhou notoriedade durante a pandemia, depois que propôs a que a hidroxicloroquina, um remédio para malária, seria eficaz contra o coronavírus. Ele teve apoiadores notáveis na política, como o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. Seu nome também foi citado por senadores durante a CPI da Covid no Brasil.

Procurado pela imprensa francesa nesta quinta-feira, o microbiologista não se manifestou.

Punições

Principal promotor da hidroxicloroquina como tratamento para a Covid-19, o médico e microbiologista francês Didier Raoult foi acusado de "graves violações e descumprimento dos regulamentos para pesquisa envolvendo a pessoa humana" na França.

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"As regras éticas não têm sido sistematicamente respeitadas, impossibilitando assegurar a proteção das pessoas a um nível suficiente e conforme exigido pela regulamentação", afirmou a Agência Nacional de Segurança de Medicamentos (ANSM) em um comunicado de imprensa divulgado em abril.

Em dezembro do ano passado, Raoult já havia recebido uma "reprimenda" da Ordem dos Médicos da região administrativa de Nova Aquitânia, na França, por ter violado o código de ética ao promover a substância comprovadamente ineficaz contra o coronavírus.

As acusações, entre elas a de "charlatanismo", foram apreciadas pela Câmara Disciplinar da entidade, composta por oito médicos e presidida por um magistrado administrativo.